MDig LMNucleus CMS v3.66 <![CDATA[Por que os bebês adoram brincar de peek-a-boo! (açou!)?]]> Redacao 2026-05-04T23:50:45Z 2026-05-04T20:50:45-03:00 Por que os bebês adoram brincar de peek-a-boo! (açou!)?

Na Itália, gioco del cucù. Os palestinos dizem ba’ ’éno. No Japão é inai-inai...ba!. No Brasil é açou!. Mas em todos os idiomas, a resposta costuma ser a mesma. O esconde-esconde é uma fonte quase universal de risos e conexão para bebês e adultos: é a primeira brincadeira que quase todo mundo faz. Então, o que há nessa brincadeira boba que os bebês adoram tanto? Bem, primeiro é preciso dizer que, embora os bebês se desenvolvam em ritmos diferentes, muitas habilidades cognitivas e motoras surgem em uma determinada ordem.

Por que os bebês adoram brincar de peek-a-boo! (açou!)?

Por exemplo, enquanto bebês de 6 meses geralmente conseguem pegar coisas, e logo em seguida soltá-las, andar e falar geralmente começam por volta dos 12 meses.

Essa linha do tempo foi formalmente mapeada pela primeira vez em 1936 pelo psicólogo suíço Jean Piaget. E embora a maioria dos pesquisadores modernos concorde que esse processo é mais fluido do que Jean acreditava, os desenvolvimentos iniciais que ele identificou são fundamentais para a compreensão do esconde-esconde.

Primeiro, o processamento facial. Isso acontece quase imediatamente, recém-nascidos com apenas dois dias de vida conseguem reconhecer os rostos de seus cuidadores, ainda que a visão clara com detalhes só chegue entre 1 e 2 meses.

Depois, por volta de 6 a 10 semanas, os bebês começam a sorrir socialmente — é quando eles percebem rostos rindo ou sorrindo por perto e começam a imitá-los.

A voz e as vocalizações dos pais durante o jogo também são fundamentais para a brincadeira, muitas vezes criando um som de "açooouuu!, que sinaliza a expectativa e o reencontro da criança.

Os pais geralmente usam uma vocalização prolongada e altamente estereotipada para criar tensão e sinalizar sua presença.

Entre 2 e 4 meses, eles podem começar a entender causa e efeito. E, finalmente, entre 4 e 7 meses, eles aprendem a "permanência do objeto.

Piaget descreveu isso como a compreensão de que pessoas e objetos continuam a existir mesmo quando você não pode vê-los.

Os sons, combinados com o ato de se esconder, ensinam aos bebês sobre a permanência do objeto, que passam a compreender que o pai ou a mãe ainda existe mesmo quando está escondido, o que fortalece a confiança. A voz alegre e aguda regula o sistema nervoso do bebê e cria um vínculo.

Portanto, antes desse período, "fora da vista pode literalmente significar "fora da mente", tornando esconder o rosto algo semelhante a um truque de mágica.

Antes da permanência do objeto, esse ato de desaparecer pode variar de confuso a agradavelmente surpreendente. Mas, aos 9 meses, esses desenvolvimentos trabalham juntos para um desempenho máximo no jogo de açou!.

Nessa idade, os bebês conseguem se concentrar na brincadeira por mais tempo, prever o momento da revelação e até mesmo procurar o objeto ou a pessoa escondida. E como os bebês aprendem sobre o mundo brincando, o esconde-esconde é um dos seus primeiros ensinamentos.

Em um estudo, bebês de 11 meses foram expostos a uma barreira, cuja parte inferior estava escondida atrás de uma tela. Em seguida, os pesquisadores rolaram bolas e carrinhos de brinquedo atrás da tela, removendo-a depois para mostrar que os brinquedos haviam parado na barreira, como esperado, ou, de alguma forma, a atravessado.

Os bebês que viram esses brinquedos aparentemente mágicos demonstraram mais interesse neles depois, chegando a ignorar novos objetos em favor de brinquedos que desafiavam suas expectativas.

As expectativas sociais que o esconde-esconde desenvolve podem ser ainda mais importantes. O jogo apresenta várias características do que os pesquisadores chamam de brincadeira social: contato visual, alternância de turnos e atenção conjunta.

Essas habilidades são a base da conversa humana e, como se trata de uma conversa, o que o adulto faz importa. Assim como os cuidadores aprendem a interpretar o choro e os sinais verbais de seus bebês, os bebês aprendem como os adultos respondem ao seu comportamento.

Alguns pesquisadores da área de brincadeiras chamam essa interação recíproca de "servir e responder", e o açou! é um excelente exemplo disso.

Essa estrutura de chamada e resposta também explica por que alguns psicólogos descrevem o esconde-esconde como a primeira piada do bebê. É uma interação em que o formato é confiável, mas o conteúdo é surpreendente.

À medida que outras habilidades motoras e cognitivas se desenvolvem, essa base de habilidades sociais e permanência do objeto influencia vários tipos de brincadeira.

Link do Youtube

Assim que as crianças começam a andar e falar, o peek-a-boo! geralmente evolui para o jogo de pique-esconde tradicional, embora elas geralmente não se escondam muito bem nessa idade devido ao fraco controle dos impulsos e à falta de teoria da mente.

Essa teoria é a capacidade de entender, imaginar e prever os estados mentais de outras pessoas. Sem ela, uma criança pode pensar que está escondida simplesmente cobrindo os próprios olhos, afinal, se ela não consegue te ver, certamente você também não consegue vê-la.

Link do Youtube

Assim que a teoria da mente se desenvolve por volta dos 3 ou 4 anos, as crianças podem começar a brincar de faz-de-conta juntas, todas ocupando um mundo imaginário compartilhado.

Embora até mesmo as brincadeiras de faz-de-conta mais cooperativas sejam frequentemente recheadas de surpresas no estilo pique-esconde.

Link do Youtube

Aos 5 e 6 anos, a linguagem se expande para permitir negociações mais lúdicas, levando a jogos com regras mais complexas.

A partir desse ponto, os tipos de brincadeira favoritos da maioria das crianças são mais determinados por suas personalidades e interesses do que por seu desenvolvimento cognitivo.

Mas, independentemente da brincadeira que escolherem, como adultos, provavelmente acabarão brincando de açou! novamente, desta vez, de uma perspectiva totalmente nova.

Na adolescência, grande parte das crianças da minha cidade brincávamos de polícia-ladrão extremo, atravessando pastos e bairros, onde policiais tentavam capturar todos os ladrões e levá-los à prisão antes que o tempo determinado acabasse, enquanto ladrões buscavam tesouros ou tentavam escapar.

Mais tarde a brincadeira evoluiu para a guerra-de-mamonas, que se tornou "punk" demais com o uso de estilingues e passou a ser considerada realmente caso de polícia, quando crianças foram parar na Santa Casa com "mamonadas" na cara.

Link do Youtube

A mamona (Ricinus communis) é considerada uma das plantas mais tóxicas do mundo, mas a toxicidade da ricinina está concentrada principalmente no endosperma das suas sementes, e não necessariamente na sua seiva branca como ocorre em outras plantas.

As autoridades do país inteiro decidiram prevenir do que remediar, pis afinal apenas 2 sementes podem ser suficientes para matar um adulto se forem mastigadas. Em geral, quando uma criança coloca uma mamona na boca, a primeira reação é cuspir pois tem um gosto amargo sem igual. Eu sei!

Engana-se quem ache que a palavra pique-esconde derive de peek-a-boo!. Neste caso, a origem está no francês pique, relacionado ao conceito de um ponto ou local específico, geralmente um poste ou parede, onde o jogador está imune do pegador.

]]>
https://www.mdig.com.br/:1:61073
<![CDATA[Por que os bebês adoram brincar de peek-a-boo! (açou!)?]]> Redacao 2026-05-04T23:50:45Z 2026-05-04T20:50:45-03:00 Por que os bebês adoram brincar de peek-a-boo! (açou!)?

Na Itália, gioco del cucù. Os palestinos dizem ba’ ’éno. No Japão é inai-inai...ba!. No Brasil é açou!. Mas em todos os idiomas, a resposta costuma ser a mesma. O esconde-esconde é uma fonte quase universal de risos e conexão para bebês e adultos: é a primeira brincadeira que quase todo mundo faz. Então, o que há nessa brincadeira boba que os bebês adoram tanto? Bem, primeiro é preciso dizer que, embora os bebês se desenvolvam em ritmos diferentes, muitas habilidades cognitivas e motoras surgem em uma determinada ordem.

Por que os bebês adoram brincar de peek-a-boo! (açou!)?

Por exemplo, enquanto bebês de 6 meses geralmente conseguem pegar coisas, e logo em seguida soltá-las, andar e falar geralmente começam por volta dos 12 meses.

Essa linha do tempo foi formalmente mapeada pela primeira vez em 1936 pelo psicólogo suíço Jean Piaget. E embora a maioria dos pesquisadores modernos concorde que esse processo é mais fluido do que Jean acreditava, os desenvolvimentos iniciais que ele identificou são fundamentais para a compreensão do esconde-esconde.

Primeiro, o processamento facial. Isso acontece quase imediatamente, recém-nascidos com apenas dois dias de vida conseguem reconhecer os rostos de seus cuidadores, ainda que a visão clara com detalhes só chegue entre 1 e 2 meses.

Depois, por volta de 6 a 10 semanas, os bebês começam a sorrir socialmente — é quando eles percebem rostos rindo ou sorrindo por perto e começam a imitá-los.

A voz e as vocalizações dos pais durante o jogo também são fundamentais para a brincadeira, muitas vezes criando um som de "açooouuu!, que sinaliza a expectativa e o reencontro da criança.

Os pais geralmente usam uma vocalização prolongada e altamente estereotipada para criar tensão e sinalizar sua presença.

Entre 2 e 4 meses, eles podem começar a entender causa e efeito. E, finalmente, entre 4 e 7 meses, eles aprendem a "permanência do objeto.

Piaget descreveu isso como a compreensão de que pessoas e objetos continuam a existir mesmo quando você não pode vê-los.

Os sons, combinados com o ato de se esconder, ensinam aos bebês sobre a permanência do objeto, que passam a compreender que o pai ou a mãe ainda existe mesmo quando está escondido, o que fortalece a confiança. A voz alegre e aguda regula o sistema nervoso do bebê e cria um vínculo.

Portanto, antes desse período, "fora da vista pode literalmente significar "fora da mente", tornando esconder o rosto algo semelhante a um truque de mágica.

Antes da permanência do objeto, esse ato de desaparecer pode variar de confuso a agradavelmente surpreendente. Mas, aos 9 meses, esses desenvolvimentos trabalham juntos para um desempenho máximo no jogo de açou!.

Nessa idade, os bebês conseguem se concentrar na brincadeira por mais tempo, prever o momento da revelação e até mesmo procurar o objeto ou a pessoa escondida. E como os bebês aprendem sobre o mundo brincando, o esconde-esconde é um dos seus primeiros ensinamentos.

Em um estudo, bebês de 11 meses foram expostos a uma barreira, cuja parte inferior estava escondida atrás de uma tela. Em seguida, os pesquisadores rolaram bolas e carrinhos de brinquedo atrás da tela, removendo-a depois para mostrar que os brinquedos haviam parado na barreira, como esperado, ou, de alguma forma, a atravessado.

Os bebês que viram esses brinquedos aparentemente mágicos demonstraram mais interesse neles depois, chegando a ignorar novos objetos em favor de brinquedos que desafiavam suas expectativas.

As expectativas sociais que o esconde-esconde desenvolve podem ser ainda mais importantes. O jogo apresenta várias características do que os pesquisadores chamam de brincadeira social: contato visual, alternância de turnos e atenção conjunta.

Essas habilidades são a base da conversa humana e, como se trata de uma conversa, o que o adulto faz importa. Assim como os cuidadores aprendem a interpretar o choro e os sinais verbais de seus bebês, os bebês aprendem como os adultos respondem ao seu comportamento.

Alguns pesquisadores da área de brincadeiras chamam essa interação recíproca de "servir e responder", e o açou! é um excelente exemplo disso.

Essa estrutura de chamada e resposta também explica por que alguns psicólogos descrevem o esconde-esconde como a primeira piada do bebê. É uma interação em que o formato é confiável, mas o conteúdo é surpreendente.

À medida que outras habilidades motoras e cognitivas se desenvolvem, essa base de habilidades sociais e permanência do objeto influencia vários tipos de brincadeira.

Link do Youtube

Assim que as crianças começam a andar e falar, o peek-a-boo! geralmente evolui para o jogo de pique-esconde tradicional, embora elas geralmente não se escondam muito bem nessa idade devido ao fraco controle dos impulsos e à falta de teoria da mente.

Essa teoria é a capacidade de entender, imaginar e prever os estados mentais de outras pessoas. Sem ela, uma criança pode pensar que está escondida simplesmente cobrindo os próprios olhos, afinal, se ela não consegue te ver, certamente você também não consegue vê-la.

Link do Youtube

Assim que a teoria da mente se desenvolve por volta dos 3 ou 4 anos, as crianças podem começar a brincar de faz-de-conta juntas, todas ocupando um mundo imaginário compartilhado.

Embora até mesmo as brincadeiras de faz-de-conta mais cooperativas sejam frequentemente recheadas de surpresas no estilo pique-esconde.

Link do Youtube

Aos 5 e 6 anos, a linguagem se expande para permitir negociações mais lúdicas, levando a jogos com regras mais complexas.

A partir desse ponto, os tipos de brincadeira favoritos da maioria das crianças são mais determinados por suas personalidades e interesses do que por seu desenvolvimento cognitivo.

Mas, independentemente da brincadeira que escolherem, como adultos, provavelmente acabarão brincando de açou! novamente, desta vez, de uma perspectiva totalmente nova.

Na adolescência, grande parte das crianças da minha cidade brincávamos de polícia-ladrão extremo, atravessando pastos e bairros, onde policiais tentavam capturar todos os ladrões e levá-los à prisão antes que o tempo determinado acabasse, enquanto ladrões buscavam tesouros ou tentavam escapar.

Mais tarde a brincadeira evoluiu para a guerra-de-mamonas, que se tornou "punk" demais com o uso de estilingues e passou a ser considerada realmente caso de polícia, quando crianças foram parar na Santa Casa com "mamonadas" na cara.

Link do Youtube

A mamona (Ricinus communis) é considerada uma das plantas mais tóxicas do mundo, mas a toxicidade da ricinina está concentrada principalmente no endosperma das suas sementes, e não necessariamente na sua seiva branca como ocorre em outras plantas.

As autoridades do país inteiro decidiram prevenir do que remediar, pis afinal apenas 2 sementes podem ser suficientes para matar um adulto se forem mastigadas. Em geral, quando uma criança coloca uma mamona na boca, a primeira reação é cuspir pois tem um gosto amargo sem igual. Eu sei!

Engana-se quem ache que a palavra pique-esconde derive de peek-a-boo!. Neste caso, a origem está no francês pique, relacionado ao conceito de um ponto ou local específico, geralmente um poste ou parede, onde o jogador está imune do pegador.

]]>
https://www.mdig.com.br/:1:61073
<![CDATA[O dia em que a introdução de um clássico se tornou o maior hit do Youtube]]> Redacao 2026-05-04T21:26:15Z 2026-05-04T18:26:15-03:00 O dia em que a introdução de um clássico se tormou o maior hit do Youtube

Nós já vimos uma série de artigos mostrando como a plateia brasileira muitas vezes canta mais alto e forte do que a própria plateia no palco, mesmo que seja em um idioma diferente. Cantores estrangeiros, como a Billie Eilish já reclamaram ou se mostraram incomodados quando a plateia canta excessivamente alto, especialmente quando isso atrapalha a performance ou torna-se um "karaokê" que abafa o artista. No entanto, é importante diferenciar entre uma reclamação por frustração e uma interação de surpresa/admiração.

O dia em que a introdução de um clássico se tormou o maior hit do Youtube

Embora muitos artistas amem, alguns cantores de gêneros mais intimistas, como folk ou jazz, já expressaram incômodo quando o público brasileiro grita as letras em momentos calmos.

Muitas vezes, o cantor estrangeiro faz um "desabafo" bem-humorado, dizendo - "Vocês estão cantando mais alto que eu!" ou simplesmente para de cantar e aponta o microfone para a plateia, reconhecendo que a energia foi maior que a capacidade de som do palco.

Foi isso o que ocorreu com Matt Nathanson e sua banda tocando em um show em Clifton Park, Nova York, em 2014, quando ele dedilhou os primeiros acordes de "You Shook Me All Night Long", do AC/DC.

O mais legal desta apresentação é que eles não tinham planejado tocar a música, mas a plateia foi à loucura, então tocaram mais alguns acordes. É uma música que todo músico de rock pelo menos conhece um pouco, mesmo que já tenham se passado anos desde que a tocaram.

Eles ainda não tinham decidido tocar a música inteira até que o público começou a cantar, e a partir daí não havia mais volta.

Quando Matt chamou Andrew McMahon ao palco para tocar "American Girl" de Tom Petty, ele detonou o riff de "You Shook Me All Night Long" e a plateia simplesmente se entregou à música", diz a introdução do vídeo.

Dá para ver o baterista Chris Lovejoy e o guitarrista Aaron Tap trocando olhares, e então Andrew pergunta a Aaron:

- "O que está acontecendo?", e Aaron responde: - "Não sei... toca essa porra ai!"

Link do Youtube

A partir daí a coisa só melhorou! Aaron Tap arrasou no solo de guitarra, como Matt comenta depois da música.

"You Shook Me All Night Long" tem quase 50 anos. Eu me pergunto e duvido se alguma canção da safra atual será tão celebrada em um show daqui a 30 anos.

Em outra cena empolgante mais recente, o cantor nigeriano Rema teve um momento marcante onde foi impedido de cantar pela plateia que cantava sua música, e ele reagiu com surpresa.

Link do Youtube

O fato ocorreu durante um show que aconteceu em Melbourne, Austrália, em 2022, quando o público cantou o hit mundial chiclete "Calm Down" com tanta intensidade e volume que o cantor parou de cantar e reagiu com visível surpresa, emoção e gratidão.

Rema, ao perceber que a plateia sabia cada verso da música, parou de usar o microfone e deixou o público assumir o comando da performance.

Ele ficou parado no palco, sorrindo e admirado com a devoção dos fãs, com uma expressão que muitos descreveram como o momento em que ele percebeu o tamanho do seu sucesso global.

Esse tipo de interação, onde o artista é "impedido" de cantar pelo coro da plateia, é considerado um dos maiores reconhecimentos de sucesso na indústria musical.

]]>
https://www.mdig.com.br/:1:61071
<![CDATA[Por que lavar a bunda é (obviamente) melhor do que apenas limpá-la]]> Redacao 2026-05-04T21:24:47Z 2026-05-04T18:24:47-03:00 Por que lavar a bunda é (obviamente) melhor do que apenas limpá-la

Lavamos nossas mãos, rosto, pés e cada centímetro de nosso corpo quando fica sujo. Então por que as pessoas ainda discutem se as bundas devem ser limpas ou lavadas? A bunda é talvez uma das áreas mais vulneráveis do corpo humano. Por que nossos traseiros são examinados de maneira diferente quando se trata de limpeza? Existem duas escolas de pensamento quando se trata da higiene do bumbum. Algumas diferenças ocorrem devido à formação cultural, aceitação, indiferença geral da sociedade, ou mesmo com base no suposto impacto que cada método respectivo tem sobre o meio ambiente.

Por que lavar a bunda é (obviamente) melhor do que apenas limpá-la

Pode parecer estranho para os ocidentais, mas há muitos países onde o uso de bidês, chuveirinhos (também conhecidos como bidês de mão) e baldes de água são comuns. Na Índia, por exemplo, existe inclusive a "regra da mão esquerda", que você nunca deve utilizar para cumprimentar os indianos. Se for fazer isso, utilize sempre a mão direita, porque em muitos lugares por lá, incluindo hotéis de renome, não há papel higiênico. Assim os indianos usam a mão canhota para limpar e lavar o traseiro.

De fato, indianos podem ficar perplexos como as pessoas podem simplesmente limpar seus traseiros e continuar seu dia como se não tivessem vestígios de matéria fecal remanescentes em ou perto de suas bundas. A falta de cuidados higiênicos associados à limpeza pode levar a algumas consequências desagradáveis para a saúde. As infecções do trato urinário são a ocorrência mais comum.

Ao usar um pedaço de papel higiênico seco para limpar a sujeira, você não está apenas espalhando pequenas partículas de merda, também está convidando uma horda de bactérias para chamar sua bunda de lar. Claro, usar um lenço umedecido é um pouco melhor. Mas nada se compara à sensação ultra-limpa e refrescante que você sente depois de usar um bidê.

Por que lavar a bunda é (obviamente) melhor do que apenas limpá-la

O uso de bidês remonta à França do século XVIII e era reservado para a realeza e aristocratas. A limpeza e o acesso à água potável eram considerados um privilégio, por isso parecia apropriado que a realeza francesa pudesse ter fundos relativamente limpos em comparação a seus colegas camponeses. Embora o inventor oficial do bidê seja contestado, a maioria dos historiadores cita evidências de um tal Christophe Des Rosiers -um designer de móveis da nobreza francesa, por volta de 1710- instalando um bidê para a família real da França.

O bidê original consistia em uma bacia de porcelana com água colocada em uma cadeira de madeira, geralmente localizada no quarto ao lado do penico. A pessoa então se sentava nesta cadeira e usava a mão para colher água até o bumbum e proceder à limpeza do fuleco.

Esta não era realmente a prática mais higiênica, já que literalmente o usuário retirava da mesma água em que seu excremento estava girando. Mais tarde, no mesmo século, o bidê recebeu uma atualização necessária: uma bomba de água e um tanque! Esta foi a primeira iteração do bidê moderno que usamos hoje.

Por que lavar a bunda é (obviamente) melhor do que apenas limpá-la

O debate entre lavar e enxugar também decorre de ideais culturais conflitantes, quase se tornando um dilema Oriente x Ocidente. Embora os bidês tenham se originado na França, eles viram um grande aumento de popularidade na maior parte do Sudeste Asiático, onde um grande número demográfico coloca uma forte ênfase na limpeza geral do corpo, incluindo o botico.

Aqueles que se limpam olham para seus colegas lavadores com pura perplexidade quando descobrem que há pessoas voluntariamente tocando suas próprias nádegas depois de cagar. Fora do contexto, soa super estranho. Mas o mesmo vale para lavadores olhando para limpadores andando o dia todo com restos de cocô no furico.

Isso muitas vezes levou os dois lados a serem alvo das piadas um do outro quando se trata de limpeza, ou pelo menos a percepção de higiene. Com a maioria das pessoas no Ocidente optando por limpar e as do Sudeste Asiático optando por lavar, também temos uma fusão dos dois métodos: a lavagem e limpeza. Sim, há pessoas que fazem pleno uso de um bidê, mas também secam suas bundas encharcadas com papel higiênico.

Por que lavar a bunda é (obviamente) melhor do que apenas limpá-la

Países como Japão e Coreia do Sul resolveram o problema com o uso de bidês de mão -às vezes vasos sanitários com chuveirinho- ademais com secadores de ar quente embutidos, um verdadeiro dois em um que lava e seca. Em países como a Malásia, onde o bidê elétrico ainda não decolou, o papel higiênico é frequentemente usado para secar o butão molhado. Há também quem opte por secar naturalmente o rabo. Cada um com sua mania.

Em 2018, um redditor chamado Hamish se mudou para Hanói. Após uma semana na capital do Vietnã ele disse que estava amando as diferenças e todas as novidades. Sua única reclamação era em relação aos "chuveiros".

- "Sou a favor de economizar água, mas ter que segurar o dedo no botão para manter a água fluindo parece um pouco extremo", escreveu ele em um post do Reddit. - "A temperatura fria também não me incomoda muito, mas por que eles são tão baixos? Você tem que se abaixar para lavar a cabeça. Os vietnamitas não são tão baixos... eu tentei duas pousadas diferentes até agora e ambos têm esse estilo de chuveiro. Quais são as opiniões de outras pessoas sobre o chuveiro vietnamita?"

Por que lavar a bunda é (obviamente) melhor do que apenas limpá-la

Embora ambos os lados argumentem que os métodos opostos são prejudiciais ao meio ambiente, muitas vezes não está claro qual é mais prejudicial do que o outro. Pode-se supor que lavar a bunda envolve muito desperdício de água ou que limpar incentiva o desmatamento.

De acordo com especialistas, embora ambos os métodos prejudiquem o meio ambiente à sua maneira, a limpeza representa uma ameaça maior ao ecossistema natural do mundo. Lavar usa muita água, mas a produção de papel higiênico envolve o corte de centenas de milhares de árvores e, em seguida, o uso de inúmeros litros de água para transformar a madeira colhida em papel.

Ao olhar para as coisas em uma perspectiva mais ampla e de longo prazo, é bastante óbvio que o consumo de água através da lavagem é essencialmente insignificante quando comparado à limpeza. Em certo sentido, é um mal muito menor. E sua bunda também vai agradecer.

Curiosamente, este assunto escatológico surgiu do envio de dica de um vídeo (abaixo) do comediante indiano Masood Boomgaard, onde ele enaltece a prática da lavação de bunda. Ele até faz várias recomendações importantes que garantirão que sua bunda esteja completamente limpa, para que ninguém fique "perto dela".

- "Lave [sua bunda] todos os dias e faça que a lavação de bunda seja um ato de devoção", ironiza Masood no vídeo.

Link do Youtube

Eu comecei a rir sozinho quando vi o vídeo, mas depois lembrei da "regra da mão esquerda" indiana, percebendo que o assunto é muito mais sério do que poderia supor e tem realmente inferências culturais, sociais e inclusive ambientais.

Pesa ainda mais o fato da dificuldade que todos temos em falar sobre "merda", quando todo mundo faz. Talvez por isso não saímos dela. "Merda" não é um palavrão, de fato, é um termo clássico que chegou até nós desde a Roma Antiga e sempre significou excremento. Não tem nada de feio na palavra. Feio é o significado e o cheiro dela. "Merda" não é ofensa, é uma realidade. Cago eu, -perdoe a indiscrição- caga você, cagamos todos, damos à luz em torno 55 quilos de barro fedido por ano. Não seria melhor que, em prol da higiene e de nossa saúde, acabássemos com este tabu bobo?

]]>
https://www.mdig.com.br/:1:61070
<![CDATA[A breve história da amigabilidade brasileira pelo mundo]]> Redacao 2026-05-04T21:22:13Z 2026-05-04T18:22:13-03:00 A breve história da amigabilidade brasileira pelo mundo

Neste mundo conturbado, quando um grande esforço é necessário para que as nações simplesmente vivam em paz umas com as outras, é gratificante ver como a histórica cordialidade brasileira é referenciada no mundo. Há fontes geográficas, históricas, econômicas e políticas para o entendimento tradicional centenário que levou o Brasil à condição de respeitado avaliador da geopolítica mundial, mas daí o posicionamento controverso, ideológico e equivocado de um presidente levou todo o país a perda de credibilidade internacional, mergulhando nosso país de cabeça na lama do nanismo diplomático.

A breve história da amigabilidade brasileira pelo mundo

A "histórica cordialidade" ou natureza acolhedora da cultura brasileira, frequentemente percebida como uma recepção "calorosa" de estrangeiros e uma propensão à mistura social, tem raízes profundas na história colonial do país, em sua estrutura social e, em alguns contextos, é uma construção social analisada por historiadores e sociólogos.

Essa reputação se baseia em diversos pilares históricos como, por exemplo, a dependência colonial e os "portos abertos: por mais de 300 anos, o Brasil foi colônia de Portugal e como a colônia dependia de navios europeus para produtos, notícias e conexões com o mundo, desenvolveu-se uma cultura de respeito e curiosidade em relação aos estrangeiros.

Isso atingiu um ponto de inflexão em 1808, quando o rei português, fugindo de Napoleão, mudou-se para o Brasil e abriu os portos a "nações amigas", diversificando ainda mais a influência estrangeira.

A chegada dos colonizadores, a migração forçada de africanos escravizados por portugueses e a existência de populações indígenas criaram uma mistura cultural, muitas vezes forçada.

Embora as relações coloniais fossem marcadas por uma profunda desigualdade em violência, a cultura resultante incorporou influências dos três grupos, particularmente na língua, na alimentação e nos hábitos sociais.

Historicamente, o Brasil frequentemente se via como um país de pessoas "cordiais", um conceito cunhado por Sérgio Buarque de Holanda em "Raízes do Brasil", que implica uma sociedade onde os sentimentos falam mais alto, o que Nelson Rodrigues cunhou mais tarde, irônica e equivocadamente de "complexo de vira-lata".

Não é que o brasileiro valorize excessivamente o estrangeiro e desmereça tudo o que é nacional, mas sim que, para nós, os relacionamentos pessoais, a emoção e a amizade, derivada de coração, se sobrepõem a regras institucionais rígidas ou impessoais.

O conceito de autodepreciação cultural de Nelson se enraizou na cultura após a derrota na Copa de 1950, o conhecido Maracanazo, descrevendo a inferioridade autoimposta do brasileiro diante do mundo, mas como explicar então o 7x1 de 2014?

Link do Youtube

De fato, a desvalorização do Brasil baseia-se em dados e problemas reais, não necessariamente em um complexo de inferioridade. Ademais, o brasileiro é um dos poucos povos do mundo que pratica a arte de "rir para não chorar", desde que a depreciação venha de outro brasileiro. O brasileiro não quer guerra com ninguém, mas se perfila como um Rambo se a crítica for externa.

Link do Youtube

Além disso, a independência do Brasil em 1822 e sua transição de Império para República foram notavelmente menos violentas do que as de seus vizinhos hispano-americanos, criando uma narrativa histórica de transição negociada e pacífica.

No século XX, prevaleceu a ideia de que o Brasil era uma "democracia racial", uma sociedade livre de preconceitos raciais devido à ampla miscigenação.

Embora essa ideia tenha sido fortemente criticada por sociólogos modernos como um mito que obscurece profundas desigualdades, ela fomentou uma imagem nacional duradoura de uma sociedade acolhedora, homogênea, amigável e harmoniosa, sobretudo porque a miscigenação foi responsável por um dos povos mais lindos do mundo.

Enquanto o Brasil adotou uma política de miscigenacão, os EUA basearam sua estrutura social na segregação legalizada (leis Jim Crow) até meados dos anos 60. Eu não teria vindo ao mundo se fosse norte-americano.

Após a independência, o Brasil adotou uma política externa frequentemente definida por relações diplomáticas e não agressivas, buscando ser um parceiro confiável para as potências ocidentais, mantendo laços amistosos na América do Sul, por vezes até mesmo durante as tensões políticas do século XX.

Hoje, essa história se traduz em uma cultura moderna onde, segundo estudos, mais de oito em cada dez expatriados percebem uma atitude positiva e acolhedora em relação aos estrangeiros.

Muitos estrangeiros ganharam destaque no YouTube ao compartilhar seu amor pela cultura, culinária e povo brasileiro, muitas vezes aprendendo português e interagindo com o público brasileiro, que é conhecido por seu alto engajamento nas redes sociais.

A fofas chinesa Sisi Liao e a russa Olga compartilham como o Brasil mudou suas perspectivas de vida e mostram sua adaptação e admiração pelo país.

Link do Youtube

Os estrangeiros costumam atrair atenção ao elogiar a cultura brasileira, música, comida e a hospitalidade do povo. O público brasileiro é muito engajado, o que impulsiona o algoritmo desses canais, tornando o Brasil um mercado atraente para influenciadores estrangeiros.

Link do Youtube

Nesse sentido, toda esta admiração mundial pela receptividade brasileira está sendo questionada pela comunidade internacional. Enquanto seus apoiadores frequentemente consideram seu estilo direto como uma comunicação autêntica, os críticos argumentam que declarações controversas podem ser contraproducentes para a governança.

A desaprovação ao governo Lula atingiu 52,5% em algumas pesquisas no início de 2026, sugerindo uma desconexão entre sua mensagem e uma parcela significativa da população.

Tanto apoiadores quanto críticos frequentemente argumentam que um discurso moderado poderia reduzir a tensão e impedir que o cenário político se transforme em uma disputa constante e caótica, como delineado nas discussões sobre a ascensão de tendências autoritárias na política.

Evitando distrações de questões econômicas, os críticos frequentemente apontam que, quando Lula se concentra em controvérsias internacionais, como sua postura instável em relação a figuras ditatoriais -ou o conflito Israel-Palestina- desvia a atenção das prioridades internas, como a elevada dívida nacional e o lento crescimento do PIB.

Algumas de suas declarações criaram, ou correram o risco de criar, atritos com parceiros ocidentais ou provocaram reações negativas ao abordarem questões geopolíticas sensíveis.

Abordando as preocupações do setor empresarial: suas críticas à elite financeira ou sua retórica "anti-establishment", pode levar à volatilidade e incerteza nos mercados econômicos, o que, segundo críticos, é prejudicial à construção de um ambiente de investimento amplo, estável e acolhedor. 

Por outro lado, os defensores do estilo de Lula podem argumentar que sua franqueza é uma ferramenta vital para se conectar diretamente com sua base eleitoral, abordando as desigualdades históricas, e que reduzir seu discurso violaria sua identidade política, como mencionado nas discussões sobre um "momento da verdade" para o país.

A verdade é que, nessas atitudes "destrambelhadas" de falar sem pensar, perde o Brasil, perdemos nós.

]]>
https://www.mdig.com.br/:1:61069
<![CDATA[A breve história constipada do enema]]> Redacao 2026-04-29T22:41:21Z 2026-04-29T19:41:21-03:00 A breve história constipada do enema

Na França do século XVI, não bastava ter pele impecável, uma peruca deslumbrante e um traseiro avantajado; era preciso também ter o cólon imaculado. Felizmente, havia uma grande quantidade de pessoas prontas e dispostas a administrar quantos "clisteres", também conhecidos como enemas, ou enteroclismas, você desejasse. Muitos jovens não sabem do que se trata, mas até hoje este aparelho é utilizado para injetar líquido na parte inferior do intestino através do reto, para aliviar a constipação e para limpar o intestino antes de um exame ou procedimento médico.

A breve história constipada do enema

Embora seguro quando indicado tecnicamente, o enema é considerado um tabu devido ao estigma sobre práticas anais, vergonha na procura médica e riscos associados ao usao indevido.

Invariavelmente, pessoas que tem o costume de manter uma "farmacinha" tinham "mocosado" em casa um modelo chamado "enema de bulbo" (foto acima), popularmente conhecido como chuca, com seu formato semelhante a uma buzina de mão.

Quando criança encontrei um enterrado no meio dos cobertores e lençóis no guarda-roupa. E o que a criança faz quando encontra algo desconhecido? Minha mãe até hoje "se mija" de rir por lembrar-se que me flagrou com a cânula na boca apertando a pera de borracha fazendo "peidorretas".

Para quem ainda não sabe do que se trata, enteroclima é um procedimento no qual um líquido é, digamos, introduzido à força pelo ânus para limpar o cólon. Normalmente, as pessoas pensam nisso em termos estritamente modernos, como um procedimento médico desagradável que envolve água morna, um profissional de saúde e privacidade, mas... nem sempre foi assim.

A breve história constipada do enema

A primeira menção ao enema na literatura médica encontra-se no Papiro de Ebers do Antigo Egito, de aproximadamente 1550 a.C. Um dos muitos tipos de especialistas médicos era o Nery-Pehuyt, o Pastor do Ânus, cujos enemas administravam muitos medicamentos.

Existia mesmo até um Guardião do Anus Real, sim, um PhD em encanamento real, o responsável pela preparação e aplicação dos enemas do faraó. De acordo com a mitologia egípcia, o deus Thoth inventou o enema.

A prática de administrar clisteres remonta a tempos antigos da história da humanidade. Em 600 a.C., os babilônios podiam desfrutar de um desses procedimentos úmidos, e, se preferissem viajar para as américas no século X a.C., os olmecas estavam prontos para ajudá-los a transcender a consciência por meio de um enema.

A breve história constipada do enema

Os maias, no século VII d.C., também a utilizavam, assim como os antigos gregos e egípcios. O objetivo desses procedimentos variava; por exemplo, os olmecas adicionavam uma substância extra aos seus clisteres para induzir estados de transe.

Os babilônios acreditavam que um clister expulsava o demônio da doença. E muitos, incluindo os gregos, consideravam-no uma forma eficaz de se livrar da constipação.

Caso você tenha curiosidade, os povos antigos eram bastante criativos com os materiais que usavam para seus enemas. Tubos de bambu, ossos e chifres ocos, bexigas de porco, tecidos de seda e uma variedade de escrotos de animais eram utilizados, dependendo da região.

Em algumas partes da África, a cabaça era usada tradicionalmente para administrar enemas no século XIX. Na Costa do Marfim, o gargalo estreito da cabaça, cheio de água, era inserido no reto do paciente e o conteúdo era então injetado por meio de insuflação oral forçada por um assistente, ou o próprio paciente pode autoadministrar o enema usando sucção para criar uma pressão negativa na cabaça, colocando um dedo na abertura e, em seguida, após a inserção anal, removendo o dedo para permitir que a pressão atmosférica fizesse o fluxo.

A breve história constipada do enema

Na África do Sul, o povo Bhaca usava um chifre de boi para administrar enemas. Ao longo do alto rio Congo, um aparelho para enema era feito fazendo-se um furo em uma das extremidades da cabaça para enchê-la e usando resina para fixar uma cana oca ao gargalo da cabaça. A cana era inserida no ânus do paciente, que permanecia em uma postura que permitia que a gravidade fizesse a infusão do fluido.

O líquido prescrito para o enema também variava. Claro que havia água morna, mas também existem receitas com nomes mais macabros, como bile de porco e vinagre, leite de burra cozido e suco de repolho.

No final do século XVI, os enemas eram a grande moda. Acreditava-se que um bom clister curava tudo, uma panaceia que curava manchas na pele e prisão de ventre, dexintoxicante, emagrecedor, antiinflamatório,antifebril até anti-envelhecimento.

A breve história constipada do enema

Aristocratas da moda podiam tomar até quatro "chucadas" por dia. Não era incomum ver boticários andando pelas ruas com seus tubos de clister jogados casualmente sobre os ombros, à vista de todos.

Dizem que Luís XIV, antecessor de Luís XVI, também conhecido como o Rei Sol, era tão fã de chucas que aplicava em si mesmo diante de sua corte. Era o acessório de luxo da época, quase o "iPhone" do período barroco, só que com uma entrada de carregamento bem mais específica.

Se essa história é verdadeira ou não, é fato que o Rei Luís era um grande apreciador de enemas e incentivava sua corte a fazer o mesmo.

Era comum terminar o jantar e, em seguida, retirar-se para um de seus aposentos para que seu médico real lhe administrasse um clister, talvez com água de rosas, água de anjo ou leite de amêndoas, e depois retornar à corte, sentindo-se revigorado.

A breve história constipada do enema

Um fato histórico que não deve ser esquecido é que também ocorreram assassinatos por enemas durante esse período. O assassino precisava apenas adicionar veneno ou alguma outra substância tóxica ao enema administrado para que o efeito passasse de "ótimo para a pele" para "o paciente está morto".

Esse fenômeno tornou-se tão alarmante que o Rei Sol criou uma força-tarefa especial dedicada a proteger a aristocracia de enemas envenenados.

Infeliz e eventualmente, as pessoas começaram a criar clisteres perigosos, embora com as melhores intenções. De fato, durante bastante tempo se tornou um procediemnto médico estendido fumar tabaco ou tomar café pelo ânus mediante um clister. Em algum momento do século XVIII, os europeus adotaram um conceito dos povos indígenas da América do Norte e começaram a usar enemas de fumaça de tabaco para reanimar vítimas de afogamento.

A Royal Humane Society de Londres posicionou estrategicamente kits com foles e tubos para esses procedimentos ao longo do Tâmisa. Não encontramos estatísticas sobre a frequência com que uma vítima de afogamento era salva pela inalação de fumaça de tabaco pelo ânus, mas, sem se deixar abalar, a sociedade começou a usar esse tipo de clister para tratar doenças como cólera, febre tifoide, insuficiência respiratória e cólicas.

A breve história constipada do enema

Diz-se que Luís XIV recebeu mais de 2.000 enemas durante seu reinado. Muitos artistas da época parecem ter se encantado em retratar esse ritual com seus pincéis, e o resultado é que hoje temos uma série de pinturas que revelam mais do que apenas as costas do retratado: também vislumbramos como as pessoas se sentiam em relação a esses rituais de purificação.

Nem todos os contemporâneos eram grandes admiradores da aristocracia. A arte era um meio de satirizar os ricos, e a mania do clister fornecia um alvo fácil. O famoso dramaturgo francês do século XVII, Molière, também criticou duramente essa prática, tanto em seus escritos quanto em suas peças teatrais.

A prática de administrar enemas mudou à medida que as pessoas desenvolveram mais técnicas para a autoadministração. No século XIX, a Europa Ocidental administrava seus próprios clisteres em grande parte dos casos.

A breve história constipada do enema

No século XX, a popularidade do enema diminuiu, embora ainda seja amplamente praticada na medicina moderna. Acabou-se o tempo em que homens e mulheres pensavam que podiam tratar suas imperfeições com um jato de água perfumada pelo ânus. Hoje, os enemas são usados principalmente para o alívio da constipação e são muito mais seguros do que costumavam ser.

Evidentemente que um procedimento tão comum com uma finalidade específica deu rédea à criatividade criando todo tipo de clister. Qualquer frasco almotolia, em última instância, é um enema.

A existência de diversos modelos de enemas se deve principalmente à finalidade do procedimento, ao volume de líquido necessário e à conveniência do uso (hospitalar vs. caseiro).

Os diferentes tipos são projetados para atender a necessidades específicas de alívio de constipação, preparação para exames médicos ou administração de medicamentos.

Lógico que o tabu deu origem a prazer em enemas, conhecido como clismafilia, que é classificada medicamente como uma parafilia. Uma pessoa com clismafilia é um clismafílico.

Um episódio mais cômico do que eu com uma chuca na boca fazendo peidorreita, ocorreu com o pai do amigo Rusmea, que adaptou um tipo espefífico de enema como piteira, sem saber do que se tratava.

Link do Youtube

E por fim uma nota triste sobre o assunto. Idiotas, a par de igualdade com terraplanistas, alegam falsamente que a administração de enemas com dióxido de cloro (Qboa) a crianças autistas resulta na expulsão de "vermes-de-corda", que na verdade são fragmentos de epitélio intestinal danificado que são interpretados erroneamente como patógenos humanos.

Enemas de água sanitária são comercializados fraudulentamente como tratamento médico, principalmente para autismo. Isso resultou, por exemplo, em um menino de seis anos que precisou ter o cólon removido e uma bolsa de colostomia além de vários relatos de reações com risco de vida e até morte, segundo uma reportagem do Mirror de 2017.

Como vimos, a história do enema é, essencialmente, a prova de que a humanidade sempre foi disposta a tentar caminhos "alternativos" para alcançar o bem-estar.

Depois das cabaças, chifres bovinos, máquinas vitorianas de pistão, modelos de borracha e, finalmente, a ciência moderna decidiu que talvez um suco de laranja e fibras fosse menos traumático.

Hoje, olhamos para trás com gratidão por vivermos em uma era onde o autocuidado geralmente envolve apenas uma máscara facial e um chá relaxante.

]]>
https://www.mdig.com.br/:1:61068