![]() | Quando visitei Jaipur, capital do Rajastão indiano, em 2018, fiquei em total descrença, quando vi a cidade de seus arredores, ela parece feia, suja e coberta de pó arrastado do implacável deserto de Thar. Mas quando está próximo ela é simplesmente linda. Ela é conhecida como "Cidade Rosa" já que a maioria dos imóveis é pintada de carmesim, que se confunde com o terreno vermelho, uma tradição profundamente enraizada em uma combinação de controle climático prático, disponibilidade de materiais locais e simbolismo cultural e religioso profundo. |

Não muito distante dali, os viajantes que percorrem a paisagem desolada do Thar, também conhecido como o "Grande Deserto da Índia" logo sabem quando chegam ao seu destino. É como se o céu tivesse desabado sobre a terra e tudo se tornou de uma única cor: azul. Jodhpur revela-se como um tesouro azul no deserto.

Em regiões quentes como o Rajastão, cores claras como o branco ou tons específicos de azul -criados com sulfato de cobre e cal- são usadas para refletir a luz solar intensa, mantendo os interiores significativamente mais frescos.

Ademais, em locais como Jodhpur, o pigmento azul era historicamente adicionado à cal não apenas pela cor, mas porque a mistura de sulfato de cobre repele cupins e insetos, evitando que danifiquem as paredes.
Historicamente, os brâmanes pintavam suas casas de azul para simbolizar sua casta, mas posteriormente essa cor se tornou uma identidade comum para toda a cidade.

As paletas de cores regionais são frequentemente ditadas pelos materiais disponíveis localmente. Por exemplo, o tom dourado de Jaisalmer, a "Cidade Douradam, também no Rajastão, deriva do arenito amarelo local, enquanto as casas tradicionais de Kerala utilizam cal branca e telhas de terracota.
A cor rosada de Jaipur teve origem com uma homenagem feita pelo marajá local com motivo da visita do Príncipe de Gales que ficou hospedado no então espetacular recém-construído Palácio dos Ventos com suas 953 janelas. Desde então todos os imóveis são mantidos nesta cor por força de lei. A cor rosa terracota simboliza a hospitalidade.

A argila avermelhada (geru) era usada em Bengala para simbolizar prosperidade e proteção, enquanto o amarelo-açafrão era usado para marcar espaços sagrados e limiares.
Pergunte a um morador local de Jodhpur por que todas as casas são pintadas dessa cor e a resposta usual será que ela mantém os interiores frescos e afasta os mosquitos e segundo a história isto é correto.

Alguns religiosos dizem que também é provável que o azul onipresente de Jodhpur seja uma demonstração exuberante da resiliência humana diante do árido deserto de Thar. Contra o cenário desolador da terra marrom ressequida, a cidade azul se destaca magnificamente.
Você pode pensar que uma inspeção mais detalhada diminuiria o impacto da cor, mas um olhar para muitas das ruas de Jodhpur imediatamente desfaz essa ideia. A palavra "implacável" vem imediatamente à mente.

Os confortos da vida moderna convivem lado a lado com evidências de que muitas pessoas ainda vivem com a mesma simplicidade de sempre. Embora Jodhpur tenha sido fundada em 1459, o estado do Rajastão é significativo na história da Índia, pois formou a base da Civilização do Vale do Indo, considerada uma das civilizações humanas mais antigas da Terra.
Talvez a cor tenha um efeito calmante, mas humanos e animais parecem coexistir pacificamente lado a lado em Jodhpur. Mesmo entre os animais, amizades entre espécies diferentes não são incomuns.

Erguendo-se acima da cidade como um pássaro gigante lamentando seus ovos azuis quebrados, está o imponente Forte Mehrangarh, cujas fundações foram construídas em 1459, ano que foi marcado pela conclusão do famoso Mapa de Fra Mauro, um marco geográfico medieval que detalhava o mundo conhecido (Europa, Ásia e África) antes das grandes navegações transoceânicas.

O forte foi encomendado por Rao Jodha, marajá de Rathore, que decidiu transferir sua capital para lá. Uma lenda conta que, para que o forte fosse construído, o único habitante humano, um eremita, após anos teve que ser expulso à força, cujo eremitério se conformou a primeira casa-prego do mundo.

- "Que sua cidadela sofra sempre com a escassez de água!", amaldiçoou o ermitão. Embora o governante tenha eventualmente apaziguado o eremita construindo um templo para ele, a cidade ainda é atingida pela seca a cada quatro anos, aproximadamente.
Uma lenda muito mais sombria é a de Rajiya Bhambi. O marajá Jodha prometeu que sua família seria amparada eternamente se ele fizesse um favor: ser enterrado vivo sobre a pedra fundamental dos alicerces da fortaleza. Rajiya concordou.
Até hoje, seus descendentes ainda vivem em uma casa azul no terreno que receberam de presente do governante, conhecido como o jardim de Rajiya.
A cor de Jodhpur conta a história -e a transforma em lenda- de um povo que moldou um paraíso no coração do calor e das tempestades de areia do Rajastão.
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