![]() | 10 em cada 10 dentistas concordam que você deve escovar os dentes duas vezes e usar fio dental uma vez por dia. Mas e se você simplesmente... não fizesse isso? O que aconteceria se você parasse totalmente com a higiene bucal? E quanto tempo levaria para a sua boca ficar em um estado caótico? Vamos começar a partir do último dia em que você escova os dentes e usa o fio dental. Essa rotina, na verdade, não limpa a sua boca por completo; em vez disso, ela mantém um equilíbrio delicado entre centenas de espécies microbianas. |

A qualquer momento, a maioria desses microrganismos se encaixa em um de dois grupos: comensais e patobiontes. Uma grande quantidade de comensais é benéfica para a saúde bucal: eles minimizam a inflamação, protegem a boca contra microrganismos invasores nocivos e produzem amônia, que neutraliza os ácidos causadores de cáries.
Por outro lado, uma abundância de patobiontes é prejudicial. As variedades que se alimentam de açúcar produzem ácidos que danificam os tecidos bucais, enquanto as que se alimentam de proteínas (como as provenientes de restos de carne) prosperam a partir dos resíduos gerados pela inflamação.
A escovação e o uso do fio dental removem membros de ambos os grupos, mas, como os comensais se proliferam mais rapidamente, eles tendem a se recuperar com maior agilidade. Isso significa que a higiene bucal diária mantém a população de comensais superior à de patobiontes.
A maioria das doenças bucais resulta da quebra desse equilíbrio, algo que acontece bem rápido quando você para de escovar os dentes e usar o fio dental. Nas primeiras 72 horas, o efeito colateral mais notável é um mau hálito extremamente forte.
Já no quarto dia, hordas de patobiontes cobrem a maior parte dos seus dentes com uma película pegajosa chamada placa bacteriana.
Nos dias seguintes, essa placa desencadeia uma resposta imunológica que faz com que as gengivas sangrem e fiquem inflamadas, uma condição desconfortável conhecida como gengivite.
Após um mês, a proliferação excessiva de patobiontes pode estar liberando subprodutos ácidos em quantidade suficiente para corroer o esmalte dentário e começar a causar cáries. O problema maior, contudo, é que os patobiontes passam a superar, em muito, o número de comensais.
Como ambas as comunidades microbianas crescem de forma exponencial, mesmo que você voltasse a escovar os dentes, os patobiontes continuariam mantendo uma vantagem numérica.
Pesquisadores estão investigando formas de reintroduzir microrganismos comensais no microbioma, mas, atualmente, não existe um meio de remodelar uma cavidade oral que tenha sido dominada por patobiontes.
Nesse novo cenário, os patobiontes adotam a estratégia de "dividir para conquistar". Alguns liberam ácidos que dissolvem os minerais dos dentes e provocam cáries, tornando-os sensíveis à pressão e à temperatura.
Outros fazem com que a gengiva inche e se retraia, criando espaços que acabam sendo colonizados por ainda mais placa bacteriana. Com a passagem dos meses, esse ciclo degrada os tecidos moles da gengiva, transformando a gengivite em um estágio inicial de periodontite, uma infecção gengival dolorosa.
Esse tecido gengival fragilizado serve de alimento para os patobiontes, perpetuando seu ciclo de destruição.
A alimentação também exerce um impacto enorme nesse ambiente: quanto mais açúcar uma dieta contém, mais ela favorece a proliferação de patobiontes produtores de ácido, os quais liberam resíduos destrutivos que inibem ainda mais o crescimento dos microrganismos comensais.
Após cerca de um ano sem escovar os dentes, a inflamação gengival torna-se tão prolongada que a resposta imunológica do corpo começa a afetar o osso subjacente. Esse processo, conhecido como reabsorção óssea alveolar, faz com que o osso maxilar se retraia e enfraqueça a estrutura de suporte dos dentes, deixando-os instáveis até que caiam.
Esse tipo de dano aos dentes e aos ossos é permanente, mas a perda dentária não marca o fim dessa trajetória de falta de higiene. Nesse estágio avançado de periodontite, formam-se áreas de tecido lesionado abaixo da linha da gengiva, permitindo que os patobiontes alcancem a corrente sanguínea.
A partir daí, essas bactérias podem agravar problemas de saúde em todo o organismo, incluindo doenças cardiovasculares, renais, diabetes e artrite.
Em alguns casos, podem até intensificar doenças neurodegenerativas, como o Alzheimer, e acelerar o crescimento de tumores malignos.
Felizmente, existe uma maneira simples de evitar esse desfecho sombrio: se você tivesse começado a usar os instrumentos de higiene bucal após duas ou três semanas do início desse experimento, teria sido possível reverter completamente os estágios iniciais da gengivite e das cáries, evitando todos os danos permanentes que surgiram na sequência.
Melhor ainda: escovar os dentes de maneira uniforme por dois minutos de cada vez ajudará a aproveitar ao máximo o flúor presente no seu creme dental, o qual substitui parte do esmalte exposto por átomos de flúor resistentes a ácidos.
No entanto há algo que poucos dentistas contam: a verdade sobre a pasta de dente pode te surpreender, pois o que realmente limpa os dentes é a ação mecânica da escova e do fio dental, e não a pasta em si.
A placa bacteriana (ou biofilme) é uma película pegajosa que gruda nos dentes. Um bochecho, por mais forte que seja, não tem força para desgrudar essa placa. É preciso esfregar.
A escova desorganiza e remove fisicamente as bactérias e os restos de comida. Se você escovar os dentes usando apenas água, você já conseguirá remover a maior parte da placa bacteriana.
Se a escova sozinha limpa, por que usamos pasta? Ela não é um mero "perfume", ela cumpre funções terapêuticas cruciais. A proteção química é o benefício mais importante. O flúor fortalece o esmalte do dente e previne o surgimento de cáries. Escovar apenas com água limpa deixa o dente desprotegido contra os ácidos dos alimentos.
A pasta possui componentes que ajudam a remover manchas superficiais sem danificar o dente. Ajuda no hálito e torna o hábito mais agradável.
Muita pasta limpa mais? Não. O excesso cria muita espuma, o que diminui o atrito da escova e te faz cuspir antes do tempo. O tamanho de um grão de ervilha é suficiente para adultos.
Molhar a pasta antes de escovar? Evite. Molhar a escova com a pasta antes de começar gera ainda mais espuma precoce. A própria saliva é suficiente para lubrificar a boca.
Enxaguar a boca com água após escovar? A recomendação moderna de órgãos internacionais de saúde é apenas cuspir o excesso de pasta e não lavar a boca com água logo em seguida. Isso permite que o flúor da pasta continue agindo e protegendo os dentes por mais tempo.
Se você estiver em uma emergência e sem pasta de dente, escove apenas com a escova e água e passe o fio dental. Isso é infinitamente superior a apenas fazer um bochecho. No dia a dia, use a combinação dos três: fio dental, escova mecânica e pasta com flúor.
Atenção: o Youtube está cheio de vídeos duvidosos com receitas caseiras de pasta de dente, inclusive, em um deles, a subcelebridade Bela Gil ensina uma em que substitui o flúor por bicarbonato de sódio.
Não, o bicarbonato de sódio não substitui o flúor na saúde bucal. Embora o bicarbonato seja útil para neutralizar ácidos na boca e ajudar a remover manchas superficiais dos dentes, ele não possui as propriedades químicas necessárias para proteger a estrutura dentária contra as cáries.
A diferença fundamental entre os dois está na forma como agem nos dentes: O flúor é um mineral essencial que atua diretamente na remineralização do esmalte dentário, tornando-o mais forte e resistente aos ataques dos ácidos produzidos pelas bactérias causadoras da cárie.
Já o bicarbonato funciona como um abrasivo suave e um agente alcalinizante. Ele limpa por atrito mecânico e regula o pH da boca, mas não reconstrói nem fortalece o esmalte.
Portanto, lembre-se: escovar os dentes por dois minutos, duas vezes ao dia, ajudará a manter os patobiontes sob controle.
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