![]() | É realmente impressionante que uma criatura do tamanho aproximado de um vira-lata gordo consiga derrubar uma árvore que faria um lenhador profissional suar frio. Os castores não são apenas "ocupados"; eles são ferramentas elétricas bioengenheiradas. Sua anatomia os torna os principais arquitetos da natureza, motivo pelo qual são chamados de motosserra biológica. Um castor não apenas "morde" uma árvore; ele usa um sistema mecânico altamente especializado para lascá-la. com seus dentes revestidos de ferro. |

Se você já reparou que os dentes de um castor são laranja brilhantes, não é porque eles têm uma higiene bucal terrível. Seus incisivos frontais são repletos de ferro.
A parte frontal do dente é um esmalte duro e rico em ferro, enquanto a parte de trás é de dentina mais macia. Conforme o castor mastiga, a dentina se desgasta mais rapidamente do que o esmalte, criando uma borda afiada como um "cinzel".
Seus dentes nunca param de crescer. Se não roessem madeira constantemente, seus dentes acabariam crescendo demais para que pudessem comer.
O crânio do castor é construído para suportar enorme estresse mecânico. Eles possuem músculos masseteres superdimensionados que fornecem a força de esmagamento necessária para cravar seus dentes na madeira dura.
Há um grande espaço (diastema) entre seus incisivos alaranjados e seus molares trituradores. Isso permite que eles puxem os lábios para trás dos dentes da frente, impedindo que lascas de madeira entrem em sua garganta enquanto trabalham.
Derrubar uma árvore exige estabilidade. Um castor usa sua cauda pesada e escamosa como uma terceira perna, criando uma postura de tripé estável com as patas traseiras. Isso permite que ele se incline sobre a árvore e aplique a máxima alavancagem sem tombar.
Estudos mostraram que mais de 70% de todas as grandes árvores abatidas por castores caem na direção da água onde a toca do castor está localizada, o que é vantajoso para o animal. Mas a pergunta que muitos biólogos esperam responder é como eles fazem os cálculos complexos necessários para tamanha precisão?
Após anos de estudo, existem diversas hipóteses, mas a principal é que derrubar árvores perto da água proporciona não apenas acesso próximo a alimento, mas também certa segurança.
Existem muitas razões estratégicas pelas quais os castores abatem árvores em uma direção específica. Esses mamíferos semiaquáticos vivem a maior parte de suas vidas na água e passam as noites procurando comida, principalmente casca de árvore, folhas e caules, perto da margem.
Se eles se afastarem muito para o interior, ficam suscetíveis à predação por lobos, pumas e ursos que patrulham as margens e matam castores bloqueando seu caminho de volta para a água.
Além disso, é energeticamente dispendioso e difícil para os castores se deslocarem por terra. Portanto, se derrubarem, digamos, uma árvore de 45 metros que cresce a 30 metros da margem, podem efetivamente reduzir seu deslocamento para o interior de 30 metros para zero.
Quanto maior a árvore, menor o custo do deslocamento subsequente para se alimentar dela, mas apenas se ela cair na direção correta. Garantir isso requer uma combinação de instinto e engenharia.
No seguinte vídeo, a BBC Studios registrou a cena extraordinária de um castor no Parque Yellowstone derrubando uma árvore em apenas algumas horas para construir um canal de proteção e uma represa para os meses de inverno.
As duas espécies remanescentes desses roedores, o castor-europeu (Castor fiber) e o castor-americano (Castor canadensis) são nativos do hemisfério norte. Mas existem castores na América do Sul e eles não deveriam estar lá.
Em 1946, porém, o governo argentino importou 20 casais de castores norte-americanos (Castor canadensis) para a região da Terra do Fogo, no extremo sul da América do Sul. O objetivo era impulsionar o comércio de peles.
O plano fracassou espetacularmente. Como a América do Sul não possui predadores naturais para castores (como lobos ou ursos) e as árvores locais não evoluíram para se defenderem deles, a população explodiu.
Um episódio de 1946 de "Sucesos Argentinos" mostra o que poderia muito bem ser descrito como "prova do crime". Ele retrata a chegada dos primeiros castores canadenses introduzidos na província. O episódio mostra a jornada deles pela Patagônia e o momento exato em que são soltos.
Na década de 1960, castores cruzaram para o lado chileno da Terra do Fogo. Eles não reconhecem fronteiras. Aliás, comem a cerca da fronteira e arrasam tudo que encontram pela frente.
No início da década de 1990, moradores começaram a avistar castores na Península de Brunswick, no continente chileno, o que significa que os animais haviam enfrentado as correntes imprevisíveis do Estreito de Magalhães.
Estima-se que existam hoje mais de 100.000 castores espalhando o terror na região. Ao contrário das árvores do Hemisfério Norte (como salgueiros ou álamos) que podem se regenerar a partir de tocos, as faias sul-americanas geralmente morrem permanentemente quando derrubadas. Isso transformou florestas subantárticas intocadas em "cemitérios de árvores mortas".
Os governos da Argentina e do Chile começaram a perceber a dimensão do problema com os castores na década de 1990. Nessa época, os países tentaram incentivar a caça recreativa e comercial de castores, mas os baixos preços das peles dificultaram a iniciativa.
Deixada praticamente sem controle desde então, estima-se que a população de castores tenha crescido para entre 70.000 e 110.000 na Patagônia e na Terra do Fogo. Os castores colonizaram pelo menos 70.000 quilômetros quadrados de território e dizimaram quase 31.000 hectares de turfeiras, florestas e pastagens, uma área quase duas vezes maior que Altamira, O município mais extenso do Brasil.
Os castores também danificam infraestruturas, inundando rodovias e bueiros, e prejudicando terras agrícolas. Frequentemente, roem cercas destinadas a conter ovelhas; em 2017, castores roeram cabos de fibra óptica na Terra do Fogo, interrompendo o serviço de internet e telefonia celular na maior cidade da região.
Um estudo recente compartilhado pelo Fundo Global para o Meio Ambiente sugere que os danos causados ;;por castores custam à Argentina US$ 66 milhões por ano.
Os castores são um exemplo perfeito de como uma espécie "heróica" em um ecossistema pode se tornar uma "vilã" em outro apenas mudando o CEP.
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