![]() | Nas últimas décadas, a população de tartarugas-aruanãs (Chelonia mydas) cresceu tanto que a espécie deixou de ser classificada como "em perigo de extinção" para passar à categoria de "pouco preocupante, na lista vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN). As aruanãs, também conhecidas como tartarugas-verdes tornaram-se um símbolo da conservação — e parece que poderíamos aplicar o que aprendemos ao salvá-las para salvar muitas outras espécies também... mas acontece que não é tão simples assim. |

As tartarugas fêmeas, a caminho de desovar, tinham suas rotas bloqueadas por construções costeiras; por isso, governos aprovaram leis para manter livres os caminhos até as áreas de desova.
Caçadores furtivos saqueavam os ninhos em busca de ovos, então grupos locais começaram a proteger as praias assim que as fêmeas faziam a postura.
Os filhotes, que dependem do reflexo do luar para encontrar o oceano, eram confundidos pelas luzes fortes das praias onde nasciam; assim, comunidades costeiras adotaram medidas para manter as praias escuras à noite.
Além disso, pescadores capturavam tartarugas adultas acidentalmente em alto-mar, levando especialistas em vida selvagem a trabalhar com o setor pesqueiro para criar novos equipamentos com menor risco de prender as tartarugas.
Como resultado dessas estratégias coletivas de conservação, a população mundial de aruanãs aumentou mais de 25% e, em certas áreas, o número de ninhos cresceu mais de dez vezes.
Essa parece ser uma receita replicável para a conservação de animais: encontrar uma espécie em apuros, identificar as ameaças que a cercam, resolver cada um dos problemas e voilà: a espécie se recupera rapidamente.
No entanto, as tartarugas-verdes contavam com dois fatores cruciais a seu favor que a maioria das outras espécies ameaçadas não possui. Primeiro, a maioria das ameaças às tartarugas era específica e reversível. Construções podem ser interrompidas, áreas de desova podem ser vigiadas, luzes nas praias podem ser apagadas e pescadores podem mudar as redes que utilizam.
Mas vejamos o caso dos orangotangos-de-sumatra, espécie ameaçada de extinção que perdeu quase metade de seu habitat na selva para plantações de óleo de palmeira: não podemos simplesmente fazer toda essa floresta crescer novamente da noite para o dia, como num passe de mágica.
Ou os pinguins-imperadores: o aumento das temperaturas derreteu quase um terço do gelo marinho da Antártida de que essas aves precisam para criar seus filhotes, e não é como se pudéssemos simplesmente congelar o oceano novamente.
Outro aspecto das tartarugas-marinhas é que. se as condições forem favoráveis, cada tartaruga fêmea pode gerar centenas de possíveis filhotes por ano e, com uma pequena intervenção humana, muitos desses filhotes conseguem chegar à relativa segurança do oceano.
Assim, embora uma tartaruga-verde possa levar algumas décadas para atingir a maturidade sexual, a estratégia reprodutiva da espécie permite uma recuperação rápida assim que as ameaças são eliminadas.
Este foi um bom ano para o kākāpō

Compare isso com outras espécies ameaçadas, como o kākāpō (Strigops habroptilus), o papagaio "burrinho" da Nova Zelândia: eles produzem poucos ovos de cada vez e só se reproduzem quando as árvores rimu produzem frutos suficientes para as fêmeas e filhotes, o que acontece apenas a cada dois ou quatro anos!
E 2025 foi um ano de redenção para eles. O Departamento de Conservação da Nova Zelândia anunciou no começo deste ano que a população atual é de 325 indivíduos, após uma temporada recorde de reprodução.
Essa conquista representa a maior população registrada em cerca de 75 anos, um marco extraordinário para uma espécie que quase foi extinta.
O salto populacional ocorreu graças à incorporação de 90 filhotes da temporada de reprodução. Pela regra oficial do programa, os filhotes só entram para o censo ao completarem 150 dias de vida (idade em que se tornam independentes). Dos novos integrantes, 38 são fêmeas e 52
Esse sucesso reprodutivo foi impulsionado por uma superfrutificação das árvores nativas de rimu. Por estarem criticamente ameaçados, todos os 325 indivíduos são monitorados de perto por transmissores de rádio individuais.
Parte do sucesso também se deve ao fato de que eles foram confinados em ilhas santuárias totalmente livres de predadores mamíferos introduzidos, como ratos e arminhos.
Em 16 anos ou menos possivelmente não teremos mais vaquitas

A vaquita, que tem apenas um filhote por vez e precisa esperar dois anos para se reproduzir novamente. O último censo e estimativas populacionais indicam que restam apenas entre de 8 a 10 vaquitas (Phocoena sinus) no mundo, especificamente no norte do Golfo da Califórnia (Mar de Cortés), no México.
Pior? A vaquita marinha nunca conseguiu se adaptar ao cativeiro. Em 2017, um consórcio internacional de cientistas lançou o projeto emergencial VaquitaCPR (Conservação, Proteção e Recuperação). O objetivo era capturar algumas das vaquitas restantes e levá-las para santuários marinhos protegidos (redes flutuantes no oceano) para reprodução em cativeiro.
No entanto, o projeto foi cancelado imediatamente após as primeiras tentativas: uma fêmea jovem mostrou sinais extremos de estresse e precisou ser solta, e uma fêmea adulta reprodutiva faleceu pouco depois de ser capturada. Os cientistas concluíram que a espécie é dócil e sensível demais para tolerar o manuseio humano e o confinamento.
Pelo balanço das ondas que assistem a morte de uma vaquita a cada dois anos, em 2042 ela estará extinta.
Mesmo com excelentes medidas de conservação em vigor, essas espécies ameaçadas não conseguem se reproduzir rápido o suficiente para tirar suas populações da zona de perigo.
As tartarugas-verdes conseguiram se recuperar porque as ameaças que enfrentavam puderam ser combatidas e porque a espécie se reproduz de uma forma que favorece a recuperação em um prazo relativamente curto; no entanto, esse não é o caso da maioria das espécies em risco.
Essa é uma das principais razões pelas quais, das cerca de 7.000 espécies animais já listadas como ameaçadas de extinção, apenas oito, incluindo a tartaruga-verde, tiveram sua classificação alterada para "pouco preocupante".
Portanto, sim, a aruanã é uma história de sucesso incrível. Acontece que não é uma história facilmente replicável. Em todo o mundo, as populações de vida selvagem diminuíram, em média, 73% desde 1970, de acordo com
Essa taxa alarmante de declínio levanta sérias preocupações sobre a situação do nosso planeta. Ameaças como a perda de habitat, a caça ilegal, o tráfico de animais e as mudanças climáticas exercem uma pressão enorme sobre a vida selvagem.
No entanto, enquanto a maioria das espécies continua enfrentando dificuldades, algumas, como a tartaruga-verde, estão apresentando recuperações extraordinárias que nos dão esperança.
A conservação não segue uma receita simples, mas, ao compreendermos as causas do declínio de uma espécie, podemos fazer uma diferença significativa trabalhando em conjunto.
É necessário ainda ressaltar a epopeia das aruanãs, uma das jornadas de sobrevivência mais impressionantes e dramáticas do reino animal. De dezenas de milhares de filhotes que correm em direção ao mar, estima-se que apenas 1 em cada 1.000 (ou até 1 em cada 5.000) consiga atingir a idade adulta e retornar à sua praia natal para desovar.
Essa jornada da praia ao oceano e o ciclo de retorno se dividem em etapas marcadas por perigos extremos e habilidades biológicas extraordinárias:
1. A corrida frenética pela vida
Tudo começa na areia da praia, geralmente à noite. Quando os ovos eclodem coletivamente, os filhotes emergem do ninho e iniciam uma corrida rápida em direção ao mar.
Elas usam a luz natural do horizonte oceânico, com auxílio do luar, mais claro que a silhueta da vegetação atrás delas para se orientar.
Caranguejos, aves marinhas, raposas e cães atacam os filhotes nessa travessia de vida e morte, porque suas carapaças ainda são macias. Atualmente, a iluminação artificial das cidades também as confunde, fazendo com que caminhem para o lado errado e acabem debaixo da roda de um carro.
2. O "frenesi de natação" e a zona costeira
Ao tocar a água, o filhote entra em um estado chamado "frenesi de natação", nadando sem parar por até 48 horas para se afastar o máximo possível da costa, onde a concentração de predadores é altíssima.Mas o perigo não é menor na água: peixes grandes, tubarões e aves marinhas de mergulho dizimam a maior parte dos filhotes nesta fase.
3. Os "anos perdidos" em alto-mar
Uma vez em oceano aberto, os filhotes entram em uma fase da vida que os cientistas chamavam de "os anos perdidos", pois era difícil monitorá-los.
Elas buscam zonas de convergência de correntes marinhas, onde se abrigam em aglomerados de algas flutuantes (como o sargaço). Ali, encontram alimento (pequenos crustáceos e águas-vivas) e camuflagem contra grandes predadores pelágicos.
Infelizmente, essas mesmas correntes que acumulam algas hoje acumulam toneladas de lixo plástico, que os filhotes ingerem por engano, causando alta mortalidade.
4. O retorno às águas costeiras (fase juvenil a adulta)
Após vários anos vivendo no oceano aberto, as tartarugas-verdes sobreviventes mudam seus hábitos. Elas migram para águas costeiras mais rasas, recifes de corais e estuários, onde passam a ter uma dieta majoritariamente herbívora, alimentando-se de algas e gramas marinhas. Elas levam de 20 a 50 anos para atingir a maturidade sexual.
5. O milagre do retorno: a filopatria natal
Quando finalmente se tornam adultas e estão prontas para se reproduzir, ocorre um dos fenômenos mais fascinantes da biologia: a filopatria natal. As tartarugas viajam milhares de quilômetros de volta exatamente para a mesmíssima praia onde nasceram décadas atrás.
Como elas se guiam? Elas utilizam uma espécie de "bússola interna" geomagnética, memorizando a assinatura magnética única da praia de nascimento quando eram filhotes (processo chamado de magnetorrecepção).
Não importa se esta praia fica na Ilha da Trindade no Espírito Santo; na Ilha Raine, na Austrália; no Parque Nacional Tortuguero, na Costa Rica; na Ilha de Sansha, na China; na Praia do Leão, em Fernando de Noronha; nas Ilhas Galápagos, no Equador, as agora gigantes retornam ao lugar exato onde foram perseguidas pequeninas.
As poucas unidades que conseguem retornar sobem a praia à noite, cavam seus ninhos na areia e depositam cerca de 120 ovos por postura, reiniciando esse ciclo heroico e frágil de sobrevivência, geração, atrás de geração.
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