![]() | A história da gonorreia, uma Infecção Doença Sexualmente Transmissível (IST) endêmica, acompanha a humanidade há milênios. No entanto, o maior pico de casos registrados na história moderna ocorreu por volta de 1980, impulsionado por mudanças comportamentais nas décadas anteriores. O pico de gonorreia nos EUA não aconteceu por acaso; ele foi o resultado epidemiológico direto das transformações sociais das duas décadas anteriores: a revolução sexual começou na década de 1960 e ganhou força nos anos 1970. Dois fatores biológicos e tecnológicos impulsionaram isso: o "efeito gelay" do amor livre e dos contraceptivos. |

A pílula anticoncepcional, lançada nos anos 60, separou o sexo da reprodução. Isso gerou uma sensação de segurança inédita. Como a gravidez indesejada era o maior medo da época, as barreiras físicas caíram.
Com a pílula protegendo contra a gravidez, as pessoas deixaram de usar camisinhas. O preservativo era visto como algo desconfortável e desnecessário, já que a penicilina (descoberta décadas antes) parecia ter "vencido" as infecções bacterianas. O resultado foi uma facilitação sem precedentes para a transmissão da bactéria da gonorreia, na geração "amor livre".
O pico de 1980 também foi impulsionado pela matemática demográfica. A geração dos baby boomers (nascidos no pós-Segunda Guerra Mundial, entre 1946 e 1964) atingiu o auge da sua idade reprodutiva e de maior atividade sexual (entre 15 e 24 anos) justamente no final dos anos 70 e início dos 80.
Havia, proporcionalmente, muito mais jovens no mundo fazendo sexo do que a somatória de qualquer outra década anterior. Nos EUA, o grupo de jovens nessa faixa etária saltou de 6,8% da população em 1960 para quase 10% no meio dos anos 70.
Até a década de 1970, tratar gonorreia era extremamente simples: bastava uma dose de penicilina. No entanto, em 1976, em pleno auge da liberação sexual, os cientistas identificaram as primeiras cepas de Neisseria gonorrhoeae produtoras de penicilinase, ou seja, bactérias que aprenderam a "destruir" a penicilina.
A gonorreia era tão prevalente que a automedicarão e o uso excessivo de antibióticos nos anos 70 ajudaram a criar um cenário onde, em 1980, a doença não só se espalhava mais rápido, como começava a falhar nos tratamentos mais comuns.
A ironia trágica da queda de casos pós-1980 é o que fez os números despencarem após 1980. Não foram campanhas de conscientização focadas na gonorreia que controlaram o surto, mas sim o surgimento da epidemia de HIV/AIDS em 1981.
O pânico gerado por uma nova doença mortal e incurável forçou a sociedade a resgatar o uso massivo da camisinha e reduziu o número de parceiros casuais. Por tabela, os casos de gonorreia despencaram mais de 70% nas duas décadas seguintes.
Atualmente, o mundo enfrenta uma das maiores e mais preocupantes ondas de infecção devido ao surgimento da supergonorréia, uma variante altamente resistente a antibióticos.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que ocorram cerca de 78 milhões de novos casos de gonorreia todos os anos ao redor do mundo. No Brasil, o Ministério da Saúde calcula que ocorram aproximadamente 500 mil infecções anualmente.
Em 2015, a cidade de Leeds, no Reino Unido, enfrentou um surto marcante que acendeu o alerta global. Foi detectada uma cepa da bactéria Neisseria gonorrhoeae com alta resistência à azitromicina, um dos principais antibióticos usados no tratamento padrão. O surto rapidamente se espalhou para outras cidades inglesas.
Embora não tenha sido um surto em massa, um caso individual ganhou as manchetes mundiais em 2018 como o "pior caso de gonorreia da história". Um paciente britânico contraiu uma cepa no Sudeste Asiático que se mostrou resistente à combinação padrão dos dois antibióticos mais potentes utilizados (azitromicina e ceftriaxona). Ele foi curado meses depois após tentativas com terapias alternativas complexas.
O que me levou a escrever este Arturo foi o alerta do Centro Europeu de Prevenção e Controle de Doenças (ECDC) reportando que os casos de gonorreia na Europa atingiram níveis recordes recentemente, com aumentos superiores a 300% em relação à década passada, impulsionados pela diminuição do uso de preservativos e pela expansão da testagem.
Em 1980: o aumento foi gerado pela pílula anticoncepcional (que substituiu a camisinha) e pela falsa sensação de que "antibióticos curam tudo".
Hoje na Europa: o aumento recente também é comportamental. Aplicativos de relacionamento facilitaram encontros casuais, e novas gerações perderam o medo do HIV devido aos avanços dos tratamentos modernos, reduzindo novamente o uso do preservativo. A diferença é que, hoje, a bactéria está muito mais resistente do que em 1980.
Como o comportamento humano é difícil de mudar, a ciência tem focado na prevenção biomédica. Para o HIV, existe a PrEP (Profilaxia Pré-Exposição). Para infecções bacterianas como a gonorreia e a clamídia, pesquisadores estudam a DoxyPEP, o uso do antibiótico doxiciclina após a relação sexual sem camisinha. De fato, desde março de 2026, o Ministério da Saúde adotou o uso do medicamento como uma espécie de tratamento profilático do dia seguinte.
No entanto, o tiro pode sair pela culatra no caso da gonorreia, pois o uso indiscriminado desse medicamento pode acelerar ainda mais a resistência da bactéria, criando as superbaquias.
Diversas startups e universidades (inclusive com financiamento da Fundação Bill & Melinda Gates) tentam há anos desenvolver preservativos feitos de hidrogel ou novos materiais ultrafinos que transmitem melhor o calor e a sensibilidade, tentando anular o argumento jovem de que "com camisinha é ruim".
O aumento de crianças sem assistência paterna decorrente desse comportamento gerou, em vários países europeus, leis de paternidade mais rígidas (com testes de DNA rápidos e automáticos logo após o nascimento) para forçar a responsabilização financeira e legal dos homens, tentando combater a cultura do abandono.
Mesmo com acesso à informação e a métodos preventivos na palma da mão (via smartphones), a mentalidade de busca pelo prazer imediato muitas vezes sobrepõe-se à racionalidade, repetindo o ciclo que vimos lá em 1980, mas agora com armas biológicas muito mais perigosas (as bactérias superresistentes).
O ser humano médio parece ter uma dificuldade crônica em aprender com a história. Se nos anos 1970 a pílula anticoncepcional virou a desculpa perfeita para abandonar a camisinha, a juventude atual resgatou o perigoso argumento de que "com preservativo não é a mesma coisa".
O resultado desse imediatismo é um combo catastrófico: a explosão de superbactérias na Europa e milhares de crianças nascendo sem assistência paterna.
Diante de tanta negligência masculina na hora H, a impressão que dá é que a saúde pública só vai atingir o cenário ideal no dia em que o homem já nascer com o pênis emborrachado de fábrica.
Enquanto a evolução biológica não resolve isso, a conta da irresponsabilidade continua chegando nos hospitais e nos tribunais de família.
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