![]() | Você está no corredor de frutas e verduras do seu supermercado. Diante de você, duas maçãs. Uma é perfeitamente redonda, brilhante e barata. A outra está um pouco amassada, com uma cor mais opaca, mas ostenta orgulhosamente um pequeno adesivo verde que diz "orgânico". Ela também custa o dobro. Por décadas, nos disseram que o orgânico é o segredo para uma vida mais longa e livre de toxinas, mas pelo que exatamente estamos pagando? Os alimentos orgânicos são realmente mais ricos em nutrientes ou isso é apenas um enorme triunfo de marketing multimilionário? |

Para entender os alimentos orgânicos, precisamos viajar no tempo. E a verdade surpreendente é que, antes da adoção generalizada de fertilizantes e pesticidas sintéticos na agricultura moderna, praticamente todos os alimentos eram cultivados usando métodos que hoje seriam considerados orgânicos.
Não havia nenhum selo especial para isso. A mudança se acelerou por volta da Segunda Guerra Mundial, quando enormes instalações industriais foram construídas para produzir compostos nitrogenados usados em explosivos e munições.
Mas, quando a guerra terminou, essas indústrias começaram a encontrar novos usos para sua tecnologia. Elas perceberam que os mesmos processos químicos poderiam ser usados para fabricar fertilizantes sintéticos para as plantações.
Isso ajudou a pavimentar o caminho para o que mais tarde se tornaria a Revolução Verde. Combinada com novos pesticidas químicos, variedades de cultivos melhoradas, irrigação e técnicas agrícolas modernas, a produtividade das colheitas aumentou drasticamente e ajudou a aumentar a produção de alimentos em todo o mundo.
Essa agricultura com auxílio de produtos químicos tornou-se o novo normal, mas nas décadas de 1960 e 1970, os bichos-grilos e as crescentes preocupações com a poluição, o uso excessivo de pesticidas e os danos ambientais ajudaram a impulsionar um movimento que se opôs às práticas da agricultura industrial.
Os defensores queriam retornar a métodos agrícolas que dependessem menos de produtos químicos sintéticos. Assim, nasceu o movimento orgânico moderno.
Assim, de certa forma, muitos métodos convencionais de cultivo são inovações relativamente recentes, enquanto a agricultura orgânica se baseia fortemente em tradições agrícolas muito mais antigas.
Mas será que cultivar da maneira tradicional torna os alimentos mais saudáveis? A resposta provavelmente não é o que você espera.
Em 2012, pesquisadores da Universidade Stanford realizaram uma meta-revisão abrangente de mais de 200 estudos comparando alimentos orgânicos e convencionais.
Os resultados surpreenderam muitas pessoas. Eles encontraram poucas evidências robustas de que os alimentos orgânicos fossem consistentemente mais ricos em vitaminas ou minerais.
Na maioria dos casos, uma cenoura convencional e uma cenoura orgânica fornecem quantidades muito semelhantes de nutrientes como a vitamina A.
No entanto, a ciência nunca para. Uma análise posterior em larga escala, realizada em 2014, descobriu que algumas culturas orgânicas continham níveis substancialmente mais altos de certos compostos antioxidantes, às vezes em até 60%. Por quê?
Uma explicação proposta é que as plantas expostas a maior estresse ambiental podem produzir mais de seus próprios compostos de defesa naturais. Muitos desses compostos são antioxidantes.
Em outras palavras, sem depender de muitas das proteções sintéticas usadas na agricultura convencional, algumas plantas podem ser forçadas a se defender de forma mais agressiva.
Mas aqui está o ponto crucial. Embora pesquisadores tenham medido diferenças nos níveis de antioxidantes, os cientistas ainda debatem o quanto essas diferenças se traduzem em benefícios significativos para a saúde de quem consome esses alimentos.
Mas, sejamos honestos. O maior argumento de venda dos alimentos orgânicos não é o que eles contêm, mas sim o que não contêm.
É verdade que os alimentos orgânicos geralmente apresentam níveis mais baixos de resíduos de pesticidas sintéticos comumente usados na agricultura convencional. Mas aqui está o segredo que os especialistas em saúde raramente mencionam: os alimentos convencionais são rigorosamente regulamentados.
Os resíduos de pesticidas normalmente encontrados em produtos convencionais estão geralmente muito abaixo dos limites de segurança estabelecidos pelos órgãos reguladores.Lave seus produtos e muitos resíduos superficiais podem ser ainda mais reduzidos.
Então, por que o preço tão alto? Porque a agricultura orgânica exige muita mão de obra. Sem muitos dos atalhos químicos disponíveis para as fazendas convencionais, os agricultores muitas vezes precisam gastar mais tempo controlando ervas daninhas, pragas e mantendo a fertilidade do solo.
As fazendas orgânicas também costumam ter rendimentos menores do que as convencionais, embora a diferença exata varie dependendo da cultura, da região e dos métodos de cultivo.
Você não está pagando apenas por uma maçã mais saudável. Você está pagando por mão de obra extra, necessidade de mais terra em muitos casos e um processo de certificação caro que comprova que o alimento atende aos padrões orgânicos.
Então, será que a comida orgânica é realmente melhor ou vale a pena? Se você tem o orçamento e quer apoiar sistemas agrícolas que geralmente usam menos produtos químicos sintéticos e priorizam práticas ambientais diferentes, então com certeza.
Mas, se você está apenas tentando manter uma alimentação saudável, não se preocupe com o adesivo verde, é puro perfume. Uma maçã convencional ainda é infinitamente melhor do que não comer maçã nenhuma.
O problema é que o debate sobre alimentos orgânicos versus não orgânicos escalou para níveis de polarização e extremismo. A alimentação deixou de ser apenas uma escolha nutricional e passou a carregar fortes pesos ideológicos, éticos e ambientais, o que costuma gerar conflitos e radicalismo discursivo.
A discussão sobre consumir orgânicos versus produtos convencionais frequentemente assume contornos polarizados devido a estratégias de marketing e crenças em torno do que é "natural" e "saudável".
A crença de que alimentos não orgânicos são "venenosos" devido aos agrotóxicos levou ao surgimento da ortorexia nervosa: um transtorno alimentar caracterizado pela obsessão patológica por comer alimentos saudáveis.
Especialistas apontam o mito da superioridade nutricional dos orgânicos. Embora a produção orgânica tenha méritos ambientais e filosóficos, análises científicas mostram que o perfil de micronutrientes entre orgânicos e convencionais é muito similar.
O acesso restrito e o custo mais elevado dos orgânicos geram discussões sociais, dividindo consumidores entre quem pode pagar por uma "alimentação limpa" e quem depende de produtos convencionais.
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