![]() | Independentemente da sua profissão, setor ou número de pessoas que você gerencia, suas tarefas dificilmente serão tão complexas quanto a que o governo indiano acaba de empreender: recensear 1,4 bilhão de pessoas, quase 7 vezes a população do Brasil. A missão é tão monumental que exigirá mais de três milhões de técnicos, uma verdadeira legião de recenseadores, que viajarão para aproximadamente 640 mil aldeias e quase 10 mil cidades. A tarefa é desafiadora, mas é fundamental se o país desejar um "retrato" atualizado, que lhe permita tomar decisões adequadas à sua economia e população. |

A Índia não é um país comum. Em 2023, o Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA) estimou que ela se tornaria a nação mais populosa do planeta, ultrapassando a China. Segundo seus cálculos, naquele mesmo ano o (novo) gigante asiático ultrapassou em muito os 1,4 bilhão de habitantes, quase três milhões a mais que o país liderado por Xi Jinping.
Nova Délhi agora pretende ir além e compreender em detalhes como essa população, que é 3,1 vezes maior que a de toda a União Europeia, está distribuída. Como? Criando o que alguns analistas acreditam ser o censo mais ambicioso do gênero.
Contar 1,4 bilhão de pessoas é assustador, mas esse é apenas um dos muitos números que dão uma ideia da magnitude da tarefa. Há outros igualmente impressionantes. Por exemplo, há alguns dias, o The New York Times noticiou que a realização do censo exigirá um investimento de cerca de US$ 1,2 bilhão e a mobilização de mais de três milhões de técnicos. A grande maioria será composta por funcionários públicos e professores.
Essa enorme legião de censores terá que vasculhar o país mais populoso do mundo de norte a sul. Para ser mais preciso, eles cobrirão 36 estados e territórios, 7.000 subdistritos, mais de 9.700 cidades e 640.000 aldeias.
E como farão isso? Essa é a pergunta de um milhão de dólares. Ou melhor, a pergunta de 1,4 bilhão de pessoas. Sabe-se que o governo pretende inicialmente dividir o trabalho em duas fases . A primeira começou este mês e vai até setembro, seis meses durante os quais os técnicos irão compilar uma lista completa de casas e moradores. Sua tarefa será registrar o tamanho e as características das residências e se, por exemplo, elas têm acesso a serviços como internet ou saneamento básico.
A segunda fase começará em 2027 e terá como foco os indivíduos. Nessa altura, os recenseadores coletarão dados sobre cada pessoa, documentando nomes, sexos, idades, estado civil, níveis de escolaridade e renda, religião e outras características, como se migraram ou se têm alguma deficiência.
A tarefa é enorme, mas as autoridades terão uma nova ferramenta à sua disposição: um aplicativo que facilitará muito o seu trabalho. Ele não só eliminará a necessidade de lidar com formulários impressos em papel, como também permitirá que os próprios cidadãos o utilizem para enviar seus dados. Os recenseadores, então, precisarão apenas verificá-los.
Isso é algo novo? Não. Este não é (de forma alguma) o primeiro censo realizado pelas autoridades indianas. O país atualiza seus registros a cada 10 anos desde 1881, quando ainda estava sob domínio britânico. Anteriormente, já havia tentado um censo usando um questionário para coletar dados básicos.
Desde então, o censo evoluiu, adicionando e removendo itens de acordo com as preocupações de cada época. Por exemplo, em 1901, os técnicos adicionaram uma seção que buscava esclarecer o nível de proficiência em inglês no país.
Essa tradição, mantida desde 1881, foi interrompida em 2021, quando a covid-19 impediu a atualização do registro de 2011. Desde então, a tarefa vem sendo adiada por diversos motivos até abril de 2026.
O fato dos técnicos já terem começado a coletar dados não significa que saberemos suas conclusões tão cedo. A CNN observa que a contagem final só será divulgada no próximo ano. Somente na primeira fase, os participantes do censo terão que responder a pouco mais de 30 perguntas.
Por que isso é importante? Não é coincidência que o governo indiano esteja disposto a dedicar recursos, mão de obra e milhões de dólares para aprimorar seu censo. O Estado precisa de um retrato atualizado para questões fundamentais, como a elaboração de políticas e a oferta de serviços e programas específicos voltados para o emprego ou para as áreas rurais. Atualmente, o censo mais detalhado disponível tem 15 anos, o que obrigou as autoridades a recorrerem à amostragem.
- "Este censo é crucial: é o retrato definitivo da Índia, capturando tudo, desde casta e religião até empregos, educação e serviços. Oferece a visão mais completa de como as pessoas vivem", explicou Ashwini Deshpande, da Universidade Ashoka, à BBC.
Seu comentário destaca alguns pontos-chave: o censo não apenas atualizará o mapa rural, urbano e periurbano, mas também ajudará a determinar a representação parlamentar para cada território e fornecerá informações sobre o sistema de castas, um dos aspectos mais controversos do estudo.
A Índia proibiu a discriminação por casta na Constituição de 1950, e hoje implementa políticas de ações afirmativas, incluindo cotas em universidades, empregos públicos e no parlamento para dalits ("intocáveis") e castas registradas. Mas isso é "história para inglês ver", pois o sistema xenofóbico persiste socialmente, especialmente em áreas rurais, e a violência contra essas comunidades permanece alta.
Em 2019, eu tirei a seguinte foto de um casamento em Habra, nos arredores de Calcutá. Aquela cena da noiva indiana (neste caso à direita) dançando e cantando feliz é, na verdade, um clichê de Bollywood.

O motivo de noivas indianas raramente demonstrarem felicidade no dia de seu casamento é porque não têm o que demonstrar.
Tradicionalmente é a noiva que deixa a casa dos pais para ir morar com os sogros e o marido. Na cultura indiana, a menina tem que deixar tudo e todos depois do casamento. Sem contar que a grande maioria dos casamentos são arranjados com altos dotes. É quase como um negócio.
A noiva indiana é a empregada doméstica perfeita, envolta em homenagem à família. Se ela deixar de cumprir seus deveres conjugais, certamente será corrigida por meio de abuso físico ou verbal.
A sociedade indiana considera o dever legítimo da esposa produzir um herdeiro homem. Essas mulheres não apenas não têm o direito de planejar sua própria gravidez, mas também perdem o controle sobre sua interrupção, se for uma menina.
Os índices de violência doméstica são alarmantes no interior do país, porque as mulheres são tratadas como marcadores da honra familiar e governadas pelas normas do biradiri. Como norma social, a violência é aceitável como mecanismo corretivo contra mulheres que erram. Quem ficaria feliz sabendo que este é o futuro que lhe aguarda?
A Índia é um país de contrastes extremos, onde a densidade populacional altíssima convive com uma beleza cênica e cultural inigualável.
Muito se fala sobre a falta de higiene indiana, mas isso não corresponde a total realidade do povo indiano, pois existe uma forte distinção entre a higiene pessoal/doméstica e o ambiente público.
A Índia enfrenta uma crise severa de gestão de resíduos, impulsionada pela rápida urbanização e consumo. Cerca de 62 milhões de toneladas de lixo são geradas anualmente, com menos de um quarto sendo processado, resultando em gigantescas montanhas de lixo a céu aberto, poluição plástica (5,8 milhões de toneladas anuais) e riscos à saúde pública.
Culturalmente, valoriza-se muito a limpeza pessoal e a pureza dentro de casa. É prática comum tomar banho antes de entrar na cozinha ou logo após usar o banheiro.
O uso de água (chuveirinho ou balde) para higiene pessoal é a norma, substituindo o papel higiênico. A higiene pessoal inclui comer com a mão direita, enquanto a esquerda é reservada para higiene pessoal após o uso do banheiro.
No entanto, o ambiente público (ruas, locais públicos) enfrenta sérios desafios de saneamento, com relatos de alto contraste entre a limpeza interna das residências e a sujeira nas ruas.
Embora existam desafios significativos de infraestrutura, a ideia de que a higiene é uma prioridade rigorosa dentro de casa é um aspecto marcante da cultura indiana. Posso dizer que eu "lamberia o piso de uma" casa para dentro, mas tenho lá minhas hesitações em comer em um bom restaurante público.
Para entender essas características distintas eu escolhi a dedo documentários e vlogs de viagem, que exploram tanto o caos vibrante quanto a espiritualidade e a paisagem indiana.
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