![]() | Todos os dias, milhões de nós entramos na cozinha, giramos um botão e ouvimos aquele som familiar: clique, clique, chiuuuuu. Um anel de fogo ganha vida. Mas você já parou para realmente observar essa chama? Ela não tem aquele amarelo brilhante e dançante de uma fogueira. É um azul brilhante, intenso e com um aspecto quase artificial. O fogo deveria ser amarelo e laranja, certo? Pelo menos é assim que costumamos imaginá-lo. Nós o desenhamos dessa forma desde a infância. Então, por que o fogão da sua cozinha quebra essas regras? |

A resposta tem a ver com um químico frustrado do século XIX, uma engenharia inteligente e exatamente a mesma física que dá às estrelas as suas cores.
Para entender a chama azul, primeiro precisamos entender a amarela. Em uma vela ou fogueira, partes da chama não recebem oxigênio suficiente para queimar completamente. Isso cria minúsculas partículas de carbono não queimadas, que chamamos de fuligem.
À medida que o fogo aquece, essas pequenas partículas de fuligem brilham em tons vivos de amarelo e laranja. Essas partículas quentes de fuligem brilham devido a um fenômeno físico chamado radiação de corpo negro. É exatamente o mesmo motivo pelo qual uma lâmpada incandescente comum brilha. Mas o seu fogão a gás é diferente.
Ele funciona com um gás hidrocarboneto, geralmente metano ou propano, e foi projetado para alcançar o que chamamos de combustão completa. Quando esse gás se mistura com bastante oxigênio, ele queima de forma tão eficiente que produz pouca ou nenhuma fuligem.
Sem fuligem, não há partículas amarelas brilhantes. Em vez disso, as moléculas quentes e excitadas da chama, juntamente com minúsculos fragmentos reativos, emitem sua própria luz.
Grande parte dessa luz situa-se na faixa azul do espectro, conferindo à chama sua cor característica. Mas como conseguimos domar esse fogo mais limpo e livre de fuligem para nossas cozinhas?
Para isso, voltamos a um laboratório alemão no ano de 1855. O químico Robert Wilhelm Eberhard von Bunsen (na miniatura) tinha um problema. As chamas a gás daquela época eram amarelas, instáveis e produziam muita fumaça.
Elas cobriam seus béqueres de vidro -um recipiente cilíndrico de fundo chato com um pequeno bico, usado em laboratórios para misturar, aquecer ou dissolver líquidos e substâncias- com uma camada espessa de fuligem preta e, simplesmente, não eram quentes o suficiente para seus experimentos.
Robert percebeu que a chama não estava se misturando com ar suficiente antes da combustão. Por isso, ele e um mecânico da universidade chamado Peter Desaga projetaram um novo queimador engenhoso.
Eles adicionaram pequenas aberturas ajustáveis na base de um tubo de metal. Isso permitia que o ar entrasse rapidamente e se misturasse ao gás antes que este chegasse ao topo para ser aceso.
O resultado foi uma chama azul intensamente quente, mais limpa e sem fuligem. O mesmo princípio por trás do bico de Bunsen, a pré-mistura de gás e ar antes da ignição, tornou-se a base para os queimadores dos fogões a gás modernos onde o conhecido registro é o bico de Bunsen.
Nos fogões atuais, o ar e o gás se misturam sob os queimadores seguindo o mesmo princípio básico que Robert ajudou a popularizar há mais de um século. Aquele brilho azul é o sinal máximo de eficiência.
Geralmente, isso indica que o combustível está sendo queimado de forma eficiente, convertendo mais energia em calor útil, além de ajudar a manter suas panelas limpas.
Na verdade, essa cor azul é um recurso de segurança intrínseco. Se você ligar o fogão e vir uma chama amarela ou laranja, oscilante e preguiçosa, isso pode significar que os queimadores estão entupidos, sujos de óleo ou recebendo pouco ar, o que pode gerar monóxido de carbono perigoso e a base da panela com mancha de carvão.
Tranquilo! Para desentupir uma boca de fogão com acúmulo de óleo ou chama fraca, desligue o gás, retire as peças e aproveite para lavar as tampinhas e os queimadores com água, bicarbonato de sódio, vinagre ou limão e uma esponja para remover a gordura externa.
Para desobstrução do bico injetor (um furinho no centro do buraco onde repousam os queimadores), você pode usar um desobstrutor à venda em qualquer mercado, ou então uma agulha fina ou um alfinete delicadamente no pequeno furo central de onde o gás sai.
Faça movimentos leves de vai e vem para soltar a sujeira sem empurrá-la ainda mais para o fundo com cuidado para não quebrar a agulha.
Alternativamente, se o bico estiver muito sujo ou tiver fora do alcance da agulha, aplique algumas gotas de suco de limão (ou vinagre) para dissolver a gordura antes de testar novamente. O ácido ajuda a dissolver o óleo endurecido em poucos minutos. A senhora do seguinte vídeo usa inclusive bicarbonato (exagero).
Se usar líquidos, seque bem a região com um pano limpo ou papel-toalha antes de montar as peças de volta. Recoloque os queimadores no lugar, abra o registro do gás, acenda a chama e tcha-ram: fogo forte e azulado de novo.
Aquele brilho azul constante é, geralmente, um bom sinal de que o queimador está funcionando como deveria.
Então, da próxima vez que ferver água para uma massa ou preparar seu chá matinal, reserve um instante para apreciar aquele pequeno anel azul.
Você não está apenas olhando para o fogo; está observando uma reação química notavelmente eficiente, parte de uma história científica de 170 anos, bem aí na sua cozinha.
O MDig precisa de sua ajuda.
Por favor, apóie o MDig com o valor que você puder e isso leva apenas um minuto. Obrigado!
Meios de fazer a sua contribuição:
- Faça um doação pelo Paypal clicando no seguinte link: Apoiar o MDig.
- Seja nosso patrão no Patreon clicando no seguinte link: Patreon do MDig.
- Pix MDig: 461.396.566-72 ou luisaocs@gmail.com




Faça o seu comentário
Comentários