![]() | Você está no meio do oceano, aproveitando as férias de uma vida em uma enorme cidade flutuante. Você entra no banheiro da sua cabine, aperta o botão da privada e vupt!, ouve uma sucção ensurdecedora, parecida com o barulho de um motor a jato decolando. Mas você já parou para pensar para onde exatamente tudo isso vai? Não se pode simplesmente despejar esgoto bruto diretamente no oceano e, com mais de 6.000 pessoas a bordo comendo e bebendo todos os dias, o volume de resíduos é impressionante. |

Para entender a descarga de um navio de cruzeiro, primeiro precisamos esquecer tudo o que sabemos sobre a privada de casa. Em casa, as privadas dependem da gravidade e de uma bacia cheia de água para empurrar os dejetos pelos canos; mas, em um navio em constante movimento, um sistema hidráulico tradicional baseado na gravidade seria muito menos prático, e a água da bacia balançaria violentamente em mares agitados.
Em vez disso, os navios de cruzeiro utilizam um sistema de vácuo pneumático. Quando você aperta o botão, uma válvula se abre e a diferença de pressão puxa instantaneamente os dejetos pelos canos em altíssima velocidade.
Esse sistema potente e barulhento é extremamente eficiente. Uma privada doméstica moderna geralmente usa cerca de 6 litros de água por descarga. Já a privada de um navio de cruzeiro usa, muitas vezes, apenas um quarto ou um terço (no máximo 2 litros).
Esse vácuo de alta velocidade puxa os dejetos por quilômetros de tubulações ocultas, levando-os até o sistema de tratamento de águas residuais, localizado nas profundezas da embarcação. Então, tudo chega ao interior do navio. E agora?
Os dejetos entram em uma maravilha da engenharia moderna conhecida como sistema avançado de purificação de águas residuais, análoga as Estações de Tratamento de Efluentes (ETEs) industriais. Trata-se, essencialmente, de uma enorme estação de tratamento de água de alta tecnologia compactada dentro do casco do navio.
Primeiro, o sistema separa os resíduos sólidos pesados do líquido. O líquido segue então para um biorreator, uma câmara enorme repleta de bactérias naturais famintas. Esses microrganismos são os heróis anônimos do navio. Eles se alimentam dos resíduos orgânicos, decompondo-os de maneira natural e segura.
Depois que as bactérias terminam seu trabalho, a água é forçada a passar por filtros microscópicos para remover quaisquer partículas restantes. Mas ainda não está totalmente limpa.
Por fim, a água passa sob potentes luzes ultravioleta. Esses raios UV desinfetam a água, inativando quaisquer bactérias, vírus e outros microrganismos remanescentes.
Ao final desse intenso processo de purificação, aquela água suja do vaso sanitário foi completamente transformada. Na verdade, muitos navios de cruzeiro modernos produzem águas residuais tratadas que atendem a padrões extremamente elevados, podendo ser mais limpas do que as águas residuais tratadas descartadas por algumas comunidades costeiras.
Mas isso não significa que ela se torne água potável, ainda que muitos engenheiros não se furtavam a tomar um gole da água nos anos 80 para provar a eficácia da ETE. Eu sei!
Regulamentações internacionais controlam rigorosamente onde e quando as águas residuais tratadas podem ser descartadas. As regras exatas dependem do tipo de água residual, do sistema de tratamento e das águas em que o navio está navegando.
E quanto aos sólidos separados logo no início? Eles geralmente passam por um processo de desidratação e são incinerados a bordo em sistemas aprovados ou armazenados com segurança para descarte quando o navio chegar a um porto, dependendo da embarcação e das regulamentações locais.
É incrível pensar que algo tão simples como dar descarga exige quilômetros de tubulações a vácuo, bactérias famintas e luz ultravioleta potente, tudo trabalhando em conjunto e silenciosamente sob seus pés enquanto você aproveita suas férias.
Na próxima vez que ouvir aquele barulho de turbina de avião ao dar a descarga, você saberá exatamente a jornada incrível que ela está prestes a percorrer.
Quando criança, viajando de trem pela Mantiqueira entre as cidades de Passa Quatro (MG) e Cruzeiro (SP), fui ao banheiro e vi, um pouco assustado, que o vaso do banheiro dava direto para os dormentes e trilhos abaixo.
Os vasos sanitários de trens com descarga direta na linha férrea, conhecidos como banheiros de queda livre, deixaram de ser utilizados no Brasil de forma gradual entre os anos 1990 e o início dos anos 2000.
Essa mudança ocorreu por dois motivos principais: o fim da maioria das linhas de passageiros de longa distância no país e a modernização tecnológica dos trens turísticos remanescentes e das locomotivas de carga.
O sistema de queda livre gerou "causos" e mitos urbanos bem específicos no folclore ferroviário brasileiro. Embora não existisse uma assombração folclórica oficial ligada a isso, o imaginário popular criou mitos e histórias que os passageiros e trabalhadores repetiam,
Muitos passageiros juravam que, devido ao vácuo e à alta velocidade do trem, se uma pessoa, especialmente uma criança, ficasse muito tempo sentada, corria o risco de ser "sugada" pelo buraco ou sofrer ferimentos graves causados por pedras que ricocheteavam dos trilhos para dentro do vaso. Os pais, inclusive, acompanhavam os filhos ao banheiro.
O buraco era pequeno e protegido pelo desenho do cano, sendo impossível sugar alguém, mas o barulho do vento batendo ali embaixo da bunda assustava e alimentava o mito entre os mais novos.
Nas cidades e vilas do interior, cortadas pelos trilhos, corria a lenda urbana de que as roupas estendidas nos varais perto da linha férrea ou as pessoas que caminhavam nas proximidades podiam ser atingidas por uma "chuva de merda" invisível se o trem passasse rápido demais.
O vento de fato pulverizava os líquidos, mas os dejetos sólidos caíam direto no leito da via (na brita e nos dormentes). O maior risco real era para os operários de manutenção da via, que precisavam se esquivar quando o trem passava.
Para evitar que os dejetos caíssem no meio das estações e gerassem mau cheiro, as cabines traziam uma placa com o aviso clássico: "Favor não usar o sanitário com o trem parado na estação!"
Com a privatização da Rede Ferroviária Federal (RFFSA) e da Fepasa no fim da década de 1990, o transporte de passageiros de longa distância foi quase totalmente extinto no Brasil. A grande maioria dos vagões antigos que possuíam esse sistema foi simplesmente aposentada.
Os poucos trens de passageiros que restaram na Mantiqueira ou as frotas de carga que cortam a região passaram por modernizações. Os banheiros antigos foram lacrados ou adaptados com tanques de retenção biológica e banheiros químicos a vácuo (semelhantes aos de navios ou aviões), onde os resíduos são armazenados e aspirados por caminhões limpa-fossas nos terminais.
A legislação ambiental brasileira passou a proibir o descarte de resíduos humanos a céu aberto nas vias, por contaminar o solo, os dormentes e colocar em risco os operários da manutenção que trabalhavam nos trilhos.
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