
Durante séculos, os mosteiros da Europa moderna foram os principais produtores de cerveja em larga escala. Mas a jornada dessa bebida está longe de começar.A fantástica Cachoeira Humana de um musical de 1933. Cerveja se refere a qualquer bebida alcoólica feita de grãos de cereais fermentados, as sementes comestíveis de um grupo específico de gramíneas.
A evidência mais antiga da produção de cerveja data de 13.000 anos atrás, no que hoje é Israel, mas especialistas acreditam que a bebida se desenvolveu independentemente em todo o mundo.
Em cada uma dessas regiões, sua composição foi moldada pelos grãos nativos. Por exemplo, há 9.000 anos, no leste da China, as pessoas bebiam uma cerveja doce e turva feita de arroz, milho-miúdo e tubérculos.
Na região andina da América do Sul, cerâmicas de 5.000 anos sugerem a produção de chicha, uma bebida de milho fermentado.
Independentemente dos ingredientes, a fabricação de cerveja na antiguidade exigia duas etapas principais. Primeiro, o amido dos grãos de cereais precisava ser convertido em açúcares fermentáveis.
Alguns grupos conseguiam isso mastigando-os, enquanto outros os deixavam de molho na água para estimular a germinação, um processo que quebra o amido naturalmente.
A segunda etapa era a fermentação.
Sem que os cervejeiros da época soubessem, leveduras selvagens entravam na mistura, transportadas pelo ar, em frutas ou por meio de utensílios reutilizados que ainda continham leveduras de fermentações anteriores.
Com o tempo e o armazenamento, as leveduras convertiam parte desses açúcares em álcool, liberando dióxido de carbono. Essa cerveja antiga era frequentemente filtrada de forma imperfeita, por isso continha muito mais fibras, vitaminas do complexo B e proteínas do que a cerveja moderna.
Algumas culturas ferviam a mistura inicial de açúcar, o que matava muitos microrganismos indesejáveis, tornando-a mais segura para beber do que outras fontes de água disponíveis.
A receita mais antiga que descreve esse processo aparece em um poema sumério dedicado à sua deusa da cerveja, Ninkasi. Os babilônios se basearam nessa adoração. O Código de Hamurabi exigia rações diárias de cerveja para cada cidadão.
E qualquer cervejeiro flagrado cobrando um preço excessivo por um copo de cerveja era condenado à morte por afogamento.
No Antigo Egito, a cerveja era feita principalmente em casa por mulheres e era um alimento básico da dieta diária. Ela também desempenhava um papel central em festivais religiosos e servia como oferenda em templos e túmulos de faraós.
No século XX a.C., a cerveja se espalhou do Egito para a Grécia, embora não fosse tão popular quanto o vinho. No entanto, ao longo dos séculos seguintes, a sede por cerveja se espalhou pela Europa e além.
No início da Idade Média, os mosteiros europeus foram pioneiros na produção de cerveja em larga escala, tanto para abastecer os peregrinos viajantes quanto para vender e custear a manutenção dos mosteiros.
A relação entre a cerveja e a Igreja na Idade Média não era apenas de consumo, mas de sobrevivência e inovação. Como a água potável era frequentemente contaminada e causava doenças, a cerveja, que passava pelo processo de fervura, era a alternativa mais segura para a hidratação diária de homens, mulheres e até crianças.
Existem vários santos ligados à bebida, cada um com uma lenda que reforça o papel da cerveja como "pão líquido".
Santo Arnulfo (ou Arnaldo) de Metz é o mais famoso também conhecid como "Padroeiro dos Cervejeiros". Durante uma epidemia, ele percebeu que quem bebia cerveja em vez de água não ficava doente. Ele teria dito aos fiéis: "Não bebam a água, bebam cerveja".
O seu milagre mais conhecido ocorreu após sua morte: quando seus restos mortais eram transportados sob um calor intenso, os carregadores exaustos pediram ajuda ao santo. Ao checarem um barril que estava quase vazio, ele começou a transbordar cerveja gelada, o suficiente para saciar todos até o fim do enterro.
Santo Arnoldo de Soissons é muitas vezes confundido com o de Metz. Ele era um monge que incentivava a população local a beber cerveja durante uma peste, usando seu báculo para abençoar os caldeirões de brassagem e garantir que a bebida fosse segura.
Diz a lenda que Santa Brígida da Irlanda, conhecida por sua generosidade, transformou a água de seu banho em cerveja para saciar a sede de um grupo de clérigos que a visitava.
Embora conhecido por sua teologia densa, Santo Agostinho de Hipona é patrono dos cervejeiros devido à sua "vida boêmia" antes da conversão, servindo como um símbolo de transformação.
No século XII, a monja beneditina Hildegarda de Bingen mudou a história da cerveja para sempre. Em seus estudos botânicos, ela foi a primeira a documentar as propriedades preservativas e antissépticas do lúpulo.
Antes dela, a cerveja era temperada com o gruit, uma mistura de ervas e especiarias, que estragava rápido. Hildegarda notou que o lúpulo "impedia a putrefação" da bebida, permitindo que ela durasse mais e fosse transportada para longe.
Essas flores verdes são ricas em compostos ácidos, conferindo à cerveja um novo sabor amargo e atuando como conservante.
O lúpulo tornou-se tão intimamente associado à cerveja que, em 1516, um duque bávaro promulgou uma lei de pureza da cerveja, conhecida como Reinheitsgebot, que definia a composição da cerveja como sendo estritamente cevada, lúpulo e água.
Os monges foram os primeiros "cientistas" da cerveja. Eles transformaram a produção caseira em algo sistemático, desenvolvendo técnicas de fermentação e controle de temperatura que usamos até hoje.
Eles produziam diferentes tipos: a cerveja forte para os monges e convidados nobres, e a cerveja pequena (com baixo teor alcoólico) para os pobres e viajantes.
A Revolução Industrial trouxe outras inovações essenciais para a cerveja, incluindo avanços na refrigeração.
Em 1876, o químico francês Louis Pasteur identificou o papel do fermento na fermentação da cerveja. Com isso, um ingrediente fundamental da cerveja, a levedura, finalmente se tornou visível.
Os cervejeiros começaram a selecionar diferentes fermentos para refinar as receitas e experimentar com o sabor. Hoje, existem bem mais de 100 variedades distintas de cerveja, sendo as lagers e as ales os dois tipos principais.
As lagers, que incluem as pilsners e as bocks, são fermentadas com leveduras que prosperam em temperaturas mais baixas e vivem no fundo dos recipientes de fermentação.
As ales, como as porters, stouts e pale ales, fermentam mais rapidamente, com leveduras que vivem em temperaturas mais altas e flutuam na superfície da mistura.
Mas algumas cervejas quebram esse padrão.
As kölsches, por exemplo, começam com levedura de ale, mas são finalizadas em temperaturas mais baixas, como as lagers.
Outras se baseiam em métodos antigos, como as lambics belgas, que dependem da fermentação espontânea com leveduras selvagens.
Enquanto isso, ainda há novos desafios a serem superados. A crescente demanda por cervejas sem álcool tem impulsionado os produtores a encontrar maneiras de limitar ou remover o álcool, preservando o sabor.
E se a história serve de indicação, a história da cerveja continuará a ser fermentada por muitos anos.
A cerveja chegou ao Brasil pela primeira vez em 1637-1640, trazida pelos holandeses sob o comando de Maurício de Nassau no Nordeste, com a primeira fábrica instalada em Recife. No entanto, a bebida desapareceu com a saída dos holandeses, sendo popularizada definitivamente apenas após a chegada da Família Real em 1808, que abriu os portos à importação.
Com a vinda de D. João VI, a cerveja inglesa começou a ser importada a preço de ouro, tornando-se comum entre a elite.
Em meados do Século XIX, imigrantes alemães iniciaram a produção artesanal em Santa Catgarina, focando em cervejas claras. Em 1853, surgiu a cervejaria Bohemia em Petrópolis, considerada uma das primeiras.
Somente no final do Século XIX chegaram as grandes indústrias como Brahma e Antarctica foram fundadas, que mais tarde se fundiram para se tornar a maior cervbejkaria do mundo.
A bebida, inicialmente de alto custo e importada, popularizou-se com a produção local e a imigração europeia dando origem ao famoso bordão: - "Nós viemos aqui para beber ou conversar?"
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