![]() | Durante dez anos extenuantes, os gregos sitiaram Troia, espalhando navios e acampamentos pela costa da cidade. Mas, ao despertarem para mais um dia de batalha, os troianos descobriram que seus inimigos haviam desaparecido durante a noite, deixando para trás apenas um enorme cavalo de madeira. Interpretando aquilo como um sinal de rendição grega, os soldados arrastaram o troféu para dentro da cidade e começaram a celebrar. Contudo, um troiano não estava satisfeito. Laocoonte, vidente e sacerdote, desconfiava profundamente daquele "presente de grego". |

Ele lembrou seus compatriotas da fama de astúcia de seus inimigos e advertiu-os a não aceitarem a estranha oferenda. A multidão zombou de seu aviso, mas Laocoonte não recuou. Ele abriu caminho até a besta de madeira e cravou a espada em seu ventre. No entanto, sua lâmina não derramou sangue algum. E, se havia homens se movendo lá dentro, Laocoonte não conseguia ouvi-los em meio ao barulho da multidão.
Ainda tomado por um presságio sombrio, Laocoonte voltou para casa e pediu a ajuda de seus filhos para preparar um sacrifício aos deuses. Mas seu destino, e o de seus compatriotas troianos, já estava selado. Os deuses haviam decidido conceder a vitória aos gregos, garantindo o sucesso de seu plano de infiltrar-se em Troia.
E Poseidon queria punir o sacerdote por ameaçar aquele plano. Duas grandes serpentes emergiram das ondas revoltas do mar e atacaram Laocoonte e seus filhos. A morte violenta do vidente passou despercebida em meio às celebrações. Mas, naquela noite, quando a tragédia se abateu sobre eles, os troianos finalmente se lembraram do aviso do velho sacerdote.
A história trágica de Laocoonte inspirou inúmeras releituras por todo o mundo antigo. Virgílio descreve o fim do vidente em seu poema épico "Eneida", e Sófocles compôs uma peça inteira sobre o sacerdote condenado.
No entanto, sua representação mais famosa e influente é uma estátua de mármore chamada "Laocoonte e Seus Filhos". Provavelmente esculpida por um trio de artistas de Rodes, a origem exata da obra permanece um mistério; as teorias atuais situam sua criação em algum momento entre 200 a.C. e 68 d.C.
Independentemente de quando tenha sido criada, esta escultura permanece como o exemplo máximo do estilo barroco helenístico. No entanto, mesmo dentro de uma tradição conhecida por suas expressões faciais dramáticas e figuras contorcidas, nenhuma outra obra desse estilo se equipara à intensidade de "Laocoonte e Seus Filhos".
As figuras, quase em tamanho natural, contorcem-se em agonia, esforçando-se para se livrar das enormes serpentes que se enrolam em seus corpos. Seus rostos transbordam desespero e desesperança; contudo, a expressão de Laocoonte revela uma determinação feroz de resistir.
A cena é também singularmente brutal, capturada exatamente no momento em que as mandíbulas venenosas da serpente estão prestes a morder.
Exibida como peça central do complexo do palácio "Domus Aurea", do imperador Nero, essa escultura impressionante e aterradora foi uma das obras de arte mais comentadas de sua época.
O renomado escritor romano Plínio, o Velho, chegou a afirmar que ela era "preferível a qualquer outra obra da pintura ou da escultura".
Infelizmente, a estátua perdeu-se quando a "Domus Aurea" foi consumida por um incêndio em 109 d.C. Mas a história de Laocoonte estava longe de terminar.
Em 1506, Michelangelo Buonarroti, então o escultor mais famoso de Roma, recebeu a notícia de que o Papa Júlio II havia desenterrado algo maravilhoso. Mesmo coberta de terra, a obra deixou Michelangelo maravilhado. A musculatura dramática era exagerada, mas tornava-se ainda mais poderosa justamente por essa extrema intensidade.
Além disso, as formas sinuosas das serpentes e das figuras humanas conduziam o olhar em um movimento constante. O Papa Júlio exibiu a peça em local de destaque no Vaticano, mas foi a influência que ela exerceu sobre Michelangelo que tornou a estátua verdadeiramente famosa.
Os elementos emotivos e exagerados da escultura transformaram a maneira como ele representava o corpo humano. Suas pinturas e esculturas passaram a apresentar poses contorcidas, conhecidas como "figura serpentinata", termo que remete a formas semelhantes às de uma serpente. E sua célebre obra na Capela Sistina centrava-se em figuras musculosas e em posições de hiperextensão.
Em pouco tempo, o novo estilo de Michelangelo deu origem a todo um movimento artístico chamado Maneirismo, influenciando artistas ao longo do século XVI a exagerar e retorcer os corpos humanos para criar efeitos dramáticos.
Visto que os artistas do Renascimento reverenciavam a arte greco-romana antiga acima de tudo, talvez não seja surpreendente que "o grupo de Laocoonte" tenha causado um impacto tão grande. Mas nem mesmo o próprio Laocoonte poderia ter previsto que sua imagem se tornaria uma das esculturas mais influentes já criadas.
Mas esta história ainda não acabou. Acreditem ou não: Michelangelo entrou em uma competição para reparar a referida estátua... e perdeu
Desenterrado de um vinhedo romano em 1506, a imponente obra parecia ter resistido ao milênio e meio intermediário com muito menos desgaste do que a maioria dos grandes artefatos da antiguidade, embora o próprio Laocoonte estivesse, visivelmente, sem um braço.
Encomendado pelo Papa Júlio II, o arquiteto do Vaticano Donato Bramante realizou um concurso, em 1510, para ver quem poderia apresentar a melhor versão da restauração do braço em cera. Michelangelo sugeriu que o braço perdido de Laocoonte fosse dobrado para trás, como se o sacerdote de Troia estivesse tentando arrancar a serpente de suas costas.
Michelangelo não era o único homem da Renascença na competição: Rafael, que era um parente distante de Donato, preferia um braço estendido. No final, Jacopo Sansovino foi declarado o vencedor, cuja versão com um braço estendido alinhado com a própria visão de Rafael de como a estátua deveria ser.
Assim, "Laocoonte e Seus Filhos" foi eventualmente restaurado em 1532, cerca de duas décadas depois, por Giovanni Antonio Montorsoli, ironicamente um aluno de Michelangelo, com o braço estendido.
Esta se tornou a versão padrão da escultura até o século XX quando, em uma estranha reviravolta do destino, um antigo braço dobrado para trás foi descoberto em uma oficina romana em 1906, a poucas centenas de metros de onde o grupo de estátuas fora encontrado quatrocentos anos antes.
Em 1957, o museu removeu a restauração de Giovanni e o braço dobrado foi posicionado exatamente como Michelangelo havia sugerido, justificando o argumento do grande escultor italiano muito depois de sua partida, cerca de três séculos e meio tarde demais, infelizmente, para Michelangelo ter dito a Rafael: - "Num falei?
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