![]() | A posição de cócoras (ou agachamento) é uma das posturas mais antigas e naturais da humanidade. Antes da invenção das cadeiras e sofás, era a postura padrão usada pelos nossos antepassados e por diversas culturas ao redor do mundo para descansar, comer, trabalhar e realizar necessidades fisiológicas. Historicamente, ficar de cócoras surgiu da necessidade de manipular objetos próximos ao chão e descansar... sim, você leu muito bem: descansar. É uma postura fisiológica que melhora a mobilidade dos quadris, joelhos e tornozelos. |

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Durante séculos, mulheres ao redor do mundo, incluindo populações nativas brasileiras, deram à luz de cócoras. Essa posição utiliza a gravidade e alarga o canal pélvico, facilitando a descida do bebê.
Com a influência da corte francesa no século XVII, o parto passou a ser feito em macas na posição deitada, transferindo o protagonismo da mulher para o obstetra.
Enquanto o estilo de vida ocidental moderno fez com que perdêssemos essa flexibilidade natural devido ao excesso de tempo sentado, a posição continua sendo amplamente utilizada no cotidiano de países asiáticos e orientais. Faça um tour por uma feirinha da vila de Hop Thanh - Ta Phoi, na província vietnamita de Lao Cai, e veja como a maioria dos clientes agacha-se para comp4rar seus produtos.
Hoje, a prática é resgatada no ocidente por profissionais de saúde por trazer benefícios como alívio de dor lombar e melhora do trânsito intestinal.
Em artigos da mídia social você vai ler que asiáticos tem predisposição genética para ficar de cócoras, mas isso não corresponde a realidade. Na verdade, isso é o resultado da prática cultural contínua desde a infância. O hábito alonga os músculos e aumenta a mobilidade das articulações, permitindo que fiquem nessa posição para descansar, comer ou esperar o transporte.
Os principais motivos para essa habilidade incluem o uso de banheiros com vasos turcos, que exigem que a pessoa fique de cócoras para fazer as necessidades. Essa prática diária desde a infância desenvolve e mantém a flexibilidade necessária.
Ao contrário do Ocidente, onde as pessoas passam a maior parte do dia sentadas em cadeiras, a cultura oriental estimula o cócoras como uma postura ativa de descanso, mantendo o corpo funcional e fortalecido.
Manter o cócoras exige mobilidade de articulações que muitas vezes enrijecem com o tempo. A prática constante evita o encurtamento do tendão de Aquiles e dos músculos da panturrilha, tornando o movimento natural e confortável.
A grande maioria dos ocidentais nem consegue agachar-se corretamente, mantendo o calcanhar levantado causando a sensação de tortura-, quando o certo é plantar os dois pés inteiramente no chão.
Se você ao tentar ficar agachado não conseguir apoiar os calcanhares no chão, isso sugere um encurtamento de cadeia posterior. Uma dica para facilitar é apoiar os calcanhares em um livro e ir diminuindo aos poucos.
Esse movimento também é ótimo para ganho de mobilidade de tornozelo e quadril. Pra quem tem hiperlordose, essa posição faz o oposto e também ajuda a relaxar a lombar.
A posição também é muito comum na Rússia, ainda que seja por um motivo diverso. Muito provavelmente você já viu alguma fotografia de um russo vestindo moletom de ginástica com três listras e de cócoras.

Na Rússia Soviética, era possível facilmente dizer quando um homem tinha sido preso: ele conseguia passar muito, muito tempo de cócoras. Por que essa habilidade era tão importante na prisão?
Segundo as regras das prisões soviéticas, os prisioneiros só podiam deitar ou sentar nas camas depois que as luzes fossem apagadas. Durante o dia, os presos tinham que ficar de pé ou se sentar no chão.
A dura regra vinha de tempos pré-revolucionários: por exemplo, na prisão “Kresti”, em São Petersburgo, a tarimba do prisioneiro era levantada no início do dia e baixada apenas à noite para que os prisioneiros não pudessem dormir durante o dia. Atualmente, essas regras rígidas são aplicadas apenas em prisões de alta segurança.
Mas o piso de pedra era insuportavelmente frio e sentar-se no chão também era considerado impróprio e humilhante entre os prisioneiros russos, por isso as cócoras eram uma arte a ser dominada pelos presos. A higiene pessoal nas prisões também sempre foi algo muito importante.
Na verdade, essa era também a única maneira de sentar da maioria dos prisioneiros, já que os pátios internos, onde eles tinham cerca de meia hora de tempo livre todos os dias, também não tinham bancos.
Ficar de cócoras tornou-se um hábito, e os ex-presidiários eram notáveis por sua capacidade de ficar assim por muito tempo. Essa "habilidade" tornou-se popular entre jovens criminosos da URSS, que se habituaram a usar uniformes falsos da Adidas na Olimpíada de Mascou de 1980.
Os lugares onde a malandragem juvenil, os chamados gópniks, podia se reunir e se envolver em brigas, fumar e beber, geralmente não tinham bancos, normalmente atrás de garagens, perto da tubulação de aquecimento, etc. Assim, os malandros precisaram aprender a se manter de cócoras também.
Em seu ensaio Técnicas corporais, o etnógrafo e sociólogo francês Marcel Mauss escreveu que - "...a humanidade pode ser dividida entre os que ficam de cócoras e os que precisam de apoio para sentar."
- "Um bebê fica muito de cócoras, enquanto não podemos mais fazer isso", escreveu Manoel, sugerindo que ficar de cócoras é um sinal de um nível inferior de desenvolvimento da sociedade.
Quanto tempo você consegue ficar de cócoras? Eu já não consigo mais: uma vez sentado pode chamar o guincho, tanto que hoje uso o "banquinho de tirar leite" para lidar na horta e no jardim.
Os médicos dizem que essa posição é realmente benéfica para as articulações dos joelhos, o peristaltismo intestinal, o fluxo sanguíneo, entre outros.
A Queda do Homem Ocidental (Ou: Onde Foi Que Nós Erramos?)
E assim, o homem ocidental trocou seu trono natural por uma cadeira de escritório ergonômica com rodinhas. Enquanto metade do continente asiático conversa calmamente esperando o busão em uma cócoras perfeita de 90 graus, e os gópniks dominam o asfalto das periferias de Adidas e calcanhares colados no chão, nós, os filhos da dita "civilização avançada", transformamos o ato de agachar em um espetáculo de horror e tortura.
Hoje, tentar descer até o chão sem o apoio de um corrimão ou de um guindaste é um convite para uma sinfonia de estalos nos joelhos e um ligamento rompido. Desaprendemos a física mais elementar do próprio corpo.
Condenamos nossos calcanhares ao exílio flutuante e nossas costas ao arco da derrota. Olhamos para uma calçada limpa e, em vez de ver um banco anatômico gratuito, vemos apenas a humilhante certeza de que, se descermos, precisaremos ligar para o SAMU para conseguir subir de volta.
Ironicamente, pagamos caro por mensalidades de academia para que um personal nos ensine a fazer o "agachamento livre" com uma barra nas costas, enquanto um idoso em Hanói fuma um cigarro de palha e descasca um pomelo na mesmíssima posição, de graça, há oitenta anos.
A verdade dói (geralmente na nossa lombar): a evolução nos deu duas pernas, mas o sedentarismo ocidental nos convenceu de que fomos feitos para ser um eterno ponto de interrogação. Que os deuses do tornozelo flexível tenham piedade de nossas articulações encurtadas. Amém.
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