![]() | Ao longo de seis séculos, o Retábulo de Gante foi queimado, falsificado e saqueado em três guerras diferentes. É, de fato, a obra de arte mais roubada do mundo. E, embora tenha revelado alguns de seus segredos, manteve outros ocultos. Em 1934, a polícia de Gante, na Bélgica, soube que um dos painéis do retábulo, dividido em duas partes, uma frontal e outra posterior, havia desaparecido repentinamente. O comissário investigou a cena, mas concluiu que um roubo em uma loja de queijos era mais urgente. Sério! |

Doze pedidos de resgate surgiram nos meses seguintes, e uma das metades do painel chegou a ser devolvida como gesto de boa-fé.
Enquanto isso, o restaurador de arte Jef van der Vekenm, que, nas horas vagas, trabalhava como falsificador, criou uma réplica da outra metade, o painel dos "Juízes Justos"" para exibição até que a original fosse encontrada. Mas ela nunca foi.
Alguns suspeitavam que ele estava envolvido no roubo e que, após o fracasso das exigências de resgate, havia simplesmente pintado por cima da obra original e a apresentado como sua cópia.
Ele trabalhou em sua duplicação de 1939 até que ela fosse adquirida pelo governo belga em 1957. Os investigadores também consideraram suspeito o fato de van der Veken ter decidido fazer a substituição por conta própria, sem solicitação da igreja, e ter assinado o verso com um poema enigmático:
- "Fiz isso por amor , por dever e para me vingar. Peguei emprestado do lado sombrio."
No entanto, uma resposta definitiva só surgiria décadas mais tarde. Apenas seis anos depois, Hitler planejava um grande museu, mas lhe faltava a posse mais desejada: o Retábulo de Gante.
À medida que as forças nazistas avançavam, líderes belgas enviaram a pintura para a França. Mas os nazistas a confiscaram e a levaram para uma mina de sal convertida em depósito de obras de arte roubadas, que abrigava mais de 6.000 obras-primas.
Perto do fim da guerra, em 1945, um oficial nazista decidiu que preferia explodir a mina a deixá-la cair nas mãos dos Aliados. Na verdade, os Aliados contavam com soldados conhecidos como Homens dos Monumentos, encarregados de proteger tesouros culturais.
Dois deles estavam estacionados a 570 quilômetros de distância quando um deles começou a sentir dor de dente. Eles visitaram um dentista local que mencionou que seu genro também amava arte e os levou para conhecê-lo. Descobriram que ele era, na verdade, um ex-consultor de arte dos nazistas que vivia escondido.
E, milagrosamente, ele lhes contou tudo. Os Homens dos Monumentos elaboraram um plano para resgatar as obras de arte, e a resistência local retardou a destruição da mina até a chegada deles.
Lá dentro, encontraram o Retábulo entre outros tesouros mundiais. O Retábulo de Gante, também chamado de "A Adoração do Cordeiro Místico" devido ao seu tema central, é composto por 12 painéis que retratam a história bíblica. É uma das obras de arte mais influentes já criadas.
Com onze metros de altura por 4,5 metros de largura e composta por 24 painéis, a obra redefiniu a arte e tornou-se instantaneamente famosa. Com efeito, Jan van Eyck, que substituiu seu irmão mais velho, Hubert, criou uma série de pioneirismo na arte.
Quando Jan a concluiu em Gante, em 1432, foi imediatamente considerado a melhor pintura da Europa. Durante milênios, os artistas utilizaram a técnica de têmpera, pigmento moído misturado à albumina da gema de ovo, que produzia cores vivas, porém opacas.
O Retábulo foi a primeira obra a exibir as capacidades únicas da tinta a óleo. Elas permitiram a Jan capturar a luz e o movimento de uma maneira inédita. Ele conseguiu isso utilizando pincéis que, por vezes, eram tão finos quanto um único pelo de texugo.
Ao retratar detalhes como marcos de Gante, flores botanicamente identificáveis e rostos realistas, o Retábulo foi pioneiro em um estilo artístico que viria a ser conhecido como Realismo.
No entanto, um trabalho de conservação concluído em 2019 revelou que, durante séculos, as pessoas haviam visto uma versão drasticamente alterada. Devido a dezenas de restaurações, até 70% de certas seções haviam sido cobertas por novas camadas de tinta.
À medida que os conservadores removiam essas camadas de tinta, verniz e sujeira, descobriam cores vibrantes e construções inteiras que permaneciam invisíveis há muito tempo.
Outros detalhes eram mais intrigantes. As quatro orelhas do cordeiro místico intrigavam os observadores há muito tempo. Mas a equipe de conservação revelou que o segundo par era, na verdade, um pentimento, o vestígio de camadas de tinta subjacentes que reaparecem à medida que as camadas mais recentes se desgastam.
Restauradores haviam pintado por cima do cordeiro original com uma versão que consideravam mais aceitável. Ao removerem essa sobreposição, descobriram que o original tinha uma aparência surpreendentemente humana.
Os conservadores também determinaram, finalmente, se Jef van der Veken havia realmente devolvido o painel desaparecido em 1934. Ele não o fizera. Confirmou-se que se tratava de uma cópia, o que significa que o original continua desaparecido.
Mas havia uma última pista. Um corretor de valores, traficante de arte, de Gante, que em seu leito de morte um ano após o roubo, revelou a existência de uma carta de resgate que nunca fora enviada.
- " O quadro repousa em um lugar de onde nem eu nem qualquer outra pessoa podemos retirá-lo sem atrair a atenção do público.", dizia o texto da carta.
Detetives amadores e investigadores continuam a procurar a pintura, com a delegacia recebendo e investigando diversas pistas todos os anos. Toda a catedral passou por uma varredura de raios X em busca do painel, que não revelou nada.
Hoje há uma agência detetives designada pelo Estado para investigar o caso, mas, embora surjam novas pistas todos os anos, o item ainda não foi encontrado.
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