![]() | Na década de 1930, os cientistas soviéticos sabiam o que poderia acontecer se desafiassem a linha do partido: denúncia, demissão e expulsão do meio científico, até mesmo prisão e morte. As represálias políticas contra aqueles que se opunham às ideias do ditador Josef Stalin e seus seguidores, e à ciência duvidosa que eles endossavam, levaram à morte por inanição de milhões, bem como a décadas de progresso perdido em áreas que iam da agricultura à biologia molecular. |

Em 1921, poucos anos após a revolução russa, a guerra civil e uma seca que destruiu 20% das plantações de toda a União Soviética castigaram 90 milhões de pessoas e mataram 5 milhões de fome. Só a ajuda humanitária internacional e a boa colheita de 1922 aliviaram a situação.
Dois anos depois, em 1924, Joseph Stalin assumiu a liderança do país dilacerado pela guerra e pela fome. Naquela época, a genética era pujante e moderna também na União Soviética, com um grupo forte de cientistas mundialmente reconhecidos, como Nikolai Koltsov, Yuri Filipchenko e Nikolai Vavilov. Mas tudo estava prestes a mudar. Catastroficamente.
Enquanto em 1926 as teorias lamarckistas foram abandonadas no ocidente, por causa de interpretações "criativas" elas ainda tinham um forte apelo para a ideologia soviética.
O recém-formado agrônomo por correspondência Trofim Lysenko propôs uma teoria lamarckista simplória e altamente contaminada ideologicamente. Ele afirmava que as colheitas poderiam ser "treinadas" para obter grande produtividade, bastando apenas expô-las ao frio intenso, a chamada vernalização.
De acordo com o que Trofim chamava de "Lei da Vida das Espécies", as sementes da mesma "classe" não competiriam entre si, mas cooperariam umas com as outras, como os humanos.
Ademais, as plantas resultantes, e toda a sua descendência, deveriam ser resistentes aos invernos notoriamente rigorosos da URSS, argumentava Trofim.
Aplicando o princípio marxista do materialismo, no qual as condições que cercam um indivíduo ditam seus comportamentos e respostas, ele acreditava que plantas e animais também podiam ser remodelados à nossa vontade com fantástica facilidade. Estas foram apenas algumas das muitas crendices e bobagens que Trofim afirmava serem comprovadas pelas suas "pesquisas".
Até a década de 1930, a União Soviética era uma verdadeira potência no campo da genética. Então, Trofim apareceu. Esse cara era o típico charlatão bom de lábia. Ele era muito bom com a imprensa e começou a espalhar a ideia de que era capaz de aumentar drasticamente a produção agrícola, principalmente de trigo com sua vernalização.
Seu raciocínio baseava-se numa ideia refutada da biologia evolutiva chamada hereditariedade lamarckiana. O biólogo francês Jean-Baptiste Lamarck e seus seguidores acreditavam que as experiências vividas por um organismo ao longo da vida poderiam ser transmitidas para a próxima geração. O exemplo clássico é o da girafa que precisa se esticar para alcançar as folhas, produzindo descendentes com pescoços mais longos.
Essa ideia contrariava a genética mendeliana, que defende que os genes, e não as influências ambientais, controlam as características e são transmitidos à descendência. Os geneticistas mendelianos acreditavam que seriam necessários cinco anos para desenvolver culturas mais resistentes ao frio. Trofim afirmou que conseguiria fazer isso em dois ou três anos.
Stalin não tinha tempo a perder. Ele estava tentando implementar fazendas coletivas e precisava aumentar a produção agrícola para alimentar mais de 150 milhões de pessoas. Grandes partes do país já haviam sofrido com a fome em 1932 e 1933, e cerca de 6 milhões de pessoas morreram. Algumas recorreram ao canibalismo.
Stalin adotou a abordagem paliativa de Trofim. Essa decisão foi algo que a maioria das pessoas na época, e todos desde então, consideram o lado errado da história.
Trofim foi colocado no comando de um prestigiado instituto de genética e impôs suas práticas agrícolas cientificamente questionáveis nas fazendas coletivas. Seus métodos foram desastrosos.
Não surpreende que essas ideias tenham se mostradas desastrosas, com perdas recorde de colheitas. As políticas de Stalin e a pseudociência de Trofim resultaram em graves interrupções na produção de alimentos que contribuíram para uma nova onda de fome no sul da Rússia e na Ucrânia, a Praga da Fome de 1932-1933.
O resultado foi a morte por inanição de umas 8 milhões de pessoas. A fome adquiriu proporções inimagináveis: a visão de pessoas morrendo na rua já não provocava reação e o canibalismo não era raro, assim como o sacrifício de crianças para poupá-las do sofrimento.
A imersão das sementes em água gelada prejudicou a germinação, levando à perda de colheitas. Milhões morreram de fome. Enquanto isso, a genética mendeliana foi tachada de "prostituta do capitalismo", e os geneticistas foram forçados a renunciar às suas ideias ou perder seus empregos.
A genética soviética só se recuperou da influência de Trofim após a dissolução da União Soviética no final da década de 1980 e início da década de 1990.
O Caso Lysenko é o exemplo histórico mais famoso de interferência política na ciência. O desastre ocorreu porque a liderança soviética criminalizou a genética, forçando a adoção das técnicas agrícolas baseadas no lamarckismo e em crenças sem embasamento empírico.
O apoio de Stalin ajudou Trofim a se tornar presidente da Academia Lenin de Ciências Agrárias. O início de uma campanha agressiva contra os geneticistas acadêmicos clássicos e as tentativas de Trofim de reviver uma versão ideologicamente informada do neolamarckismo coincidiram com o "Grande Expurgo" de 1936-1938 nas mãos da polícia secreta soviética: repressões politicamente motivadas e terror na URSS.
Um milhão e meio de cidadãos soviéticos foram presos, incluindo centenas de cientistas de primeira linha. Metade deles foram executados.
Cientistas proeminentes, como Nikolai Ivanovich Vavilov, morreram no cativeiro. Ele foi um renomado botânico e geneticista famoso por identificar os centros de origem e diversidade das plantas cultivadas e por montar o maior banco de sementes do mundo na época.
Vavilov dedicou sua vida a melhorar as colheitas de cereais para erradicar a fome no mundo. Ele realizou expedições botânicas em dezenas de países dos cinco continentes (incluindo o Brasil) para coletar e estudar sistematicamente centenas de milhares de amostras de sementes. Suas expedições foram fundamentais para entender o desenvolvimento geográfico e a evolução das plantas cultivadas.
Ele morreu de fome na prisão após se opor à pseudociência de Trofim apoiada por Stalin.
As ideias de Trofim, como plantar sementes muito próximas umas das outras para "cooperarem", destruíram plantações inteiras e contribuíram para ondas de fome severas na URSS.
A biologia soviética foi severamente prejudicada, e o ensino e a pesquisa em genética foram banidos por décadas.
O legado do "Lysenkoísmo" serve como um alerta global sobre os perigos de submeter descobertas empíricas e o método científico a dogmas ideológicos e mandatos políticos.
Entre 1959 e 1961 morreram em torno de 35 milhões de chineses de fome e doenças depois que as fazendas foram devastadas com a ajuda das ideias pseudocientíficas de Trofim. Acabou?
Que nada! Suas ideias tem eco até os dias de hoje. Poucos anos atrás ainda houve tentativas criativas de ressuscitar estas ideias malucas na Rússia.
Mas nem tudo está perdido. Na Rússia circulam hoje várias piadas sobre Trofim Lysenko. Dizem que ele tentou cruzar melancia com barata para aumentar a produtividade eliminando a necessidade do plantio: ao abrir a melancia, as sementes sairiam correndo freneticamente se espalhando pelo campo... Castigat ridendo mores!
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