![]() | Um coisa que todo mundo acaba percebendo ao tomar gosto por ouvir a já clássica canção "África", de 1982, da banda de rock californiana Toto, é que (quase) todo mundo na Internet gosta tanto dela que praticamente se tornou um meme em si própria. Não é por acaso que a maioria dos covers da canção publicados no Youtube superam o milhão de visualizações. Seus 4 minutos e 55 gloriosos segundos são a primeira indicação de que a canção é menos uma peça musical e mais um sentimento: ♫♪ It's gonna take a lot to drag me away from you! ♫♪ |

A internet não se cansa de ouvir "África", do Toto, especialmente após releituras icônicas como a do Angel City Chorale, porque a música se transformou no maior fenômeno de "nostalgia emprestada" e união comunitária da cultura digital.
Publicado há mais de 12 anos e visto por mais de 28 milhões de pessoas. o arranjo do Angel City Chorale expandiu essa obsessão ao unir a perfeição melódica dos anos 1980 com uma performance visualmente hipnotizante.
O arranjo inspirado pelo grupo esloveno Perpetuum Jazzile (um clássico da internet começa com mais de 160 vozes criando uma tempestade puramente com sons corporais: estalar de dedos, palmas nas coxas e pulos.
Esse elemento visual e sensorial gerou um enorme impacto orgânico nas redes sociais, capturando a atenção de forma instantânea antes mesmo da primeira nota musical começar.
Em 2018 um grupo sem nome chamado apenas de "Artistas Italianos", que ninguém sabia (ou sabe) quem era, decidiu fazer o seu remake da obra-prima de Toto e ficou lindo, tanto que o vídeo já foi visto mais de 4 milhões de vezes.
Mas, como exatamente "África" se converteu na favorita do internet? Ocorre que a canção é um clímax na música dos anos 80. É completamente de seu tempo. Me lembro que "África" estava "extremamente fora de moda" quando eu era um jovem no final dos 80, mas agora desfruto da música com um prazer culposo.
"África" atravessou gerações. Há uma nostalgia genuína entre as pessoas de minha idade, e uma renovada entre as gerações mais jovens, que recordam a música que seus pais escutavam quando eram garotos.
Fala a verdade: como não se emocionar com a apresentação do coral australiano Pub Choir em 2023, com 18.812 pessoas de 15 cidades com 37 convidados musicais, tendo como regente Astrid Jorgensen.
Esta versão fez tanto sucesso que acabou sendo uma das atrações do Got Talent americano do ano passado. O mais bacana da coisa é que Astrid, uma ex-professora de música do segundo grau, fez todo mundo cantar (e contra-cantar) apenas com uma tela de karaokê sem nenhum ensaio anterior.
- "Ah, é África!", disse o Simon "Capitão Óbvio" Cowell, após os primeiros acordes.
A popularidade da canção se serve do fato de que é uma peça musical muito bem concebida, com impulsos de percussão, harmonias em camadas e um coro de hino fácil de cantar. A letra pode ser um pouco difícil de entender, caso comum nas canções daquela época, onde muitas letras não faziam nenhum sentido.
De fato, o tecladista de Toto, David Paich, e o baterista, Jeff Porcaro, que escreveram a canção, nunca tinham ido à África. Jeff, que morreu em 1992, descreveu a letra desta maneira:
- "Um garoto branco tenta escrever uma canção sobre a África, mas como nunca foi, só pode contar o que viu na televisão ou recordar no passado."
Ou seja, não é que seja uma canção sobre o continente, é sobre uma ideia, ou uma nostalgia prestada por um lugar ao qual nunca se foi. Cientistas sociais e críticos musicais apontam que a faixa desperta uma nostalgia por um tempo ou lugar onde o ouvinte nunca esteve, um reflexo da própria composição original. Ela soa confortavelmente familiar e infantil para quase qualquer pessoa.
Este sentimento parece bem cristalizado no trio israelense formado por Yoni, Amir & Lital, de fato, gostaria de uma dica para fazer com que Lital se convença que eu sou o homem de sua vida e meta o pé na bunda de Amir. ;-)
Existe uma piada interna no MDig, lançada faz uns 18 anos por um amigo que já não está entre nós. Toda vez que compartilhamos um versão ou cover da canção de Toto, finalizamos com uma apresentação épica do meu amigo Mike Massé e Jeff Hall em uma pizzaria de Salt Lake City
Como vemos, diferente de músicas com narrativas rígidas, a letra de "África" é deliberadamente vaga e dramática: "Abençoo as chuvas na África... assustado com essa coisa em que me tornei".
Essa indefinição tornou a música o combustível perfeito para memes, bots e correntes da internet. Qualquer pessoa consegue projetar seus próprios sentimentos de escapismo e catarse no refrão.
Mas por trás do meme, há uma composição genial. A transição harmônica milimétrica entre os versos e o refrão (estudado exaustivamente por teóricos musicais), combinada com as camadas de sintetizadores originais, cria uma sensação de recompensa e euforia genuína quando o refrão explode. No formato coral, essa explosão de harmonias multiplica o sentimento de coletividade.
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