![]() | Em um pequeno globo de cobre criado no início do século XVI, conhecido como Globo Hunt-Lenox, a costa do Sudeste Asiático, perto da atual Indonésia, traz uma inscrição que se tornou icônica: instâncias conhecidas na cartografia histórica onde a frase exata "Hic sunt dracones" ("Aqui há dragões". Embora as palavras em si fossem bastante raras, a ideia era comum entre os cartógrafos europeus medievais, que frequentemente desenhavam dragões e monstros marinhos sobre a "terra incógnita", áreas em branco nos mapas. |

Globo Hunt-Leno.
Pesquisas indicam que o Globo Lenox é uma cópia fundida a partir do Globo de Ovo de Avestruz, um mapa feito com as metades inferiores de dois ovos de avestruz unidos por volta de 1504. O Globo Hunt-Lenox pertence hoje ao acervo da Biblioteca Pública de Nova York.
Durante milênios, pessoas de todo o mundo produziram tanto mapas funcionais, que mostravam rotas comerciais, assentamentos, topografia, fontes de água, o contorno do litoral ou instruções escritas, quanto o que se chama de cosmografias, ilustrações da Terra e de sua posição no cosmos que frequentemente incluíam constelações, deuses e locais míticos.
Da Idade Média até meados do século XVII, cartógrafos da Eurásia e do Norte da África produziram uma série de novos mapas-múndi que combinavam características de ambas as tradições. Frequentemente encomendados por governantes e outras figuras poderosas, esses mapas visavam retratar a geografia mundial, mas não tinham necessariamente a finalidade de auxiliar na navegação.

O Mappa Mundi de Hereford, cerca de 1300.
E, dado o conhecimento incompleto que seus autores tinham do mundo, tratava-se, na verdade, de hipóteses. algumas das quais foram flagrantemente refutadas.
Na Europa medieval, essa nova tendência começou com o que ficou conhecido como mappae mundi. Muitos desses mapas aproximavam-se mais das cosmografias, apresentando elementos como o Jardim do Éden ou dragões míticos. Todos seguiam o mesmo formato, retratando as terras do mundo como uma massa única, dividida aproximadamente em um formato de "T" e cercada por um anel oceânico.
Cartógrafos islâmicos também criaram mapas-múndi nesse formato, priorizando detalhes geográficos em detrimento de elementos fantásticos. Um dos primeiros e mais precisos mapas desse tipo foi criado por Ibn Hawqal, cujas próprias viagens embasaram seu trabalho cartográfico.
Em 1154, o rei da Sicília encomendou ao cartógrafo islâmico Al-Idrisi a criação da "Tabula Rogeriana", também conhecida como "Guia para Viagens Agradáveis a Terras Distantes". Essa obra cartográfica incluía um mapa-múndi baseado nas viagens do próprio Idrisi e em entrevistas com outros comerciantes e viajantes.
Ele retratou corretamente o mundo como uma esfera achatada, mas acreditava que a Europa, a Ásia e o Norte da África o circundavam completamente.

Da Ming Hunyi Tu, cerca de 1389.
O "Da Ming Hunyi Tu" (acima) foi criado na China, em 1389, em uma peça de seda grande o suficiente para preencher uma sala inteira. Embora os cartógrafos nunca tivessem estado na África, eles tentaram retratar o continente com base nos relatos de comerciantes que haviam passado por lá.
Surpreendentemente, isso lhes forneceu informações suficientes para criar uma representação com o formato correto da África Subsaariana.
A partir do século XV, cartógrafos europeus começaram a ampliar o escopo de seus mapas-múndi à medida que exploradores viajavam pelo globo, mas não sem cometer equívocos.
Em 1507, o cartógrafo alemão Martin Waldseemüller mapeou as Américas retratando-as como uma estreita faixa de terra situada onde deveria estar a costa leste dos Estados Unidos.
Cartógrafos espanhóis tentaram mapear o lado ocidental das Américas baseando-se em relatos de uma expedição à Península da Baixa Califórnia. Infelizmente, as impressões dos exploradores sobre a terra os levaram a conclusões errôneas: por mais de um século, mapas espanhóis retrataram a "Ilha da Califórnia" como uma massa de terra separada do restante do continente.
O cartógrafo flamengo Gerardus Mercator, mais conhecido por seu mapa-múndi, também criou um mapa do Polo Norte, região até então nunca vista, que foi publicado em 1595. Mercator especulou que o Polo Norte abrigava a "Rupes Nigra", uma gigantesca rocha magnética cercada por um redemoinho, o que explicaria por que todas as bússolas apontavam para o norte.
Mesmo enquanto os europeus construíam uma imagem completa da Terra, eles não abandonaram totalmente a ideia de áreas desconhecidas povoadas por criaturas míticas. Ainda em 1657, o erudito inglês Peter Heylin classificava a Austrália na mesma categoria que a Utopia e o Reino das Fadas.
No entanto, com exceção do Polo Norte, essas chamadas "terras incógnitas" não eram realmente desconhecidas, pelo menos não para as pessoas que viviam nelas.
Não havia dragões em lugar algum da Terra, mas havia pessoas e culturas, muitas das quais foram exterminadas por aqueles que incluíram suas terras nos mapas-múndi, que eles juravam ter descoberto.
Publicado pela primeira vez em 1556 no terceiro volume da obra "Navigationi et Viaggi de Giovanni Battista Ramusio"", o mapa abaixo, do escritor veneziano Giovanni Battista Ramusio, é considerado por muitos especialistas como a primeira representação cartográfica do Brasil, ou melhor, daquilo que hoje denominamos Brasil.

Mapa do Brasil de Giovanni Battista Ramusio. 1556.
É um mapa cheio de detalhes, com ilustrações de embarcações, de indígenas, de animais silvestres e até mesmo a nomeação de alguns pontos do relevo brasileiro.
Em 1500, estima-se que o Brasil tinha uma população de 5 milhões de indígenas, a "descoberta" dos portugueses foi responsável por um genocídio de 95% dos povos nativos brasileiros, causado por guerras, escravidão e doenças trazidas pelos portugueses.
O valor atualizado do ouro brasileiro enviado para Portugal durante o período colonial é estimado em mais de R$ 700 bilhões se considerarmos o envio histórico de 880 toneladas de ouro convertido à cotação atual do metal precioso. Um exemplo clássico das chamadas "terrae incognitae" enriquecendo a Europa.
O MDig precisa de sua ajuda.
Por favor, apóie o MDig com o valor que você puder e isso leva apenas um minuto. Obrigado!
Meios de fazer a sua contribuição:
- Faça um doação pelo Paypal clicando no seguinte link: Apoiar o MDig.
- Seja nosso patrão no Patreon clicando no seguinte link: Patreon do MDig.
- Pix MDig: 461.396.566-72 ou luisaocs@gmail.com




Faça o seu comentário
Comentários