![]() | Eu comecei a escrever este artigo no post anterior, mas o assunto é muito interessante para merecer rodapé de página. O TED (Tecnologia, Entretenimento e Design) tinha um potencial enorme para revolucionar a Internet, assim como fez a Wikipédia, levando conhecimento a quem não podia comprar uma Barsa, mas, parece-me, falhou estrepitosamente ao transformar suas palestras em eventos elitistas com ingressos tão caros quanto a de um show de uma estrela do rock. Isso toca em um ponto central na história da mídia digital: a tensão entre a democratização do conhecimento e a monetização de uma marca global. |

O TED nasceu em 1984 como uma conferência realmente fechada e elitista, mas explodiu em 2006 quando começou a postar os vídeos de graça na internet, chamando a atenção de todo mundo que é ávido por conhecimento.
O que "deu errado" (ou mudou) na transição de um ideal de revolucionar a web para o modelo atual se resume a alguns fatores estratégicos e econômicos. Lógico, o TED não faliu em sua missão de distribuir conhecimento, mas escolheu um modelo híbrido para se sustentar.
As conferências presenciais funcionam como eventos de networking de altíssimo luxo para bilionários, CEOs e celebridades, com ingressos que passam facilmente dos US$ 10.000 (isso mesmo). Esse valor absurdo é o que financia a infraestrutura de gravação, edição e a própria hospedagem gratuita dos vídeos para o resto do mundo.
Para viralizar na internet, o TED padronizou suas palestras. Elas precisam ter no máximo 18 minutos, ser emocionantes e fáceis de digerir. Isso gerou críticas de que o TED virou uma fábrica de informanebto (informação misturada com entretenimento), onde grandes ideias são simplificadas demais e palestrantes focam mais na performance (o tom de voz com pausas dramáticas) do que na profundidade científica.
Para descentralizar a marca, e piorar ainda mais, criaram o TEDx, que são eventos independentes organizados localmente. Embora isso tenha levado a marca para o mundo todo de forma acessível, também abriu as portas para pseudociência, discursos de autoajuda vazios e palestrantes que compram espaço apenas para inflar o próprio currículo, diluindo o prestígio original da marca.
O TED falhou em comparação à Wikipédia? A comparação que fiz foi meio obtusa já que o objetivo declarado de Jimmy Wales sempre foi levar o conhecimento gratuito para todos, com o próprio conhecimento de todos... e conseguiu.
Quem menospreza o conteúdo wiki desconhece que a enciclopédia on-line está em pé de igualdade com as melhores enciclopédias tradicionais em termos de precisão, mas com dinâmicas e características muito diferentes. Embora qualquer pessoa possa editar, a Wikipédia desenvolveu uma estrutura robusta de autorregulação. De fato, para mim, a Wikipédia é um dos maiores presentes que a internet nos deu.
Já o objetivo do TED é vender conhecimento diferenciado para gente abastada, com produção altamente centralizada e "videozinhos" curiosos gratuitos, mas com a experiência real restrita a poucos.
Enquanto a Wikipédia se manteve fiel ao espírito de "bazar de conhecimento" aberto e sem fins lucrativos, o TED seguiu a lógica do capitalismo de ideias, onde o conhecimento gratuito serve como vitrine para um produto VIP altamente exclusivo.
Cada qual no seu cada qual, mas eu precisava escrever isso para que, quando você for confrontado com um pedido de doação anual da Wikipédia, considere ajudar.
O que é Barsa? A Enciclopédia Barsa era o verdadeiro "Google da família", e comprá-la em longas prestações por meio de vendedores que batiam de porta em porta era um marco na educação de muitos adolescentes dos anos 70 e 80.
Lembro-me que minha mãe comprava a coleção de 18 livros pagando 12 suaves prestações. A atualização anual era em forma de compra de toda a coleção novamente.
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