![]() | Certo dia, enquanto uma senhora carinhosa chamada Desiree estava do lado de fora, um pequeno filhote de gaio-azul (Cyanocitta cristata) voou para o seu terraço e exigiu comida. Ela não tinha alpiste, mas tinha ração para gatos, que deu ao pássaro com pauzinhos. Ele comeu tudo e voltou no dia seguinte pedindo mais, até que isso se tornou uma rotina diária. Vamos lembrar que o gaio é um corvídeo. Os corvos foram considerados amaldiçoados ao longo da história principalmente por comerem de tudo e serem carniceiros, o que os associou diretamente à morte, à guerra e ao oculto. |

Lembrem-se disso para a história que vou contar depois, mas Desiree não sabia nada disso.
- "Esse pássaro surgiu do nada. Ele simplesmente mergulhou com o bico aberto, fazendo uns barulhos, e bateu as asas e voltou", disse ela.
Desiree nunca lidou com pássaros, mas tinha gatos e consequentemente tinha ração.
- "Eu estava aqui na minha, sem esperar que isso acontecesse. A única coisa que me veio à cabeça foi ração de gato, porque temos gatos", explicou a mulher, que chamou o gaio de Birdie e continuou alimentando-o por meses até que ele se tornou independente o bastante e voou com os seus.
O que aconteceu ali? Birdie certamente era um filhote que alçou voo do ninho e seu primeiro contato no mundo foi Desiree, que através da cunhagem, se tornou sua mãe.
Na ciência do comportamento animal (etologia), cunhagem é um tipo de aprendizado rápido, automático e praticamente irreversível que acontece em uma janela de tempo muito curta logo após o nascimento do filhote. Quando os filhotes de aves saem do ovo, eles gravam na mente a imagem do primeiro objeto grande ou ser vivo que se move perto deles e passam a segui-lo, reconhecendo-o como sua "mãe".
Quando criança descobri um ninho de anu-preto (Crotophaga ani), no abacateiro, mas achei que era pássaro-preto (Gnorimopsar chopi) e levei para dentro de casa. Quando minha avó viu o pássaro e começou a se benzer e me mandou sumir com o pintinho para longe.
Hoje quase ninguém sabe, mas enquanto o pássaro-preto era amado como ave canora, o barulhento anu era odiado.
As superstições antigas associadas ao anu (tanto o preto quanto o branco) misturam o misticismo do folclore rural brasileiro com o medo do desconhecido. Por ser uma ave de hábitos muito peculiares -plumagem preta e fosca, olhos fixos, canto barulhento e um forte cheiro característico (originários de ninhos comunitários)-, o anu-preto acabou ganhando fama de criatura misteriosa e, muitas vezes, de mau agouro.
Uma das crendices mais fortes no interior do Brasil dita que matar um anu-preto atrai 7 anos de azar ou desgraça para a vida da pessoa. Por conta disso, os antigos proibiam terminantemente as crianças de jogarem pedras ou caçarem essa ave, tratando o ato quase como um pecado.
Eu não sumi com a "Pretinha", ao contrário fiz um ninho com barba-de-pau para ela no meio da lenha da casinha do fundo do quintal. Minha avó tinha horror dela, mas com o tempo se acostumou e Pretinha passou a viver dentro de casa.
Com o tempo ela começou a se aventurar pelo quintal e depois para mais longe junto a uma grande galera, quando começou a ficar fedida. Ela arrumou um namorado, mas sempre voltava para me ver, ainda que as visitas passaram a ser bem irregulares e demorada.
Nem todas as crendices do anu eram puramente malévolas. O canto do anu também era usado de forma mística para prever acontecimentos do cotidiano.
Toda vez que ela aparecia a Vó corria para recolher a roupa do varal e fazia um bolão de fubá, sobre prenúncios de chuva ou de visitas.
Me lembro como se fosse hoje um dia que ela sentou no ombro da minha avó DonAna, até que até que no próximo verão não voltou mais.
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