![]() | Isso sempre acontece quando você vai um show musical de seu cantor favorito: no momento que ele canta seu maior sucesso, aquele que os fãs sabem de trás para frente, a multidão se alinha em canta indescritivelmente afinada. Como isso acontece se levarmos em conta que até 15% das pessoas tem séria dificuldade de percepção tonal e são naturalmente desafinadas mesmo que não percebam? Há que se asseverar que o canto pode ser treinado e aprendido por até 97%, restando apenas 3% de amúsios ou surdos tonais. |

Os amúsios são indivíduos que sofrem de uma condição neurológica caracterizada pela incapacidade de processar, reconhecer ou reproduzir música corretamente. Esta falha afeta a percepção de melodias, intervalos musicais e ritmos, sem necessariamente afetar a audição geral, a inteligência ou a fala.
O fenômeno de multidões cantando afinadas, com destaque para a paixão e intensidade das plateias brasileiras, é uma mistura de estatística, comportamento coletivo e resposta fisiológica.
A Média Estatística (efeito coral) ocorre quando centenas ou milhares de pessoas cantam juntas. As variações individuais, com alguns cantando ligeiramente mais agudo, outros mais grave, se anulam.
O cérebro do ouvinte faz uma "média" dessas frequências, resultando em um som coletivo que soa afinado, mesmo que individualmente as pessoas não sejam cantoras treinadas.
Quem não se sente seguro em cantar desafinado, sobretudo aqueles que já ouviram a própria voz gravada e não gostaram, tende a cantar mais baixo ou "seguir" a voz da maioria, diminuindo o destaque das vozes desafinadas.
As pessoas não gostam muito quando eu falo isso: "o brasileiro é desafinado que dói", devido a falta de aprendizado na infância e nossas músicas populares têm melodias simples, muitas vezes na escala pentatônica, que são mais fáceis de cantar para o cérebro humano, independentemente da formação musical.
Por outro lado, os maiores cantores do mundo, os filipinos, desconhecem a paixão que o brasileiro tem com a música, seja sertaneja, rock ou nosso hino.
Ademais, a multidão atua como uma âncora de afinação. Se a maioria canta no tom, os desafinados "inconscientemente" se ajustam ao uníssono ou a uma oitava acima/abaixo, mantendo a harmonia.
A história da paixão brasileira pela música é séria. Estudos científicos, como um sueco, conduzido por Bjorn Vickhoff, mostraram que, quando as pessoas cantam juntas em uníssono, as batidas do coração se sincronizam e aumentam ou diminuem na mesma frequência.
Isso não é mágico, mas biológico. Quando as pessoas cantam juntas, elas coordenam sua respiração inconscientemente. O ritmo cardíaco varia de acordo com a respiração: ele acelera ao inalar e desacelera ao expirar (cantar).
O canto em grupo também regula a respiração e pode estimular a circulação, muitas vezes produzindo um efeito relaxante e emocionante no grupo.
A cultura brasileira enfatiza a participação coletiva, através de rodas de samba, hinos de torcidas organizadas, louvores, aumentando a cumplicidade e a sincronia nas vozes. Esse entrosamento coletivo faz com que a multidão atue como um único instrumento afinado.
Com efeito, esta sincronicidade musical faz até o brasileiro "falar" inglês. A plateia parece cantar corretamente músicas em idiomas que não domina devido a um fenômeno de imitação fonética, repetição, emoção e ressonância melódica.
Mesmo sem entender o significado literal das palavras, o cérebro humano consegue processar e reproduzir sons, ritmos e entonações com alta precisão, tratando a voz do cantor como um "instrumento".
Quando ouvimos uma música muitas vezes antes do show, memorizamos o som das palavras (fonemas) e não a ortografia. A pessoa repete a sonoridade "ouvida", não o que está escrito, como demonstrado pelo "rei do embromation Whindersson Nunes.
A verdade é que a melodia e a harmonia muitas vezes comunicam mais emoção do que a letra. As trilhas sonoras estão ai para provar isso. O público se conecta com a intenção da música, a energia e o tom emocional, por exemplo músicas românticas são lentas, músicas de ação são mais rápidas.
Em um show, a voz do cantor estrangeiro funciona para a plateia como uma "melodia exótica" ou mais um instrumento musical, facilitando o acompanhamento por cantarolagem ou imitação dos sons.
A experiência ao vivo estimula o cérebro, com pesquisas indicando que a música tocada ao vivo provoca maior atividade na amígdala do que a gravada, potencializando a imersão e a vontade de cantar junto.
Lógico, muitos fãs de bandas estrangeiras já estão familiarizados com o idioma, mesmo sem serem fluentes, devido ao consumo de entrevistas e letras de músicas que seguem padrões universais.
Além disso, a sensação de pertencimento e o contágio social, ao cantar junto com milhares de outras pessoas, ajudam a mascarar eventuais erros de pronúncia individuais, criando a percepção de que todos sabem a letra.
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