
Recentemente, uma amiga russa saiu correndo do banheiro aqui de casa, enrolada na toalha, como se tivesse visto um ET, perguntando: - "Chto eto, chort vozmi, takoye?" ( - "Que merda é essa?) Ela estava falando do chuveiro.
Para quem cresceu em países frios como a Rússia, a ideia de misturar água e eletricidade no mesmo aparelho, bem em cima da cabeça, parece uma armadilha mortal propiciada pelo próprio Putin ou uma gambiarra inacreditável.
Por lá, o aquecimento da água é central, geralmente por caldeiras da própria cidade, Sebastopol, e a água já chega quente por tubulações separadas.
A água do sistema centralizado, chamado tsentralnoye otopleniye na Crimea, é extremamente quente, chegando a ser escaldante se você não abrir a água fria para equilibrar.
Ela ouviu o chiado do barulho do chuveiro ligando e achou que ia ser eletrocutada. A verdade é que muitos de nós passamos por isso um dia.
O esquecível banho de bacia

O banho de bacia era um ritual de higiene comum em épocas sem chuveiros elétricos, onde a água era aquecida no fogão e a limpeza feita de forma parcial ou dentro de grandes bacias de alumínio ou zinco.
A água era esquentada no fogão a lenha ou a gás, muitas vezes usando grandes latas de banha reaproveitadas ou tachos, e misturada com água fria em uma bacia grande uma vez só. Os filhos se perfilavam do maior ao menor para entrar na bacia. A ideia do menor por último era que ele podia ainda estar com a bunda suja da fralda. Dependendo do tamanho da família, o pequeno tomava banho frio na água barrenta e muitas vezes mijada.
Na década de 1930, tomar um banho quente no Brasil era um luxo reservado para poucos. Não havia infraestrutura central de gás, o que significava que a maioria dos cidadãos tinha que aquecer laboriosamente baldes de água em fogões a lenha. As bacias dos mais abastados eram substituídas por banheiras elaboradas.
As serpentinas de fogão a lenha

Alternativamente, quem tinha grana o bastante podia instalar uma serpentina dentro da câmara de combustão do fogão a lenha para aquecer água usando o calor do fogo.
O assunto merece um interregno à história do chuveiro elétrico, porque as serpentinas de fogão a lenha estão voltando à moda devido ao preço proibitivo da energia elétrica.
Funciona por termossifão (circulação natural): a água fria entra pela parte inferior da serpentina, aquece com o fogo, torna-se menos densa e sobe naturalmente para um reservatório (boiler ou caixa d'água isolada).
O sistema funciona sem energia elétrica e reduz o consumo do chuveiro elétrico ou gás. Se levarmos em conta que um chuveiro elétrico consome, em média, de 25% a 30% de toda a energia elétrica de uma casa comum, podendo chegar a até 40% em residências com muitas pessoas ou em dias mais frios, a economia pode ser considerável.
Os modelos em cobre duram em média 7 anos e não enferrujam. Já as versões em ferro galvanizado são mais baratas, mas têm durabilidade menor. Você pode encontrar diversas opções de kits e faixas de preço em plataformas on-line por pReços que variam de R$500 a R$1.000.
O problema vai ser lidar com a reclamação do vizinho depois com a fumaça. Lenha não será problema. Experimente dar uma volta pelo seu bairro e irá encontrar metros de madeira descartada.
O que fazer quando seu pai necessitava de recorrentes banhos quentes em 1930

Francisco Canhos, um engenheiro autodidata de Jaú, São Paulo, não podia se dar ao luxo de instalar uma serpentina nos 1930. Seu pai sofria de reumatismo severo e precisava desesperadamente de banhos quentes frequentes.
Observando a expansão da rede elétrica e a escassez de gás, Francisco desmontou um ferro elétrico doméstico, retirou o elemento de aquecimento (fio de nicromo) e o colocou dentro de um cano de água. Quando a água passava sobre o fio quente, ele aquecia instantaneamente.
Os primeiros anos "perigosos" (décadas de 1940 e 1950)

Francisco Canhos e seu primeiro chuveiro.
Os modelos iniciais eram, reconhecidamente, bastante perigosos.Os primeiros chuveiros elétricos eram feitos de cobre cromado ou latão. Se a fiação se desgastasse ou o isolamento falhasse, toda a carcaça metálica externa poderia ficar energizada, causando choques elétricos graves.
Solução de borracha: na década de 1940, o teimoso Francisco atualizou seu projeto introduzindo um diafragma de borracha. Esse projeto permitia que a própria pressão da água empurrasse o diafragma, fechando o circuito elétrico.
A ideia era simplesmente genial: ao fechar a torneira, a pressão da água caía, o diafragma retraía e a energia era cortada instantaneamente, evitando que o aparelho derretesse e se tornasse um dispositivo de pena de morte.
Choque... choque para todo mundo

Tradição, o terror dos banheiros.
O chuveiro elétrico passou de uma invenção local peculiar a um enorme império comercial na década de 1970, liderado principalmente pela marca brasileira Lorenzetti e seus "latões".
Todo mundo levou um choque daquela "merda". Levar um choque ao fechar o registro dos icônicos chuveiros de latão cromado da Lorenzetti (como o famoso modelo Tradição) era muito comum.
Esse fenômeno, que virou uma piada cultural e uma memória nostálgica (e dolorosa) dos brasileiros, tem explicações físicas e estruturais bem claras: acontecia principalmente devido à combinação de uma carcaça de metal condutora com a falta de aterramento elétrico adequado nas instalações antigas, ademais com canos de metal.
O pior dos choques ocorria quando você usava a chave seletora manual no topo para mudar a temperatura de "Inverno" para "Verão" com a água correndo. Isso criava pequenos arcos elétricos (faíscas) internamente e se a vedação interna (o diafragma de borracha) estivesse minimamente desgastada pelo uso, o choque era certo te deixando com o braço torto. Eu sei!
O nascimento de outro símbolo nacional

Como as casas não tinham aterramento e o chuveiro de metal acumulava eletricidade, o corpo humano virava o "fio terra" perfeito. Quando você ficava descalço no chão molhado do boxe, a resistência elétrica do seu corpo era baixíssima, facilitando a passagem da corrente. O que fazer?
Que tal calçar uma legítima sandália de borracha, que adicionava um isolante elétrico de alta resistência entre os seus pés e o chão? A borracha cortava o circuito e impedia que a eletricidade do chuveiro passasse pelo seu corpo em direção à terra. Nascia um novo ícone brasileiro: as Havaianas.
O hábito de tomar banho de Havaianas se tornou um verdadeiro patrimônio cultural da sobrevivência brasileira, tudo graças à física básica.
Hoje, mesmo com os chuveiros modernos de plástico e os sistemas elétricos mais seguros, muita gente ainda não consegue entrar no banho descalça. É o poder de um trauma coletivo transformado em tradição!
A explosão do plástico (década de 1970) e as novas normas

A Lorenzetti apresentou chuveiros feitos inteiramente de termoplásticos de engenharia (plástico injetado) e o delicioso ciclo te torturas diários (quase) acabou. O plástico, tanto no chuveiro quanto nas tubulações, atuou como um isolante natural, reduzindo drasticamente o risco de eletrocussão ao tocar no chuveiro.
O plástico também reduziu drasticamente os custos de produção, tornando um aquecedor de água local tão barato quanto um secador de cabelo. Hoje um chuveiro de R$40 é tão seguro quanto o de R$500 devido a normas rígidas de fabricação.
Durante dois anos fiz parte da comissão que criou a principal norma da ABNT para instalações elétricas de baixa tensão: a NBR 5410. Graças a ela hoje temos a obrigatoriedade do fio terra e do uso de dispositivos como o disjuntor DR (Dispositivo Diferencial Residual), que desliga a energia da casa instantaneamente ao detectar uma fuga mínima de corrente.
Por que os estrangeiros temem o "chuveiro suicida" ou do "capeta
Para um turista da América do Norte ou da Europa, ver fios expostos e presos com fita adesiva saindo de um chuveiro parece uma loucura. O medo se origina em seu funcionamento: elementos de aquecimento de nicromo sem proteção ficam diretamente no jato de água. Como nos filmes de Hollywood, é como se alguém jogasse uma torradeira na banheira com alguém dentro.
No entanto, são perfeitamente seguros se instalados corretamente. Devido ao Efeito Joule, a água não conduz corrente elétrica facilmente porque a eletricidade naturalmente segue o caminho de menor resistência, que é através da bobina de aquecimento metálica, e não do corpo humano.
Um sistema instalado corretamente possui um fio terra (o fio verde) que passa diretamente pela coluna de água para desviar qualquer corrente parasita de forma inofensiva para a terra.
Dizem de forma equivocada que países europeus proíbem formalmente o chuveiro elétrico, mas, o que ocorre na verdade, é que as normas técnicas de segurança elétrica na Europa tornam a instalação desse aparelho inviabízavel ou fora dos padrões construtivos locais.
Por exemplo, a Comissão Eletrotécnica Internacional (IEC) proíbe dispositivos alimentados por alta tensão (como 230V) a uma curta distância de zonas úmidas ou de alcance direto no box do banheiro, mesmo com o uso de disjuntores diferenciais residuais.
Ao contrário dos reservatórios de água convencionais que desperdiçam enormes quantidades de energia para manter 200 litros de água quente o dia todo, o chuveiro elétrico opera com eficiência energética de quase 100%. Ele consome energia (normalmente de 5,5 kW a 7,5 kW) apenas nos segundos exatos em que você está se banhando.
Infelizmente, não existem dados estatísticos oficiais ou históricos isolados que contabilizem exclusivamente as mortes causadas por chuveiros elétricos. Órgãos oficiais de saúde (como o DATASUS) e instituições de segurança elétrica, principalmente a Abracopel (Associação Brasileira de Conscientização para os Perigos da Eletricidade), consolidam os óbitos por categorias mais amplas, como "choques elétricos em ambientes residenciais".
Embora o chuveiro elétrico seja frequentemente citado por peritos como um dos aparelhos eletrodomésticos mais perigosos quando instalado incorretamente,
curiosamente ele divide a estatística residencial matando menos que carregadores de celular, gambiarras w extensões improvisadas e eletrodomésticos de alta potência.
Porque não há distribuição de gás natural no Brasil?

Na verdade há, mas, como tudo no nosso país, é uma zona. Há uns 10 anos grande parte da infraestrutura viária de grandes cidades do sul, como Joinville, foram arrasadas para a instalação de um duto de gás (tem uma "tomada" na frente da minha casa). Dado que o gás é mais barato que a energia elétrica porque este sistema nunca foi fisponibilizado ao público comum?
Segundo informações desencontradas, o sistema de gás natural residencial em Joinville está sendo disponibilizado ao público comum, mas o processo ocorre de forma gradual devido à complexidade
A expansão do gás canalizado residencial em cidades do sul do país enfrenta desafios específicos para se universalizar, pois o foco inicial era na Indústria e no Comércio.
O grande gasoduto construído na última década priorizou indústrias e postos de combustível (GNV), que consomem grandes volumes de energia. A receita gerada por esses grandes consumidores é o que financia a expansão subsequente das tubulações para os bairros residenciais.
Embora o insumo do gás natural possa ser economicamente competitivo, fazer a ligação da rua até o interior de uma casa unifamiliar exige investimentos específicos, como conversão de aparelhos e custos de ramal:.
Para a distribuidora, é muito mais viável conectar um edifício residencial com dezenas de apartamentos de uma só vez (onde os custos são rateados) do que interligar casas individuais isoladas.
Enquanto isso, as concessionárias continuam metendo a faca no consumidor com uma das energias elétricas mais caras do mundo. O custo da energia elétrica residencial no Brasil pesa mais no bolso dos consumidores do que em 77 países quando considerado o poder de compra da população.
A coisa mais triste desta história é que a produção da eletricidade em si representa apenas cerca de 30% do valor total da fatura. O restante do preço é impulsionado por outros fatores estruturais, como tributos elevados, encargos setoriais e subsídios e gatos de luz.
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