![]() | Em uma manhã fria de abril de 1875, três homens ascenderam aos céus sobre Paris em um balão, na esperança de expandir os limites do voo humano. Sua jornada era uma expedição científica, uma tentativa de explorar a alta atmosfera e aventurar-se em um domínio onde poucos seres humanos haviam estado. Contudo, à medida que o balão subia, o ar tornava-se mais rarefeito, a temperatura despencava e o simples ato de respirar transformava-se em uma luta desesperada. O que começou como um experimento audacioso na conquista dos céus terminaria em uma das tragédias mais aterrorizantes do início da história da aviação. |

O balão, batizado de Zénith, levou sua tripulação a um mundo hostil para o qual a ciência do século XIX mal havia começado a se preparar. No solo, a atmosfera parecia ilimitada; mas, em grandes altitudes, revelava-se um ambiente implacável, onde o corpo humano podia falhar com uma rapidez aterrorizante. A expedição do Zénith expôs os perigos do voo em grandes altitudes e deixou uma lição sombria para as gerações de aeronautas que sonhavam em alcançar alturas cada vez maiores.
Os aeronautas do Zénith eram Gaston Tissandier, escritor científico e balonista francês; Joseph Crocé-Spinelli, cientista e jornalista; e Théodore Sivel, um marinheiro e aeronauta experiente.
Gaston Tissandier, nascido em Paris em 1843, era cientista, escritor e um aeronauta entusiasta. Ele nutria um interesse especial pela meteorologia e pelo estudo científico da atmosfera. Seu irmão, Albert Tissandier, também estava envolvido na aeronáutica, e ambos ajudaram a popularizar o balonismo como um meio de investigação científica.
Joseph Crocé-Spinelli, nascido em 1845, compartilhava desse mesmo interesse pela pesquisa atmosférica. Ele havia participado de experimentos anteriores em grandes altitudes e compreendia a importância de estudar a composição e as propriedades do ar.
Théodore Sivel, nascido em 1834, levou para a expedição uma experiência considerável em balonismo. Seu conhecimento prático complementava os interesses científicos de seus companheiros. Foi sob sua orientação que o Zénith foi construído.
Pouco menos de um mês antes do voo fatal, SiveL, juntamente com o zoólogo e fisiologista Paul Bert, Joseph Crocé-Spinelli, Albert Tissandier, o irmão de Albert, Gaston Tissandier, e Claude Jobert, completou com sucesso um voo de longa duração, que durou 24 horas e 40 minutos.
Incentivada pelo sucesso desse voo e pela repercussão positiva na imprensa, a Sociedade Francesa de Navegação Aérea (SFNA) anunciou que organizaria uma ascensão a grandes altitudes utilizando o Zénith -nome bastante apropriado-, um balão de 3.000 metros cúbicos que pertencia a Sivel.
Por volta das 11h35 do dia 15 de abril, o Zénith decolou da usina de gás de La Villette. A bordo, levavam diversos instrumentos para estudar a atmosfera, incluindo um barômetro aneroide, um higrômetro e um eletroscópio. Também transportavam um equipamento de suprimento de oxigênio: três pequenos reservatórios contendo uma mistura rica em oxigênio estavam fixados ao cesto do balão. Tubos de borracha e bocais permitiam que os homens inalassem o gás sempre que necessário.
A tripulação sabia que a privação de oxigênio era um dos maiores obstáculos ao balonismo em grandes altitudes. Em altitudes menores, a atmosfera fornece oxigênio suficiente para a respiração normal. À medida que o balão subia, no entanto, a pressão atmosférica diminuía, tornando cada vez mais difícil para os pulmões transferir oxigênio suficiente para a corrente sanguínea.
Os homens haviam se preparado para os perigos da melhor maneira possível, com o conhecimento e a tecnologia disponíveis na época. O que não conseguiram prever totalmente foi a rapidez com que a hipóxia, condição causada pelo suprimento inadequado de oxigênio ao organismo, poderia comprometer seu discernimento, sua coordenação e sua consciência.
Por volta de uma hora da tarde, segundo o relato posterior de Tissandier, eles haviam ultrapassado a marca de 5.000 metros. A pressão atmosférica caíra consideravelmente, e a temperatura externa estava abaixo de zero. Seus instrumentos funcionavam, e eles continuavam a monitorar sua própria condição física.
À medida que subiam, contudo, os homens começaram a apresentar sintomas de privação de oxigênio. A 7.000 metros, Tissandier registrou que Crocé-Spinelli e Sivel estavam pálidos. Ele próprio sentia-se fraco e tentou inalar o oxigênio que levavam consigo, o que melhorou brevemente sua condição.
Sivel, então, voltou-se para Tissandier e perguntou se ele descartaria um pouco de lastro para que pudessem subir ainda mais. Tissandier, sentindo-se letárgico devido à altitude e à temperatura congelante de −10 °C, concordou com a proposta. Sivel cortou três sacos de lastro, e o balão iniciou uma subida rápida.
Ao atingirem 7.500 metros, Tissandier mal conseguia se mover. Ele descreveu não sentir dor alguma, mas sim "uma alegria interior” e indiferença diante da situação, que se tornava cada vez mais perigosa.
A falta de oxigênio deixou-o delirante. Cada vez mais debilitado, a memória de Tissandier sobre os acontecimentos a partir desse ponto tornou-se ainda mais nebulosa. Ele se lembrava de tentar alcançar o oxigênio, mas sem conseguir levantar o braço. Então, ao olhar para o barômetro, viu que a pressão estava em 280 mm e tentou gritar que haviam ultrapassado os 8.000 metros de altitude; contudo, as palavras não lhe saíram da boca e ele caiu inerte, por volta das 13h30.
Às 14h08, Tissandier despertou e viu o balão descendo a uma velocidade perigosa. Reunindo todas as forças que pôde, conseguiu soltar um saco de lastro para restabelecer o equilíbrio, antes de desmaiar novamente.
Pouco tempo depois, foi sacudido por Crocé-Spinelli, que pediu que ele descartasse ainda mais lastro. Entre momentos de lucidez e desfalecimento, Tissandier viu Crocé-Spinelli jogar fora o respirador, cobertores e mais lastro, o que fez com que o balão voltasse a subir.
Tissandier oscilava entre a consciência e a inconsciência. Os efeitos da privação de oxigênio deixaram-no confuso e fisicamente incapacitado; a sequência dos acontecimentos só pôde ser reconstruída a partir de suas lembranças fragmentadas.
Quando recuperou a consciência novamente, o balão estava descendo a uma velocidade aterrorizante. Ele tentou despertar seus companheiros, chamando-os pelos nomes e sacudindo-os, mas nenhum dos dois respondeu. O rosto de Sivel estava escurecido, e havia sangue ao redor de sua boca. Crocé-Spinelli também parecia sem vida.
O Zénith finalmente pousou, por volta das 16h, nas planícies próximas a Ciron, a 250 km de Paris. Moradores da região correram para ajudar o aeronauta sobrevivente. Tissandier encontrava-se extremamente debilitado, com hematomas e sofrendo as consequências daquela provação. Seus companheiros, no entanto, não puderam ser salvos. Tanto Crocé-Spinelli quanto Sivel morreram durante o voo.
As mortes de Crocé-Spinelli e Sivel levantaram questões urgentes sobre a segurança de voos de balão em grandes altitudes. A tripulação levava oxigênio, compreendia os riscos de uma ascensão excessiva e possuía considerável experiência. Ainda assim, suas precauções mostraram-se inadequadas.
O problema central era o efeito fisiológico da baixa pressão atmosférica. Em grandes altitudes, a pressão reduzida torna mais difícil a passagem de oxigênio dos pulmões para o sangue. A consequente privação de oxigênio pode causar dores de cabeça, confusão, comprometimento da coordenação, perda de consciência e, em casos graves, a morte.
Uma característica particularmente perigosa da hipóxia é que ela pode prejudicar a capacidade de uma pessoa reconhecer o perigo. Alguém que esteja sofrendo de uma privação severa de oxigênio pode perder a habilidade de tomar decisões sensatas ou realizar as ações necessárias para sobreviver. Para os aeronautas, isso poderia significar a incapacidade de operar equipamentos de oxigênio, monitorar instrumentos ou controlar a descida do balão.
A expedição Zénith também demonstrou que levar oxigênio, por si só, não era suficiente. O suprimento precisava ser acessível e utilizável sob condições extremas, e a tripulação precisava ser capaz de operar os equipamentos enquanto sofria os efeitos da altitude. A ascensão revelou com que rapidez uma expedição científica poderia se transformar em uma emergência, à medida que o corpo humano começava a falhar.
A sequência exata dos acontecimentos não pode ser reconstruída com total certeza. O próprio Tissandier reconheceu que passou longos períodos inconsciente e que se lembrava apenas vagamente de partes do voo. Ainda assim, seu depoimento ofereceu um relato notavelmente direto sobre os perigos enfrentados pelos primeiros aeronautas que exploraram grandes altitudes.
Tissandier sobreviveu, mas a perda de seus companheiros foi um golpe pessoal profundo. Posteriormente, ele documentou a expedição e seu desfecho trágico, ajudando a preservar os detalhes do voo para outros cientistas e aeronautas.
Seu relato permanece particularmente valioso, pois registra não apenas as leituras dos instrumentos, mas também o colapso físico e mental dos homens que as realizaram.

O túmulo de Joseph Crocé-Spinelli e Théodore Sivel, localizado no Cemitério Père Lachaise, em Paris.
O voo do Zénith, em 15 de abril de 1875, é considerado um dos marcos mais decisivos para o nascimento da medicina aeroespacial e para o estabelecimento das regras de segurança de voo em altas altitudes.
Embora a expedição tenha terminado em tragédia com a morte de Théodore Sivel e Joseph Crocé-Spinelli por hipóxia, os dados coletados e o sobrevivente Gaston Tissandier trouxeram contribuições fundamentais para a ciência.
Até aquele momento, a ciência não compreendia bem como a queda da pressão atmosférica e a escassez de oxigênio afetavam o cérebro humano. Tissandier relatou a perda gradual das capacidades motoras e o estado de torpor/euforia que antecede a perda de consciência, descrevendo exatamente os sintomas clássicos da hipóxia.
Os aeronautas levaram sacos com mistura de oxigênio, mas em quantidade insuficiente e sem um sistema de fluxo contínuo ou máscara adequada. O desastre provou que o oxigênio suplementar em altitudes acima de 4.000 a 5.000 metros não era opcional, mas uma questão de sobrevivência.
O fisiologista francês Paul Bert usou os dados e o trágico relato do Zénith para consolidar sua obra monumental de 1878, "La Pression Barométrique". Ele demonstrou cientificamente que os efeitos da altitude eram causados pela diminuição da pressão parcial de oxigênio nos pulmões, estabelecendo os pilares para o vôo pressurizado e o suprimento de oxigênio que a aviação utiliza até hoje.
O sacrifício dos tripulantes do Zénith ajudou a transformar o voo de alta altitude de um espetáculo de risco cego em uma disciplina científica rigorosa.
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