
Assim, os recém-chegados decidiram domar a lagoa e construir a mais improvável das cidades a partir da lama. Embora alguns pescadores já habitassem a região em palafitas, os colonos queriam construir uma base para suportar estruturas mais pesadas e duradouras. Mal sabiam eles que o seu trabalho iria sustentar Veneza até aos dias de hoje.
Espetaram conjuntos de estacas de madeira com 1 a 3 metros de comprimento no solo, em um processo que espremia a água subterrânea e compactava a lama em redor das estacas. Isto criou um ambiente sem oxigênio que protegeu a madeira de insetos e fungos.
As estacas eram ainda vulneráveis a pequenos danos bacterianos, mas, de resto, impermeáveis à deterioração. E este sistema selado de madeira, água e lama ainda sustenta Veneza 1.500 anos depois.
Vigas de madeira e plataformas de pedra sobre as estacas forneciam as bases para os edifícios. E por volta de 697, os colonos declararam formalmente a sua nova casa como a República de Veneza.
Inicialmente, foram construídas pontes para ligar as ilhas, mas estas eram propensas à deterioração, derrocada e incêndio. Muitas, como a famosa Ponte de Rialto, tiveram de ser reconstruídas regularmente, incorporando de cada vez novos materiais e técnicas para aumentar a sua durabilidade.
No século XI, os canais entre as ilhas foram reforçados e transformados em canais revestidos de pedra, navegados por esbeltas gôndolas.
E, ao contrário do resto da Europa, onde os nobres se deslocavam geralmente acima dos plebeus, o traçado da cidade exigia que todas as classes sociais se deslocassem a pé.
No entanto, apesar desta engenharia inteligente, a República ainda não tinha terras para a agricultura, pelo que os venezianos eram fortemente dependentes do comércio.
Felizmente, a localização de Veneza tornou-a a cidade portuária perfeita para ligar os mercados da Europa à Rota da Seda. A sua rede de canais permitia que os barcos atracassem perto dos armazéns, e o desafio de navegar pelas suas vias navegáveis estreitas protegia a cidade dos invasores.
Estas vantagens ajudaram a transformar Veneza numa grande potência marítima, e o século XIII começou com o seu maior negócio até então. O Papa intermediou um acordo com o líder eleito de Veneza, Enrico Dandolo, para produzir navios e armas para os 33.000 soldados esperados para a Quarta Cruzada.
Enrico concordou, investindo enormes quantias do dinheiro e dos recursos da república. Mas, quando chegou a altura de zarpar, apenas um terço dos soldados compareceu, com menos de metade do pagamento prometido.
Furioso, Enrico redirecionou o exército cruzado contra os rivais cristãos de Veneza, incluindo Constantinopla. Esta campanha lançou as bases para o império ultramarino de Veneza e, ao longo dos séculos seguintes, mercadores venezianos como Marco Polo aventuraram-se até à China.
Durante o Renascimento, a república tornou-se um centro de arte e de vida intelectual. Os seus teares para a fabricação de velas foram reutilizados para criar telas gigantescas, os seus artesãos foram pioneiros em diversas técnicas de impressão e as areias ricas em sílica dos rios Ticino e Adige alimentaram extravagantes fábricas de vidro.
No entanto, para além da arte, das sedas e das especiarias, os venezianos também comercializavam pessoas escravizadas para trabalhar em casas particulares ou em navios.
Uma vez libertados, alguns permaneciam na cidade, chegando a trabalhar como gondoleiros. O domínio de Veneza sobre o Mediterrâneo manteve-se incontestável até meados do século XV, quando os otomanos conquistaram Constantinopla.
Nos séculos seguintes, os otomanos usaram a sua marinha para interferir nos negócios de Veneza, enquanto novas rotas comerciais transoceânicas excluíam os venezianos.
A república resistiu até que os ataques franceses a obrigaram a dissolver-se em 1797, altura em que Veneza trocou de mãos entre a Áustria e a França por diversas vezes antes de ser finalmente cedida a Itália em 1866.
Incapaz de competir comercialmente, Veneza reinventou-se como destino turístico. Mas hoje, a subida do nível do mar ameaça afundar a chamada "cidade flutuante".
Em 1900, a Basílica de São Marcos, então com 900 anos, era inundada cerca de sete vezes por ano e agora, sofre aproximadamente 250 inundações anuais. E os turistas são talvez tão perigosos quanto.
À medida que milhões de visitantes anuais navegam a alta velocidade em lanchas rápidas, erodem a barreira de lama que protege as fundações de Veneza.
Se não forem tomadas medidas, estes avanços modernos poderão destruir uma das cidades mais extraordinárias do mundo.
A cidade corre o risco de se tornar inabitável até o final do século se o avanço do mar continuar. A cidade passa por um processo duplo de afundamento relativo -solo que cede e nível do mar que sobe- e enfrenta desafios constantes.
A cidade afunda cerca de dois milímetros por ano, enquanto o Mar Adriático sobe cerca de cinco anualmente devido às mudanças climáticas.
Inundações: A famosa Praça de São Marcos já fica submersa quase 250 vezes por ano.
Para proteger a cidade, a Itália utiliza o MOSE, um sistema de barreiras móveis contra enchentes, mas a famosa Praça de São Marcos já fica submersa quase 250 vezes por ano.Engenheiros também estudam projetos ainda mais radicais para elevar fisicamente toda a cidade e garantir sua preservação.
Engenhosidades para preservar Veneza não são novidade. Durante os mil anos da República de Veneza, os governantes da chamada "Sereníssima" redirecionavam rios, escavavam canais e redesenhavam a hidrografia da lagoa para atender às necessidades da cidade.
No século 20, no entanto, os erros começaram. Nas décadas de 1960 e 1970, a extração de água subterrânea da zona industrial de Marghera, no continente em frente à lagoa, provocou um afundamento significativo. Entre 1950 e 1970, o centro histórico de Veneza perdeu quase 13 centímetros de altura.
Também não há como contemporizar a questão do cheiro da cidade, especialmente no auge do verão, quando a maré baixa expõe algas em decomposição. A cidade não possui rede de esgoto convencional e utiliza um sistema onde a maior parte dos efluentes vai para os canais e é levada para o mar pelas marés.
Isso significa que a água nunca deve ser tocada e nadar é proibido, sujeito a multas. Me parece realmente que existe uma certa romantização da cidade e suas gôndolas e vista grossa para as ratazanas que infestam a cidade.
- "Há quatro ratos para cada habitante. Um total de 200 000 ratos", disse o jornalista brasileiro Diogo Mainardi que mora na cidade. É uma proporção alarmante, quatro vezes maior do que a de Nova Iorque.
Junte-se a isso a política antiturismo de Veneza, que lida com o turismo de massa através de uma série de regulamentações multifacetadas destinadas a controlar as multidões e preservar a delicada infraestrutura da cidade.
Essas políticas incluem:uma taxa de R$ 60 para acesso diário para visitantes de um dia, limites rigorosos para o tamanho dos grupos de turistas, proibição de alto-falantes e a proibição total de grandes navios de cruzeiro na lagoa.
Isso me parece um tiro no pé para uma cidade fortemente dependente do turismo, que representa a base da sua economia. Essa massificação trouxe impactos profundos: hoje são menos de 50 mil habitantes, após a saída de cerca de 70% da população nas últimas sete décadas, em grande parte por conta da própria economia.
Onde vimos mesmo esse fenômeno de cidadezinhas históricas virando cidades fantasmas? Ah sim... na Itália! Pelo "andar da carruagem"-ou seria "remar da gôndola"?- será que logo veremos imóveis oferecidos por um euro na cidade?
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