![]() | Os morcegos estão entre as criaturas mais extraordinárias da Terra. Com 1.500 espécies espalhadas por todos os continentes, exceto a Antártida, eles representam cerca de um quinto de todas as espécies de mamíferos e são o segundo grupo mais diverso de mamíferos, depois dos roedores. São os únicos mamíferos que realmente conseguem voar, usam a ecolocalização para "enxergar" no escuro e são altamente resistentes a doenças, carregando diversos vírus fatais sem aparentemente adoecerem. No entanto, as origens dos morcegos permaneceram um mistério... até agora. |

Esses mamíferos voadores provavelmente surgiram há 65 milhões de anos na Europa, e não na África, América do Norte ou Ásia, como se supunha anteriormente, de acordo com um estudo publicado em 23 de setembro na revista Nature.
O trabalho fornece uma nova árvore genealógica evolutiva para os morcegos, lançando luz sobre as histórias evolutivas das várias espécies e suas relações entre si.
Além disso, o estudo representa a maior análise já feita de genomas de morcegos, ou seja, conjuntos completos de instruções genéticas, e de fósseis. E os cientistas afirmam que isso é apenas o começo. O artigo estabelece as bases para futuras pesquisas sobre como os morcegos desenvolveram adaptações únicas, como ecolocalização, voo e resistência a doenças.
- “Finalmente, isso nos dá uma árvore genealógica e uma biogeografia robustas e resolvidas, algo que tem escapado aos cientistas por décadas", disse a coautora do estudo, Sonja Vernes, bióloga da Universidade de St. Andrews, na Escócia. - "Com a árvore genealógica correta, tudo o mais sobre a evolução dos morcegos começa a se encaixar.""
Sonja e seus colegas analisaram os genomas de 103 espécies de todas as 21 famílias de morcegos vivas. Eles também compararam características físicas entre 65 espécies, incluindo 44 fósseis de morcegos e membros da maioria das famílias de morcegos existentes.
A equipe, composta por mais de 130 cientistas de todo o mundo, usou os dados combinados para mapear as relações entre diferentes grupos de morcegos, estimar quando suas linhagens evolutivas divergiram e investigar onde os morcegos se originaram e como se espalharam pelo globo.
Após o surgimento desses animais na Europa, as evidências sugerem que eles se aventuraram na África, antes de se expandirem para a Ásia, Américas e Austrália.
Os resultados também contribuem para o debate sobre se a ecolocalização ou o voo evoluiu primeiro nos morcegos. Um estudo importante publicado em 2008 sugeriu que o voo veio primeiro. Mas a nova pesquisa, baseada em um conjunto de dados maior, complica essa conclusão ao recuar a cronologia da ecolocalização.
- "Agora estamos mais ou menos de volta ao ponto em que estávamos há alguns anos, ou seja, o voo e a ecolocalização parecem ter evoluído na base da árvore filogenética", disse Nancy Simmons, curadora emérita do Museu Americano de História Natural e coautora tanto do artigo de 2008 quanto do novo estudo. - "E ainda não sabemos se surgiram ao mesmo tempo ou se um veio antes do outro."
O novo estudo faz parte do Bat1K, uma iniciativa global lançada em 2017 que visa sequenciar e analisar os genomas de todas as espécies de morcegos existentes. No futuro, as descobertas do projeto poderão auxiliar nos esforços de conservação, visto que os morcegos enfrentam ameaças como perda de habitat, mudanças climáticas, colisões com turbinas eólicas e doenças.
Um dos exemplos mais urgentes é a síndrome do nariz branco , uma doença fúngica fatal que infecta morcegos que hibernam a cada inverno. Descoberta em 2006, a doença se espalhou pelos Estados Unidos e Canadá, matando milhões de morcegos.
No Brasil, existem espécies de morcegos ameaçadas de extinção devido à perda de habitat e à destruição de abrigos naturais. Segundo dados oficiais do ICMBio, o país conta com espécies listadas sob risco de extinção nas categorias Vulnerável (VU) e Em Perigo (EN), como o morceguinho-do-cerrado (Lonchophylla dekeyseri), o morcego-sem-polegar (Furipterus horrens), O morcego-orelha-de-funil (Natalus macrourus) e o morceguinho-beija-flor (Lonchophylla bokermanni), entre outros.
A mineração e a interferência humana em cavernas ameaçam diretamente as espécies que dependem desses locais para descanso e reprodução. O desmatamento do Cerrado e de outras matas reduz as fontes de alimento e fragmenta as populações.
- "Pode haver algumas descobertas interessantes que outros pesquisadores possam aproveitar deste estudo… para reconstruir o que está acontecendo com estes morcegos", disse a coautora do estudo, Sarah Olson.
Além disso, o trabalho da equipe pode ajudar os cientistas a descobrir as bases genéticas de algumas das características distintivas dos morcegos, como sua expectativa de vida excepcionalmente longa para seu tamanho: cerca de dez vezes maior do que o esperado, e sua resistência a vírus que causam doenças como Ebola, Nipah e Marburg em humanos.
Essa pesquisa poderá, em última análise, levar a descobertas que poderão beneficiar a saúde humana, incluindo tratamentos para doenças zoonóticas ou mesmo câncer.
- "O mundo deveria prestar atenção especial aos morcegos, tanto porque eles são tão especiais e únicos no reino da vida selvagem, e isso por si só já deveria ser suficiente para que pudéssemos conservá-los", disse Joe Walston vice-presidente executivo de conservação global da Sociedade de Conservação de Vida Selvagem Society, que não participou do estudo. - "Mas, além disso, eles representam inúmeras possibilidades para o bem da humanidade."
Quanto a linhagem dos morcegos-vampiros (subfamília Desmodontinae), ela divergiu de outros morcegos há cerca de 26 milhões de anos. Estudos genéticos indicam que seus ancestrais eram insetívoros que se alimentavam de parasitas (como moscas e carrapatos) que viviam na pele de grandes mamíferos pré-históricos.
Ao capturar esses insetos, os morcegos começaram a lamber as pequenas gotas de sangue que ficavam expostas nas feridas dos hospedeiros.
Então, ao longo de milhões de anos, a seleção natural fixou mutações radicais. Eles perderam genes ligados aos receptores de sabores doces e amargos (já que o sangue não exige essa distinção) e desenvolveram sensores térmicos no nariz para localizar vasos sanguíneos sob a pele.
Há um mito de que eles são exclusivamente brasileiros porque o Brasil abriga as únicas 3 espécies de morcegos hematófagos do planeta. No entanto, a distribuição geográfica delas cobre toda a região neotropical: México, América Central e do Sul.
Apenas um deles o morcego-vampiro-comum (Desmodus rotundus) alimenta-se do sangue de bovinos. Os outros dois, o morcego-vampiro-de-pernas-peludas (Diphylla ecaudata)e o morcego-vampiro-de-asas-brancas (Diaemus youngi) são especializados em aves, dificilmente mordendo humanos.
Sim, o morcego-vampiro morde uma presa, não suga o sangue; ele faz um corte e lambe o fluido. Para evitar que o sangue da presa coagule enquanto ele se alimenta, a evolução dotou sua saliva de potentes proteínas anticoagulantes, como a desmoteplase.
A desmoteplase é um ativador do plasminogênio recombinante baseado exatamente nessa proteína salivar do Desmodus rotundus. Na medicina humana, ela foi desenvolvida como um medicamento promissor para o tratamento do Acidente Vascular Cerebral (AVC) isquêmico.
Como ela é altamente específica para atacar a fibrina (proteína que forma os coágulos), ela consegue dissolver obstruções no cérebro com um risco de sangramento interno menor do que os tratamentos tradicionais, estendendo a janela de atendimento médico após o derrame.
Os morcegos estão longe de ser as criaturas insidiosas e pets de vampiros propagadas pelos filmes de Hollywood. Os morcegos são animais fundamentais para o equilíbrio ecológico e sofrem muito com a má reputação criada pelo cinema e pelo folclore.
Mesmo as espécies hematófagas desempenham seu papel na natureza e não atacam humanos por "maldade" ou de forma insidiosa, mas sim por pura necessidade biológica de sobrevivência.
A imensa maioria dos morcegos, as outras 1497 espécies, traz grandes benefícios para o planeta e para os seres humanos, como a polinização, a dispersão de sementes e controle de pragas.
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