![]() | No começo, algum cara talentoso lá no século XV disse: - "Haja fenda", e houve a chave de fenda. Os primeiros registros de ferramentas semelhantes a parafusos e chaves datam desse século, mas o design plano e simples evoluiu com o uso de parafusos metálicos na Revolução Industrial. No mesmo período, um cara chamado John P. Thompson disse : - "Haja fenda cruzada"', e um outro empresário chamado Henry F. Phillips popularizou a chave com seu nome. John não conseguiu fabricar e comercializar o produto em larga escala, e vendeu os direitos de sua patente para o empresário Henry. |

Henry aprimorou o projeto, fundou a Companhia de Parafusos Phillips, convenceu a General Motors a adotar o sistema e ficou bilionário? Longe disso ele morreu anos depois sem grandes recursos financeiros.
Até ai o mundo parecia ter alcançado o seu limite de cabeças de parafusos, mas não. Hoje você vai abrir um aparelho quebrado, apenas para descobrir que o parafuso tem um formato totalmente bizarro no topo? Você revira sua caixa de ferramentas, frustrado, perguntando-se por que raios existem tantos tipos diferentes de cabeças de parafuso.
De fato deveríamos ter parado na fenda simples, fenda cruzada, quadrada e estrela e não nesta coleção caótica de formatos.
O parafuso de fenda simples foi um dos modelos mais simples e amplamente utilizados. As primeiras chaves de fenda para esses parafusos surgiram no final do século XV como falávamos no parágrafo acima.
E o design era popular por um motivo simples: era incrivelmente fácil de fabricar. Um ferreiro só precisava fazer um único corte reto no topo da cabeça. Simples, não?
Bem, essa simplicidade tornou-se um problema quando a produção em massa ganhou força. O principal problema era algo que os engenheiros chamam de "escape". À medida que o parafuso é apertado, a chave de fenda pode, naturalmente, sair da fenda e o uso constante pode alargá-la.
Em uma linha de montagem de alta velocidade, uma ferramenta elétrica que escapava significava parafusos danificados, produtos avariados e uma produção mais lenta. As fábricas precisavam de um parafuso que acompanhasse esse ritmo.
É aí que entra o inventor canadense Peter L. Robertson. Em 1908, ele desenvolveu o parafuso Robertson, que apresentava um encaixe quadrado na cabeça. Foi uma obra-prima.
A chave encaixava com firmeza no quadrado, tornando muito menor a chance de escapar. Era possível até mesmo apertá-lo com uma mão só. Henry Ford descobriu o parafuso e percebeu que ele poderia economizar um tempo enorme em suas linhas de montagem.
Os parafusos Robertson foram usados na produção do Modelo T, mas havia um porém. Ford queria uma licença exclusiva para usar e fabricar os parafusos nos Estados Unidos. Peter recusou.
Ford acabou limitando o uso deles às suas operações no Canadá e foi em busca de uma alternativa. E essa busca levaria a um dos tipos de cabeça de parafuso mais conhecidos do mundo.
Essa alternativa surgiu na década de 1930, criada pelo pobre e quebrado mecânico John P. Thompson e aproveitada pelo espertalhão Henry F. Phillips, por um valor nunca revelado. Ele comprou e aperfeiçoou o projeto de um encaixe em formato cruciforme, o que hoje conhecemos como parafuso Phillips.
Curiosamente, embora o nome de Phillips tenha ficado famoso mundialmente, relatos históricos indicam que o próprio Henry também não acumulou uma grande fortuna com a invenção e acabou falecendo anos mais tarde na pobreza.
A General Motors testou e adotou esse modelo na linha de montagem do Cadillac de 1936, e o design foi rapidamente incorporado por outros fabricantes.
Mas aqui está a parte surpreendente: o encaixe Phillips foi projetado para permitir que a chave escapasse quando submetido a um torque excessivo. Ao contrário do modelo Robertson, que mantinha uma fixação firme, as paredes inclinadas da cabeça Phillips forçavam a chave a deslizar para fora caso o torque se tornasse muito elevado.
As primeiras ferramentas elétricas não dispunham do controle preciso de torque que temos hoje; se a força continuasse sendo aplicada após o parafuso estar totalmente apertado, o próprio parafuso, a ferramenta ou o conjunto montado poderiam sofrer danos.
Aquele deslizamento incômodo, na verdade, fazia parte da solução. No entanto, com o avanço da tecnologia, os fabricantes passaram a exigir mais torque sem esse deslizamento.
As ferramentas e máquinas de montagem tornaram-se mais precisas, e os designs dos parafusos evoluíram na mesma medida.
Surgiu então o Torx, ou parafuso em formato de estrela, desenvolvido em 1967. Sua geometria proporciona uma ampla área de contato entre a chave e o parafuso, permitindo suportar altos níveis de torque e reduzindo drasticamente o deslizamento da ferramenta. É por isso que os parafusos Torx se tornaram comuns em automóveis e eletrônicos.
E aqueles formatos estranhos de estrela com um pequeno pino central? São parafusos de segurança, projetados especificamente para desencorajar a violação de equipamentos, eletrônicos e infraestruturas públicas.
Para falar a verdade, há formatos de cabeças de parafuso estranhos que visam desencorajar manutenção caseira. Existem 38 principais classificações de cabeças de parafuso divididas entre formatos externos e tipos de encaixe (fendas ou perfis) usados para a aplicação de torque.
Esses formatos são conhecidos como parafusos de segurança ou antifurto. O principal objetivo deles é impedir que pessoas não autorizadas ou consumidores finais abram aparelhos eletrônicos, eletrodomésticos e carros, forçando-os a recorrer à assistência técnica autorizada.
Essa prática faz parte de uma estratégia de design industrial para limitar a manutenção caseira, frequentemente associada ao debate sobre a grave violação de Direito ao Reparo.
Por que as empresas fazem isso? As alegações duvidosas dizem que servem para evitar que leigos tomem choques de alta tensão em componentes como fontes de energia ou micro-ondas, dificultar a engenharia reversa de hardwares exclusivos e garantir que o consumidor pague pelo serviço de reparo oficial da marca em vez de consertar em casa ou em oficinas independentes.
Como exemplo, eu precisei retirar 32 (trin-ta-e-dois) pequenos parafusos de 2 milímetros da carcaça do DJI Phantom 4, para ter acesso a sua Unidade de Medida Inercial, pois, em uma campanha de obsolescência programada do firmware, o aparelho deixou de alçar voo do nada. O formato da cabeça do parafuso simplesmente só existem nas oficinas da DJI.
Por sorte tenho alguns amigos ferramenteiros e pedi a um que fizesse uma chave compatível para mim. Abri o aparelho, fiz downgrade no firmware, fechei com parafusinhos Phillips e o aparelho voltou a voar que é uma beleza.
Embora essas cabeças tenham sido criadas para "desencorajar" o acesso, hoje em dia é muito fácil encontrar kits de chaves de precisão para eletrônicos na internet que incluem praticamente todos esses formatos estranhos.
Portanto, da próxima vez que você estiver revirando sua caixa de ferramentas em busca daquela chave específica, lembre-se de que esses formatos peculiares não são aleatórios. Cada um deles é a solução para um problema diferente. E, juntos, eles contam a história de como aprendemos a construir coisas com mais rapidez e precisão.
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