![]() | Imagine sair pela porta da frente de casa,fechar os olhos e correr em disparada por 8 dias seguidos,sem parar para comer,dormir ou beber. Agora,imagine fazer isso enquanto atravessa o oceano mais vasto da Terra e chegar exatamente à mesma praia que você visitou no ano passado. Parece impossível,mas para o maçarico-de-bico-virado (Limosa haemastica),isso não é um milagre. É apenas um dia de semana comum. Todos os anos,bilhões de aves viajam pelo planeta, cruzam oceanos e desertos monótonos,onde tudo parece igual. No entanto,elas não se perdem. |

Durante séculos,acreditou-se que as aves simplesmente seguiam a linha da costa ou ensinavam a rota aos seus filhotes. Mas a verdade é muito mais surpreendente. Acontece que as aves não estão apenas olhando para o chão. Elas leem as estrelas,sentem o cheiro do vento e,acredite ou não,utilizam a física quântica.
Para entender como elas se orientam,precisamos analisar as ferramentas que utilizam. Na verdade,elas são muito parecidas com os instrumentos que os navegadores humanos usaram por milhares de anos,só que já vêm integradas ao próprio corpo.
Primeiro,elas possuem uma bússola solar. Na década de 1950,cientistas descobriram que os estorninhos conseguiam determinar a direção observando a posição do sol. Mas o detalhe genial é este: como o sol se desloca pelo céu ao longo do dia,essas aves possuem um relógio biológico interno que compensa a passagem do tempo.
Elas sabem que a direção oeste às 8 da manhã é diferente da direção oeste às 4 da tarde. Mas e quanto a voar à noite? Os mariposas-azuis (Passerina cyanea), pequenos cardeais canoros de plumagem azul,resolvem isso olhando para o alto.
Experimentos realizados na década de 1960 em planetários comprovaram que essas aves realmente memorizam a rotação do céu noturno. Elas não buscam apenas uma única Estrela Polar; elas observam os padrões das constelações ao redor do centro de rotação. E,quando se aproximam de casa,utilizam pontos de referência geográficos.
Sabe-se que pombos seguem rodovias e fazem curvas em pontos específicos onde rios se encontram. Mas o sol,as estrelas e as estradas não explicam como uma ave consegue se orientar no meio do Oceano Pacífico em uma noite nublada.
Para isso,eles precisam de algo invisível. É aqui que a história encontra a ficção científica. Por muito tempo,suspeitou-se que as aves utilizam o campo magnético da Terra,mas ninguém sabia como.
Nós temos material magnético em nossos celulares; as aves não têm metal em seus bicos. A resposta reside em uma proteína peculiar nos olhos da ave,chamada criptocromo 4.
Quando a luz azul incide sobre essa proteína,ela desencadeia uma reação química nas profundezas da retina da ave. Essa reação cria um par de moléculas emaranhadas quanticamente,um estado no qual duas partículas estão conectadas de uma maneira misteriosa e invisível. Essa reação química é extremamente sensível a campos magnéticos.
Então,o que isso significa? Significa que as aves provavelmente não apenas sentem o norte magnético,mas conseguem realmente vê-lo.
Cientistas acreditam que isso sobrepõe um padrão visual à visão normal delas,como um visor de realidade aumentada ou o "head-up display" de um piloto. Enquanto voam,elas podem perceber um sombreamento mais claro ou mais escuro que indica exatamente onde estão as linhas magnéticas,permitindo-lhes manter a rota mesmo quando não conseguem enxergar o mundo abaixo.
Portanto,elas possuem uma bússola nos olhos e um relógio no cérebro. Mas uma bússola apenas indica a direção; ela não diz onde você está. Para isso,é preciso um mapa. Isso nos leva à última ferramenta surpreendente: o mapa olfativo.
Aves marinhas,como o albatroz,têm um olfato incrível,mas não estão farejando comida; elas estão farejando assinaturas químicas provenientes da terra. Elas conseguem detectar combinações químicas distintas trazidas pelo vento a centenas de quilômetros de distância.
As aves jovens constroem esse mapa ao longo do tempo. Elas aprendem que um cheiro específico,trazido por um vento de oeste,significa que estão ao sul de casa. É uma grade sensorial que os humanos mal conseguem compreender.
Não existe um único GPS mágico. Em vez disso,as aves são verdadeiras ferramentas multifuncionais: são astrônomas,físicas quânticas e engenheiras químicas,tudo isso revestido de penas.
Então,da próxima vez que você vir um bando de gansos voando sobre sua cabeça,lembre-se de que eles não estão apenas voando ao acaso. Eles estão realizando um dos cálculos mais complexos do mundo natural.
Tente imaginar a andorinha-do-mar-ártica (Sterna paradisaea) detém o recorde de mais longa migração do mundo animal. Pesando pouco mais de 100 gramas,ela viaja cerca de 80.000 a 90.000 km por ano,voando entre o Círculo Polar Ártico (onde se reproduz) e a Antártida (onde passa o inverno),o que equivale a duas voltas completas no planeta Terra.
O fuselo (Limosa lapponica) é a ave que consegue voar a maior distância sem parar para comer ou descansar. Em um de seus voos registrados,viajou cerca de 13.560 km em 11 dias,saindo do Alasca até a Tasmânia,na Austrália.
O maçarico-branco (Calidris alba), que pesa o mesmo que uma caneta, viaja cerca de 20.000 km do Canadá, onde nidifica, espera os pintinhos crescerem o suficiente e voam até à Lagoa dos Patos, no verão, quando relizam uma estranha dança de vai-e-vem das ondas para se alimentarem de pequenos crustáceos revelados pelas águas. No final do verão, com um papo bem cheio, retorna ao Canadá sem escala.
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