![]() | Em 3 de abril de 1912, poucos meses após fazer história ao completar o primeiro voo transcontinental de avião pelos Estados Unidos, o pioneiro da aviação Calbraith Perry Rodgers pilotava um biplano durante uma demonstração pública em Long Beach, Califórnia. Durante o voo, sua aeronave colidiu com uma gaivota, que ficou presa nos cabos de comando expostos do avião e travou o leme, fazendo com que Calbraith perdesse totalmente o controle da aeronave. Ela despencou de uma altitude de cerca de 60 metros diretamente nas ondas do oceano, bem diante de uma multidão de espectadores chocados. |

Calbraith sofreu uma fratura no pescoço e morreu logo após o impacto. Hoje, embora a tecnologia moderna da aviação lide com segurança com milhares de colisões com pássaros todos os anos, este acidente permanece como um lembrete contundente das vulnerabilidades iniciais do voo mecânico.
Hoje, há milhares de aviões comerciais e bilhões de aves no céu a qualquer momento; por isso, parece que eles deveriam colidir o tempo todo, certo? Então, por que as aves não causam mais tantos acidentes aéreos?
Ocasionalmente, colisões com aves derrubam aviões, mas isso é tão raro que, quando acontece, vira tema de filmes de Hollywood. Existem dois motivos principais pelos quais as aves causam tão poucos acidentes aéreos.
O primeiro é que os aeroportos, onde é mais provável que aves e aviões se encontrem, trabalham duro para evitar essas colisões. Os aeroportos reproduzem gravações de gritos de gaviões para afugentar as aves das pistas e soltam cães ou inclusive aves de rapina treinadas para persegui-las quando as gravações não funcionam.
As equipes dos aeroportos podem até varrer as pistas com lasers ajustados a um comprimento de onda que comprovadamente assusta as aves. Além disso, para impedir que as aves bebam ou se banhem em poças e lagoas tentadoras, a equipe borrifa na água um aromatizante de uva, algo que, curiosamente, as aves detestam.
Na verdade, as aves não odeiam o cheiro de todas as uvas em si, mas sim de um composto químico específico presente em alta concentração nas uvas-comuns (como a uva-roxa), chamado antranilato de metila.
Enquanto para os humanos esse composto tem um aroma frutado e agradável, sendo usado para dar sabor a chicletes, refrigerantes e sucos de uva, para as aves ele funciona como uma espécie de "spray-de-pimenta aviário".
Somado a isso, os campos ao redor dos aeroportos são semeados com tipos de grama de que as aves não gostam e são até cortados em uma altura específica: alta o suficiente para impedir que aves que se alimentam de insetos consigam caçar, mas baixa o suficiente para evitar que camundongos fiquem por ali e atraiam gaviões.
Uma das principais dores de cabeça dos aeroportos brasileiro é o quero-quero (Vanellus chilensis). As áreas gramadas ao redor das pistas de pouso e decolagem oferecem grama baixa, abrigo e grande quantidade de insetos e pequenos animais, criando o habitat perfeito para o quero-quero se alimentar e construir seus ninhos diretamente no solo.
O quero-quero tem um comportamento conhecido como "defesa ativa do território". Quando se sente ameaçado, seja por pessoas, máquinas de manutenção ou aeronaves, ele voa baixo, vocaliza alto e ataca de forma agressiva objetos em movimento.
Como essas aves, com síndrome de Pinscher se aproximam e atacam aviões em movimento ou circulam pelas pistas, há o risco real de serem sugadas pelos motores ou atingirem a fuselagem, o que pode provocar graves danos materiais ou acidentes aéreos.
Por isso, equipes de manejo de fauna realizam rondas e vistorias constantes para identificar esses ninhos a tempo, permitindo o remanejamento seguro das aves para áreas distantes da zona operacional do aeroporto.
O objetivo aqui é simplesmente manter as aves longe dos aviões. Mas os aeroportos também usam a tática oposta: manter os aviões longe das aves.
Em 2007, os aeroportos começaram a usar sistemas de radar ajustados especificamente para detectar aves, permitindo que os controladores informem aos pilotos onde estão grandes bandos e como evitá-los.
Os aeroportos também impõem limites de velocidade às aeronaves durante a aproximação para, entre outras coisas, dar tempo para que aves e aviões reajam caso fiquem muito próximos.
Mas há outra grande razão pela qual as aves não causam tantos acidentes aéreos: os aviões modernos são construídos para resistir a colisões quando elas ocorrem. Os motores de aviões a jato são potentes o suficiente para que, caso gansos inutilizem um, dois ou até três motores, a aeronave ainda consiga subir e descer com segurança usando apenas um motor em funcionamento.
Além disso, os motores são projetados de modo que, se falharem, não lancem uma chuva de estilhaços contra a própria aeronave. Os engenheiros chegam a testar os motores disparando galinhas mortas diretamente contra as pás giratórias da ventoinha, para garantir que a carcaça do motor consiga conter os destroços.
Outras partes críticas do avião mais suscetíveis a colisões com aves, como o para-brisa, as bordas de ataque das asas e o estabilizador vertical, são reforçadas para suportar o impacto.
Assim, hoje em dia, é quase certo que você evitará o destino dos primeiros aviadores, graças ao trabalho dedicado das equipes dos aeroportos e aos engenheiros munidos de canhões de galinhas.
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