![]() | Quando o Canal do Panamá foi criado, uma ilha também surgiu. A ilha de Barro Colorado nasceu quando o terreno montanhoso ao redor foi transformado em um lago graças ao canal. Desde então, a ilha se tornou uma das mais estudadas do planeta, porque seu isolamento permite que os cientistas observem o que acontece com nossa flora e fauna quando elas não estão sendo impactadas pela constante intervenção humana. E, infelizmente, temos um problema. Muitas das árvores gigantes da ilha parecem estar morrendo, e esse padrão se repete em toda a região tropical. |

Isso terá um impacto enorme no meio ambiente, já que essas árvores gigantes são responsáveis por armazenar uma grande quantidade de carbono, e liberá-lo devido à morte prematura não é exatamente o que desejamos.
Segundo um estudo de 2017, as árvores gigantes da Ilha, estão morrendo principalmente devido a raios frequentes que atingem o topo da copa, somados a fatores de estresse climático causados pela ação humana, como o ressecamento da atmosfera, secas e o aumento das temperaturas.
No entanto, entre as árvores da ilha de Barro Colorado, uma gigante está fazendo algo inesperado. A ameixeira-brava (Dipteryx oleifera) está prosperando, porque se eleva acima do dossel florestal e prospera, pois sobrevive a raios diretos e chega até a se beneficiar deles.
As árvores mais altas que se projetam acima do dossel (com mais de 35 metros) são os alvos mais frequentes de raios. Os raios são uma das principais causas de morte desses gigantes ancestrais da floresta.
O aquecimento global provoca o ressecamento da atmosfera, eleva as temperaturas e intensifica tempestades extremas, aumentando a mortalidade geral das árvores e enfraquecendo a resiliência da floresta.
Por outro lado, a ameixeira consegue suportar correntes elétricas intensas (de até 30.000 ampères) com quase nenhum dano estrutural ou nas folhas, provavelmente devido à sua alta condutividade elétrica interna, que minimiza o aquecimento interno.
Um raio livra a resistente árvore de lianas (cipós lenhosos) e parasitas que a sufocam. A descarga elétrica causa danos colaterais ou mata árvores vizinhas competidoras e a vegetação ao redor.
Com a eliminação de competidores e parasitas, as ameixeiras, tanto as atingidas quanto as sobreviventes, passam a receber muito mais luz solar e recursos, aumentando significativamente a produção de sementes.
Outro benefício dos raios: as árvores menores ao redor das ameixeiras sofrem danos colaterais. Em poucas semanas, as pontas dos galhos das árvores menores começam a morrer, provavelmente porque a corrente elétrica faiscou pelo ar, passou por folhas em contato ou fluiu por meio de cipós compartilhados. Ao longo de vários meses, muitas árvores próximas perdem folhas lentamente e morrem.
Os pesquisadores calcularam que viver perto de uma ameixeira-brava aumenta em 48% a probabilidade de uma determinada árvore morrer atingida por um raio. Portanto, os raios podem ajudar a eliminar árvores que poderiam crescer o suficiente para competir pela luz solar de uma ameixeira-brava, pois qualquer árvore que se aproxime acaba sendo eletrocutada.
A árvore é tão tolerante a raios que pode muito bem estar atraindo-os. Após fotografar e medir a floresta com drones, os pesquisadores concluíram que a ameixeira-brava na Ilha de Barro Colorado é muitos metros mais alta do que outras árvores próximas e possui uma copa mais ampla, aumentando em 68% a probabilidade de ser atingida por um raio.
Eu sei o que você está pensando: a ameixeira não pode se transformar em uma praga eliminando toda a floresta adjacente?
Longe disso, esse fenômeno é considerado uma parte natural e saudável do ecossistema. Pesquisadores de um estudo de 2025, publicado na New Phytologist explicam que a relação entre a ameixeira e os raios funciona como um mecanismo de coexistência e equilíbrio, e não de destruição em massa.
Uma árvore é atingida, em média, apenas cinco vezes ao longo de toda a sua vida útil (que pode passar de 300 anos). O impacto é muito localizado. A ameixeira atinge alturas colossais justamente porque as outras árvores ao redor fornecem a estrutura florestal de suporte de que ele precisa quando jovem. Ela não cresce isolada.
Ao eliminar algumas árvores vizinhas, o raio abre pequenas clareiras na floresta. Essas frestas de luz solar no chão da floresta são fundamentais para que sementes de dezenas de outras espécies de plantas, que precisam de sol direto para germinar, consigam crescer. É uma renovação natural do ecossistema. Para a dinâmica natural da floresta, isso é bom.
A ameixeira-brava é considerada uma espécie-chave em locais como a Ilha de Barro Colorado. Seus frutos e sementes servem como um dos recursos alimentares mais críticos para mamíferos, aves e insetos locais durante as épocas de grande escassez de alimentos na floresta.
Portanto, o fato dos raios garantirem que ela sobreviva livre de parasitas e produza até 14 vezes mais sementes protege a base alimentar de todo o ecossistema panamenho. Em vez de uma ameaça, os cientistas enxergam esse comportamento como uma forma fantástica da própria natureza criar seus próprios "mecanismos de reinicialização".
A Dipteryx oleifera pode não ser a única. Observações anedóticas de toda a região tropical sugerem que espécies resistentes a raios não são exclusivas do Panamá. Parece muito provável que certas árvores estejam se beneficiando da resistência a raios em florestas do mundo todo.
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