![]() | Em 1937, a renomada estilista Elsa Schiaparelli apresentou uma de suas criações mais famosas: um sapato de salto agulha preto com um salto rosa. O que tornou essa peça aparentemente comum tão notável foi o fato de ter sido projetada para ser usada na cabeça de uma mulher. Criado em colaboração com Salvador Dalí, o bizarro chapéu-sapato de Schiaparelli foi celebrado como uma contribuição icônica para o movimento artístico surrealista, sendo ela própria um grande expoente do movimento ao administrar uma casa de moda excêntrica em país de 1930 a 1950. |

A "Revolta do Chapéu de Palha" em Nova Iorque, 1922.
Elsa, que rasgava dinheiro, não levou muito em conta, que os humanos confeccionam chapéus desde o início da civilização. Um simples chapéu de pele de urso da Idade do Bronze é um dos chapéus mais antigos que sobreviveram, descoberto nos Alpes junto à múmia mais antiga da Europa, Ötzi, o Homem do Gelo.
Mas encontramos imagens de chapéus muito mais antigos: alguns acreditam que a "Vênus de Willendorf", uma estatueta paleolítica feita há cerca de 30.000 anos, seja a representação mais antiga conhecida de um chapéu trançado.
Os chapéus não servem apenas para manter a cabeça aquecida ou protegida do sol; eles também podem ser usados para expressar opiniões políticas.
Veja o píleo, um gorro em forma de cone que era um dos acessórios favoritos entre os antigos romanos e gregos. Na República Romana, os píleos eram dados a pessoas anteriormente escravizadas como um sinal público de sua liberdade e passaram a simbolizar os ideais de liberdade pessoal e política.
No século XVIII, os revolucionários americanos e franceses parecem ter confundido o píleo com o barrete frígio, uma carapuça de aparência muito semelhante, adotando o frígio como emblema de sua causa.
Isso se reflete nas representações de Marianne, uma personificação da República Francesa, que frequentemente usa um barrete frígio vermelho.
Os chapéus também têm sido um acessório essencial para projetar status e poder. Na Europa Ocidental do século XV, antes daquela moda medonha das perucas empoadas e sebentas, nada expressava o excesso real como o hennin, um outro gorro de formato cônico.
Popular entre as mulheres da Corte da Borgonha, esses toucados cravejados de joias eram confeccionados com sedas caras e incluíam variações como um modelo de topo plano e o ousado escoffion de cone duplo.
A altura do chapéu era limitada de acordo com a posição social: enquanto as princesas podiam usar hennins de um metro de altura, as nobres se limitavam a estilos muito mais curtos.
E eles não estavam isentos de críticas; os hennins eram frequentemente alvo de clérigos e moralistas que consideravam seus designs chamativos ímpios.
Quase um século depois, Solimão, o Magnífico, o sultão com o reinado mais longo do Império Otomano, ficou conhecido por suas ousadas campanhas militares e por seus adereços de cabeça ainda mais audaciosos.
Seus grandes turbantes em forma de bulbo eram adornados com lantejoulas de diamantes ou penas. Sua coleção também incluía um grande capacete dourado de quatro camadas, embora alguns historiadores suspeitem que ele não tenha sido projetado para ser usado. Na verdade, a coroa foi criada para ostentar seu imenso poder e riqueza aos seus rivais.
Para outros chapéus, a verdadeira história reside em sua fabricação. O elegante chapéu de copa britânico foi introduzido no início do século XIX, quando as perucas empoadas saíram de moda.
Originalmente confeccionado com a pele de animais como castores, os chapeleiros mergulhavam o material em tanques cheios de nitrato de mercúrio tóxico para melhorar a qualidade e a densidade do feltro.
Mas a exposição prolongada ao produto químico em espaços mal ventilados levou muitos chapeleiros a desenvolverem envenenamento por mercúrio, sofrendo sintomas como irritabilidade, fala arrastada, problemas de memória e tremores.
A figura do Chapeleiro Maluco, imortalizada em "Alice no País das Maravilhas", de Lewis Carroll, é uma referência popular a essa situação devastadora.
Felizmente, no final do século XIX, à medida que mais pessoas se conscientizavam dos perigos do mercúrio, muitos países começaram a proibir seu uso.
Ao longo do século seguinte, cartolas, chapéus-coco e gorros caíram em desuso como vestuário do dia a dia, mas um boné prova que chapéus ainda são um grande negócio: o boné de beisebol.
O que começou como uma parte prática do uniforme de beisebol saiu dos campos e chegou às ruas na década de 1960.
O design econômico e ajustável do boné, juntamente com a fácil integração de logotipos, emblemas e marcas registradas, impulsionou sua comercialização em massa.
Nos Estados Unidos, estima-se que os bonés de beisebol, sozinhos, representem cerca de 80% de todo o mercado de chapéus. Mas, quanto ao futuro, quem sabe que tipo de chapéu conquistará nossos corações, e nossas cabeças, em seguida.
Mas uma das histórias mais bizarras dos Estados unidos ocorreu na conhecida "Revolta dos Chapéus", de 1922 em Nova Iorque, quando um grande número de gangues de jovens atacou homens que usavam chapéus de palha (primeira foto) após 15 de setembro, data "limite" não oficial da moda masculina. A violência durou cerca de oito dias, resultando em feridos e prisões devido à quebra e estiramento forçado de chapéus nas ruas.
Tradicionalmente, o uso de chapéus de palha, conhecidos como boaters, era aceito apenas no verão, com o dia 15 de setembro sendo o "Dia do Chapéu de Feltro", na troca para o inverno.
Em suma, era uma brincadeira anual, uma tradição machista e social onde o chapéu de palha deveria ser trocado pelo de feltro após o dia 15 de setembro.
Em 13 de setembro, um dia quente, jovens na área de Mulberry Bend começaram a arrancar e pisar em chapéus de palha de trabalhadores. Nesse primeirodia não havia mais do que 500 pessoas nas ruas, mas no dia 14 a multidão correu para as ruas aos brados de "Bri-gá! Bri-gá! Bri-gá!". E a merda estva feita.
O que começou como uma brincadeira de adolescentes evoluiu para brigas descontroladas de rua, especialmente quando os jovens tentaram atacar trabalhadores portuários, que revidaram socando os moleques até no céu da boca.
Milhares de pessoas se envolveram em tumultos nos dias posteriores, resultando em centenas detenções. A
Biblioteca Pública de Nova Iorque descreveu o evento como uma "orgia de destruição de chapéus".
- "Só sei que fui dar minha camada diária e de repente tudo ficou escuro", disse um senhorzinho ao NYTimes. - "Levei uma murrada no pau-do-nariz, que apaguei na hora."
Depois do episódio, o costume lúdico de forçar a troca de chapéus diminuiu ao longo da década de 1920, à medida que os chapéus de palha saíram de moda e as pessoas pararam de seguir a regra estrita.
Este acontecimento é considerado um exemplo curioso de "policiamento da moda" violento e, segundo relatos, em 1924, uma pessoa chegou a ser morta por se recusar a trocar de chapéu, o que contribuiu para o fim da prática.
Ainda que não pareça, ao longo da história brasileira, os chapéus têm servido como marcadores culturais, regionais e funcionais essenciais, desde os "chapéus de couro" de vaqueiros do Nordeste até campeiros de gaúcho, que são alguns dos estilos culturais mais marcantes.
Entre eles, destacam-se o de cangaceiro, o malandro, no século XX, os chapéus de aba larga com influência europeia.
Um dos episódios mais famoso envolve o icônico chapéu de couro ornamentado dos cangaceiros, especificamente o chapéu de meia-lua de Lampião, que se tornou um símbolo de rebeldia regional e identidade cultural, mas também de crueldade e selvageria por Lampião liderar um bando armado responsável por saques, assassinatos, torturas e estupros.
A história também nos conta do chapéu de malandro, um pequeno chapéu de palha estilo Panamá, frequentemente associado aos boêmios e músicos (malandros) do Rio de Janeiro no início do século XX.
Mas o chapéu polêmico foi mesmo o do símbolo do cangaço. O chapéu usado por Lampião tornou-se icônico, apresentando uma estrela de Davi ou outros símbolos, frequentemente considerados como oferendas de proteção ou significando ascendência "criptojudaica", representando um desafio violento contra o Estado nas décadas de 1920 e 30.
Embora não seja um "chapéu famoso" em si, a morte bizarra de dois técnicos encontrados usando máscaras de chumbo artesanais é um dos incidentes não resolvidos mais notórios do Brasil.
O "Caso das Máscaras de Chumbo", como o episódio ficou conhecido, refere-se aos corpos de dois técnicos em eletrônica, Miguel José Viana e Manoel Pereira da Cruz, encontrados mortos em 20 de agosto de 1966, no Morro do Vintém, em Niterói, RJ.
Eles usavam ternos, capas de chuva e máscaras de chumbo artesanais -para proteção contra radiação), sem sinais de violência, gerando mistério sobre suicídio, ritual místico ou quem sabe... mas esta história vou deixar para contar em outra oportunidade e em outro post.
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