![]() | Leonardo da Vinci era um gênio artístico? Sem dúvida, mas ele também nasceu no lugar certo e na época certa: antes do Renascimento, os artistas ocidentais recebiam pouco reconhecimento individual por seu trabalho e nesse artigo eu vou explicar o motivo. E em muitas culturas não ocidentais, as formas tradicionais sempre foram mais valorizadas do que a inovação. O conceito de originalidade como valor supremo da arte é, em grande parte, uma construção ocidental moderna, consolidada principalmente a partir do Romantismo e das vanguardas do século XX. |

Em muitas tradições culturais orientais, indígenas ou africanas, o valor de um artista ou de uma obra está justamente na sua capacidade de preservar, refinar e transmitir com maestria uma técnica ou simbolismo ancestral. Então, de onde vêm nossas noções de arte versus artesanato?
Quando você ouve a palavra "arte", o que lhe vem à mente? Uma pintura, como a Mona Lisa, uma escultura famosa ou um edifício? E quanto a um vaso, uma colcha de retalhos ou um violino? Será que essas coisas também são arte, ou são artesanato? E qual é a diferença, afinal?
Acontece que a resposta não é tão simples. Uma colher ou uma sela podem ser obras de fino acabamento, enquanto um monumento pode ser, bem, pouco inspirado.
Assim como nem todo instrumento musical é utilitário, nem toda pintura ou estátua é criada apenas por si mesma. Mas, se é tão difícil separar arte de artesanato, por que distinguimos os objetos dessa maneira?
Pode-se dizer que isso é resultado de uma mudança histórica drástica. Para nós, hoje, parece óbvio considerar figuras como da Vinci ou Michelangelo artistas lendários, e, claro, eles possuíam talentos extraordinários, mas eles também tiveram a sorte de viver no lugar certo e na hora certa, pois, pouco antes de sua época, o conceito de "artista" praticamente não existia.
Se você entrasse por acaso em uma oficina europeia medieval, veria uma cena semelhante, independentemente do local pertencer a um pedreiro, um ourives, um chapeleiro ou um pintor de afrescos.
O mestre, seguindo um conjunto rigoroso de estatutos da guilda, garantia que aprendizes e oficiais evoluíssem na hierarquia ao longo de muitos anos de prática e etapas de realização bem definidas, transmitindo tradições estabelecidas à geração seguinte.
Os patronos viam esses artífices coletivamente, e não individualmente; suas obras, de taças de vidro de Murano a rendas flamengas, eram valorizadas como símbolos de status social, não apenas por sua beleza, mas por sua fidelidade a uma determinada tradição.
E o cliente que encomendava e pagava pelo trabalho, fosse uma cadeira requintada, uma escultura em pedra, um colar de ouro ou um edifício inteiro, tinha mais chances de receber o crédito do que aqueles que o projetavam ou construíam.
Foi somente por volta de 1400 que as pessoas começaram a traçar uma linha divisória entre arte e artesanato. Em Florença, na Itália, um novo ideal cultural, que mais tarde seria chamado de Humanismo Renascentista, começava a ganhar forma.
Intelectuais florentinos começaram a difundir a ideia de reformular obras clássicas gregas e romanas, valorizando mais a criatividade individual do que a produção coletiva.
Alguns pintores audazes, que, por muitos séculos, haviam sido pagos pela área da superfície pintada, conseguiram convencer seus patronos a remunerá-los com base no mérito.
Em apenas uma geração, a atitude das pessoas em relação aos objetos e aos seus criadores mudou drasticamente; tanto que, em 1550, Giorgio Vasari, que, não por acaso, era amigo de Michelangelo, publicou um livro influente intitulado "Vidas dos Mais Excelentes Pintores, Escultores e Arquitetos", elevando esses criadores ao status de estrelas do rock ao compartilhar detalhes biográficos fascinantes.
Na mente do público, a pintura, a escultura e a arquitetura passaram a ser consideradas arte, e seus autores, mentes criativas geniais: artistas, por assim dizer.
Por outro lado, aqueles que mantinham as tradições das guildas e produziam com fidelidade castiçais, vasos de cerâmica, joias de ouro ou portões de ferro forjado passaram a ser conhecidos coletivamente como artesãos, e suas obras, consideradas artes menores ou decorativas, uma classificação que denotava status inferior e consolidava a distinção entre arte e artesanato que ainda persiste no mundo ocidental.
Assim, se consideramos arte uma pintura de Rembrandt ou de Picasso, onde ficam, então, uma máscara africana, um vaso de porcelana chinesa ou uma cerâmica Tupi-Guarani?
Acontece que, na história da arte, o valor atribuído à inovação é a exceção, e não a regra. Em muitas culturas ao redor do mundo, a distinção entre arte e artesanato jamais existiu. De fato, algumas obras que poderiam ser classificadas como artesanato, como um cocar Maia, um vaso da Dinastia Ming ou um totem, são consideradas as formas visuais de maior destaque dessas culturas.
Quando historiadores da arte do século XIX, geralmente europeus, observaram que a arte de certas culturas não ocidentais permanecia inalterada por milênios, classificaram essas obras como "primitivas", sugerindo que seus criadores eram incapazes de inovar e, portanto, não eram verdadeiros artistas. Isso também não impediu que os colonizadores roubaSsem Esta arte "primitiva" para expor em seus museus.
O que eles não compreendiam era que esses criadores não buscavam inovar de forma alguma; o valor de suas obras residia justamente na preservação das tradições visuais, e não em sua transformação.
Nas últimas décadas, obras como colchas, cerâmicas e esculturas em madeira passaram a figurar com maior destaque em livros de história da arte e a ser exibidas em museus ao lado de pinturas e esculturas.
Mas tinha um homem sarcástico no meio do caminho, no meio do caminho tinha um sátiro que introduziu formas conceituais e provocativas no conceito artístico ao longo do século XX.
O "penico" (a famosa obra "Fonte de Marcel Duchamp) surgiu em 1917, os quadros inteiramente brancos ou rabiscados ganharam força a partir de 1920 e se consolidaram nos anos 1950/60, enquanto a banana colada na parede (de Maurizio Cattelan) é um fenômeno recente de 2019.
No entanto foi nos anos 1960 o mercado e os museus institucionalizaram a ideia de que a ideia (o conceito) por trás da obra vale mais do que o objeto físico em si. Se a ideia for provocativa, o objeto pode ser qualquer coisa (lixo, uma cadeira, uma banana).
Adolf Hitler, que era um pintor frustrado de estilo técnico e realista detestava profundamente as vanguardas modernas (como o Expressionismo, o Cubismo e o Dadaísmo). Ele via o modernismo abstrato e experimental como uma "degradação moral", uma "fraqueza espiritual" e uma "sabotagem cultural" imposta por intelectuais Foi assim que em julho de 1937, em Munique, o regime nazista organizou o que ficou conhecido popularmente como o "museu do ridículo": a Exposição de Arte Degenerada.
É por estas e outras que devemos considerar a arte conceitual apenas um lixo, uma piada de quinta série sem graça nenhuma.
Talvez seja, então, o momento de deixar de lado termos vagos como "arte" (excetuando a moderna) e "artesanato" em favor de uma expressão como "artes visuais", que abrange uma gama mais ampla de belas produções estéticas.
Afinal, se a nossa apreciação dos objetos e de seus criadores é tão condicionada pela nossa cultura e história, então a arte, e a sua definição, reside, de fato, no olhar de quem a contempla. A "arte" está nos olhos de quem a vê.
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