![]() | Imagine que legal se pudéssemos controlar o clima. Você poderia garantir um dia de sol para um piquenique ou fazer chover caso o seu jardim estivesse parecendo um pouco seco. Mas nós, humanos, não conseguimos fazer isso. Porque não somos pinguins... não o arqui inimigo do Batman, senão aquela ave desajeitada de fraque. O fato da Antártica ter dias ensolarados ou céus nublados pode estar muito ligado aos seus habitantes mais bem-vestidos. Veja como os pinguins, e não estou brincando, podem controlar o clima. |

As colônias de pinguins na Antártica podem ficar enormes. Muitas delas têm dezenas ou até centenas de milhares de casais reprodutores. E, com tantos pinguins, há muito cocô de pinguim. Todo esse cocô libera um gás chamado amônia.
Você talvez a conheça como ingrediente de fertilizantes de ureia para plantas. Ou em produtos usados para limpar o banheiro. Ou na urina!
Na verdade, o cocô de aves marinhas é uma fonte tão rica de amônia que, no século XIX, as pessoas mineravam ilhas inteiras em busca de guano, depósitos de fezes de aves para enriquecer suas plantações.
Não era exatamente um trabalho glamoroso. Mas, em lugares como a Antártica, onde ninguém vai lá mexer nas fezes dos pinguins, a amônia acaba indo para a atmosfera e pode se combinar com outras substâncias químicas presentes no ar, ajudando a formar os núcleos iniciais das nuvens.
As nuvens são compostas principalmente por gotículas de água líquida. Para que as nuvens se formem, o vapor de água gasoso na atmosfera precisa de algo em que se condensar para virar essas gotículas.
Esse "algo" pode ser um pouco de poeira ou fuligem de uma fogueira. Mas também pode vir de reações químicas naturais que ocorrem na atmosfera.
Às vezes, quando gases diferentes se encontram, eles podem se unir e formar uma minúscula partícula sólida ou líquida. No início, essas pequenas partículas não são grandes o suficiente para começar a formar nuvens por conta própria. Mas, com o tempo, elas podem crescer e se tornar partículas maiores.
Elas nem precisam ficar tão grandes assim. Quando as partículas atingem algumas dezenas de nanômetros de diâmetro, elas se tornam núcleos de condensação de nuvens.São partículas grandes o bastante para que o vapor de água comece a se condensar nelas.

Só para dar um contexto: essas partículas precisam ser apenas cerca de mil vezes menores do que a espessura de um fio de cabelo humano. Por que será que sempre usamos a espessura de um fio de cabelo humano para fazer comparações?
Acredita-se que, na Antártida, muitas das partículas que acabam se tornando núcleos de condensação de nuvens começam como aglomerados contendo ácido sulfúrico e amônia. Elas também podem conter substâncias químicas chamadas aminas, que são relacionadas à amônia.
O ácido sulfúrico provém principalmente de microrganismos no oceano. O fitoplâncton emite uma substância chamada sulfeto de dimetila, que reage e se transforma em ácido sulfúrico. E a amônia vem, em grande parte, das fezes de pinguim.
Normalmente, haveria outros compostos na atmosfera formando essas minúsculas partículas iniciais também. Poderiam ser coisas como matéria vegetal em decomposição ou emissões industriais. Mas, na verdade, não há muito disso na Antártida.
Afinal, é o maior deserto do mundo. Portanto, a amônia do guano de pinguim acaba desempenhando um papel importante na formação de nuvens.
Já sabemos disso há algum tempo. Estudos associam essa formação de partículas à amônia proveniente de colônias de pinguins desde 1998. E pesquisas mais recentes apresentaram uma ideia de como exatamente essas partículas se formam.
Acontece que essas partículas derivadas de fezes podem afetar a cobertura de nuvens em grande parte da Antártida e, talvez, ajudar a manter todo o continente frio.

Em um estudo de 2025, uma equipe de pesquisadores instalou equipamentos para monitorar os níveis de amônia em uma estação de pesquisa na Antártida, próxima a duas colônias de pinguins. Eles constataram que as concentrações de amônia no ar eram mais elevadas quando o vento soprava na direção das colônias de pinguins.
Além disso, observaram a formação de novas partículas apenas quando o vento vinha dessa mesma direção. Junto com a amônia, a equipe também detectou uma substância química chamada dimetilamina.
Mesmo pequenas quantidades de dimetilamina podem acelerar a formação dessas partículas de amônia e ácido sulfúrico. E, para a sorte dos cientistas, não havia muita dimetilamina presente, pois ela tem cheiro de peixe podre com amônia.
Os cientistas não conseguiram confirmar a origem da dimetilamina. Mas, assim como aconteceu com a amônia, eles detectaram mais quando os ventos sopravam na direção de onde estavam os pinguins.
Isso não é totalmente surpreendente. O guano de pinguim pode produzir aminas; portanto, faz sentido que a dimetilamina tenha origem nas fezes dos pinguins, tal como a amônia.
Assim, uma grande quantidade de fezes de pinguim significa muitas dessas pequenas partículas que podem contribuir para a formação de nuvens.
Isso continuou ocorrendo mesmo depois que os pinguins deixaram o local da colônia para sua migração anual. Os níveis de amônia permaneceram elevados por mais de um mês após a partida dos pinguins.
Um estudo separado, de 2024, também sugere que os níveis de amônia no ar provenientes do guano de pinguim podem disparar quando as temperaturas oscilam acima e abaixo do ponto de congelamento ao longo do dia.
A amônia em si não permanece muito tempo na atmosfera. Mas as partículas que ela forma ao reagir com o ácido sulfúrico, sim. Essas partículas podem ser levadas pelo vento para outras partes do continente.
Portanto, as fezes dos pinguins podem afetar a cobertura de nuvens bem longe de seus habitats. Uma maior cobertura de nuvens poderia ajudar a manter a Antártida resfriada diante da crise climática, mas precisamos de mais pesquisas para entender exatamente como isso ocorrerá.
As nuvens refletem parte da luz e do calor do Sol de volta para o espaço, o que pode ajudar a manter as temperaturas baixas. Por outro lado, as nuvens também retêm parte do calor que atravessa a atmosfera, impedindo que ele escape.
Para complicar ainda mais a situação, a crise climática já está causando a redução de algumas populações de pinguins. Menos pinguins significam menos fezes, o que, por sua vez, pode resultar em menos nuvens.
Embora ainda não compreendamos totalmente esses efeitos, esse é um argumento forte a favor da proteção das populações de pinguins. Eles podem acabar protegendo todo um continente!
Parece, então, que para realmente entender e lidar com as mudanças climáticas na Antártida, precisaremos da ajuda desses bichinhos engraçados de "fraque", que adoram sapatear e também surfar.
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