![]() | Se você sobrevoar a faixa de dunas costeiras do Deserto da Namíbia, no sudoeste da África, por centenas de quilômetros você verá quase nada além de areia. Mas, eventualmente, você se deparará com centenas de milhares de círculos cercados por grama rala, como se fosse um mosaico de azulejos no meio do deserto. É quase como se alguém, ou a mãe-natureza, tivesse criado caprichosamente esse padrão elaborado. Mas por quê? A verdade é que ninguém tem a resposta. Por mais de 50 anos, cientistas coçam a cabeça tentando descobrir. |

Provavelmente não é um dragão mítico com hálito venenoso, uma história possivelmente inventada por guias turísticos locais, e definitivamente não são alienígenas como repetem os conspiuranoicos da ufologia!
Mas como um desenho tão grande e preciso pode aparecer sem que ninguém ou alguma coisa esteja no comando? E por que de repente estamos encontrando mais deles em outros lugares?
Cientistas já viram áreas sem grama antes, causadas por cupinzeiros, vazamentos de gás e coisas do tipo. Mas nada como os "círculos de fadas" do Namibe. Eles parecem se formar apenas nesta pequena faixa de deserto que recebe entre 50 e 100 milímetros de chuva por ano.
E ao longo dessa faixa, centenas de milhares de círculos, variando em tamanho de 2 a 35 metros de largura, se alinham em um padrão suspeitosamente organizado, onde cada círculo tem cerca de seis vizinhos.
Pesquisadores começaram a procurar explicações científicas na década de 1970, mas durante as primeiras décadas, não encontraram nada... niente.
Um deles sugeriu que os círculos de fadas eram antigos cupinzeiros erodidos. Outro propôs que fossem causados por plantas venenosas que morreram e liberaram seu veneno no solo. Outros ainda se perguntaram se gases subindo da Terra estariam matando a grama. Mas, com base em todas as evidências coletadas, não havia consenso para nenhuma dessas ideias.
Então, os cientistas eventualmente apresentaram algumas novas teorias e, na década de 2010, a busca por uma explicação se tornou um debate acirrado.
Em 2013, um pesquisador achou que tinha desvendado o mistério. Depois de estudar centenas de "círculos de fadas", ele descobriu uma coisa que todos tinham em comum: cupins-de-areia (Psammotermes allocerus).
Esses minúsculos insetos constroem ninhos subterrâneos elaborados e, à medida que escavam o solo, comem as raízes de gramíneas recém-brotadas. Ao matar plantas que, de outra forma, absorveriam toda a água subterrânea, os cupins criam seu próprio oásis pessoal.
O pesquisador também propôs que eles constantemente se alimentam das raízes da grama na borda do círculo, ampliando lentamente toda a forma ao longo do tempo.
Eventualmente, esses cupins encontram ninhos vizinhos, todos fazendo a mesma coisa.
E em vez de lutarem ou se fundirem em uma megacolônia, eles simplesmente param de se expandir, deixando uma espécie de Zona Desmilitarizada entre eles e limitando o tamanho que cada círculo pode atingir. Então, mistério resolvido, certo?
Bem, outro grupo de pesquisadores não tinha tanta certeza. Principalmente porque eles não encontraram ninhos de cupins quando desenterraram alguns desses círculos. Eles encontraram somente areia.
Além disso, mesmo que houvesse cupins enterrados em algum lugar ali, esse grupo de pesquisadores simplesmente não entendia por que os cupins criariam "círculos de fadas" apenas nessa estreita faixa do Deserto da Namíbia, já que viviam por toda parte.
Então, em vez disso, eles apresentaram uma nova ideia: os "círculos de fadas" surgem naturalmente à medida que as plantas competem por água. As áreas sem vegetação representam os locais onde a competição é maior.
Não há água suficiente para todos, e as gramíneas morrem. Mas onde as gramíneas morrem, a água pode começar a se acumular no subsolo sem que as raízes a absorvam.
Ou seja, eventualmente, um novo reservatório pode se formar e talvez até atrair criaturas como cupins, que também precisam de uma certa quantidade de água para sobreviver.
Essa hipótese explica como é possível ter um campo inteiro de "círculos de fadas" uniformemente espaçados pelo deserto, bem como por que os vemos apenas nessa estreita faixa de deserto: há a quantidade certa de chuva para formar os reservatórios e forçar as gramíneas a competir. Mas também tem seus problemas.
Por exemplo, cientistas que defendem a teoria dos cupins apontaram que as gramíneas parecem morrer em épocas em que o solo está relativamente úmido, e não quando está seco e a competição por água seria maior. Então, qual ideia você prefere? Cupins ou plantas?
E então, em 2017, uma equipe se aproximou da controvérsia pensando:
- "E se todo mundo estiver meio certo?" Primeiro, a equipe realizou algumas simulações de interações entre colônias de cupins. O que acontece quando dois ninhos em expansão finalmente invadem o território um do outro?
De acordo com essas simulações, a colônia maior geralmente vence e engole a menor. Mas quando duas colônias têm aproximadamente o mesmo tamanho, elas podem resistir indefinidamente e criar a já mencionada Zona Desmilitarizada.
O resultado final são círculos que se parecem muito com "círculos de fadas" da vida real, com grama alta crescendo nas zonas "não vou te tocar", onde nenhum cupim está forrageando.
Embora isso certamente pareça uma vitória para a Equipe Cupim, o grupo também descobriu que, para realmente reproduzir o padrão de grama da Namíbia, é preciso levar em conta a competição por água.
Isso porque todos os tufos de grama entre os "círculos de fadas" também se parecem muito com o que veem em uma simulação de plantas competindo por água. Infelizmente, a pesquisa de 2017 ainda não resolveu a questão.
Pelo menos até 2023, a equipe dos cupins e a equipe da competição por água ainda estavam discutindo, publicando artigos contraditórios, ainda tentando encerrar o debate de uma vez por todas.
Enquanto isso, um novo conjunto de "círculos de fadas" entrou na disputa, a 10.000 quilômetros de distância. Em 2016, pesquisadores relataram o que pareciam ser "círculos de fadas" no interior da Austrália.
E apesar de se formarem em um continente completamente diferente, elas são quase idênticas às da Namíbia. De repente, pareceu que os "círculos de fadas" talvez não fossem tão raros e especiais assim.
Então, em 2023, um levantamento global encontrou centenas de padrões semelhantes a "círculos de fadas", abrangendo a África, a Ásia e a Austrália. Mas, embora todos pareçam surgir em locais secos, eles têm climas e ecossistemas muito diferentes. Isso sugere que não há uma única causa para todos eles.
Portanto, o mistério dos "círculos de fadas" talvez esteja ainda menos resolvido do que nunca.
Mas eis o que sabemos: seja qual for a causa, provavelmente é uma estratégia de sobrevivência: alguma forma de plantas e animais criarem um mini ecossistema estável em meio a um muito mais hostil. E essas pequenas ações, cupins devorando raízes, plantas competindo por água, se repetem por toda uma paisagem.
No fim, sua missão simples cria um padrão gigantesco que quase parece uma obra de arte deliberada.
Então, enquanto os cientistas discutem entre si, resta-nos apenas contemplar a beleza da natureza e pensar em que tipo de padrão desenharíamos se fossemos um dragão com hálito venenoso... ou um alienígena.
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