![]() | Você provavelmente desembolsou mais de R$ 300 no seu último par de óculos, enquanto hoje em dia qualquer brasileiro consegue adquirir um importado da China por R$ 15. E isso não é mera curiosidade: está abalando um dos mercados mais rentáveis do país. O Brasil é um dos maiores mercados de óptica do mundo. Não se trata de exagero, já que O setor gera anualmente cerca de 20 bilhões de reais quando se somam óculos de grau, lentes de contato, armações e acessórios. Existem mais de 35.000 óticas espalhadas pelo país, responsáveis por empregar centenas de milhares de pessoas. |

Durante décadas, esse mercado seguiu uma lógica bem definida. O consumidor pagava valores elevados, a margem das óticas era muito alta e o produto era considerado quase um artigo de luxo.
Esse raciocínio agora está se fragmentando por um produto que cabe literalmente no bolso da camisa. Para dimensionar a escala do problema, vamos considerar um número simples. Uma armação de óculos de grau em uma ótica brasileira tradicional custa, em média, entre R$ 200 e R$ 500. As lentes ficam à parte.
Uma armação semelhante, visualmente quase idêntica, pode ser adquirida hoje em plataformas de comércio chinesas por R$ 15, R$ 20, no máximo R$ 30, com frete para o Brasil incluído em muitos casos.
A diferença de preço não é de 10% nem de 50%. Trata‑se de uma discrepância superior a 2.000% entre o preço médio do varejo nacional e o do produto importado. Isso muda completamente o jogo. Mas como um item que cruza o Oceano Pacífico consegue chegar mais barato do que algo produzido aqui ao lado? A resposta é multifacetada.
os óculos custam caro no Brasil devido à alta carga tributária, monopólios na cadeia de distribuição e ao modelo tradicional de óticas físicas, enquanto a China se beneficia de imensa escala de produção, mão de obra barata e venda direta sem intermediários.
Impostos de importação, PIS, COFINS, ICMS e taxas alfandegárias elevam consideravelmente o valor final do produto que chega às prateleiras.
O produto passa por importadores, distribuidores, representantes ironicamente de produtos chineses, com cada etapa adicionando margens de lucro ao preço final.
Grandes conglomerados internacionais controlam ou licenciam a maioria das marcas globais de grife, ditando preços elevados artificialmente. Ademais, o preço nas lojas tradicionais embute altos custos de aluguel em pontos comerciais, equipes de vendas, laboratórios locais de montagem e royalties de marcas.
Por que a produção na China é tão barata? Basta pensar em economia de escala: fábricas chinesas produzem milhões de peças idênticas de armações por dia, o que reduz drasticamente o custo unitário da matéria-prima e do processo.
A China possui ecossistemas completos concentrados em províncias como Zhejiang e Guangdong, onde todas as etapas, do polimento do acetato à fabricação de dobradiças, ocorrem no mesmo polo industrial.
Plataformas de comércio eletrônico eliminam os intermediários tradicionais, permitindo que o consumidor compre direto do fabricante asiático por uma fração do preço cobrado no varejo ocidental.
As plataformas de comércio eletrônico chinesas desenvolveram redes de distribuição direta ao consumidor que cortam intermediários com uma brutalidade cirúrgica. Não existe atacadista, não existe distribuidor regional, não existe logista com margem de 100%. O produto sai da fábrica na China e vai direto para a casa do brasileiro.
Cada elo que desaparece dessa cadeia representa uma economia de custo que vai no final ou para o lucro da plataforma ou para um preço menor que atrai mais compradores. Frequentemente os dois ao mesmo tempo.
Eu decidi escrever este artigo, pois recentemente tive que revisar a receita de meu óculos. O engano começa já no exame de optometria, pois algumas óticas cobram exames baratos ou gratuitos apenas para atrair clientes para a loja. Elas retém a receita para obrigar a compra do óculos no local, uma prática abusiva de venda casada, proibida pelo Código de Defesa do Consumidor.
No meu caso consegui um encaminhamnto para o exame direto no postinho do bairro e fui atendido no Hospital de Olhos Sadalla Amin Ghanem, o melhor do país. Foi aí que começou a verdadeira via sacra atrás de lentes multifocais, mais caras que as lentes simples porque reúnem dois campos de visão em uma única peça, o que exige processos de fabricação mais complexos para unir o grau de longe e o de perto.
O preço no Brasil: em torno de R$ 800 e R$ 2.000 sem a armação. Na China: entre R$ 50 e R$ 100 já com armação.
A China produz mais de 80% de todos os óculos fabricados no mundo. Não é rumor, é dado da Associação Mundial de Óptica. Quando você fabrica nessa escala, o custo de cada unidade cai de forma absurda como podemos atestar.
Aqui surge uma questão que vai além da economia. Lentes sem certificação adequada e sem controle de qualidade podem causar dor de cabeça, cansaço nos olhos e, em casos mais graves, danos permanentes à visão de quem as usa.
O Conselho Brasileiro de Oftalmologia e entidades de Óptica vêm alertando para esse risco há anos. Mas a realidade é difícil. Quando alguém precisa escolher entre gastar R$ 800 numa lente certificada ou R$ 60 em um produto que parece funcionar, a maioria das pessoas escolhe a opção mais barata. Isso não é falta de informação, é desigualdade.
No Brasil, mais de 50% dos adultos precisam de correção visual e muitos não têm plano de saúde que cubra custos com ótica. Por isso, o preço baixo atrai muita gente. Esse é o centro dessa história.
O Brasil tem polo de fabricação de óculos, com empresas que empregam diretamente milhares de trabalhadores. Essas indústrias não conseguem competir em preço com a China. Isso é um fato innegável.
O custo de um funcionário no Brasil, somado aos encargos trabalhistas, ao custo da energia elétrica, as matérias primas e a carga tributária sobre a produção, cria uma estrutura de custo que simplesmente não tem como chegar perto do que é produzido em escala industrial em território chinês. A disputa em preço está perdida de antemão. Então, o que fazer?
Algumas empresas brasileiras encontraram uma saída que é, ironicamente importar componentes chineses, montar aqui e vender com o rótulo de produto nacional. O problema? O custo não cai devido ao "olho gordo" do empresariado e a alta carga tributária sobre importação de peças, aos custos logísticos e à baixa escala de produção local comparada à da China.
A verdade é que parte das armações de marcas famosas que chegam ao Brasil e que você paga R$ 600, R$ 800, R$ 1.000, vem das mesmas linhas de produção que fabricam os produtos de R$ 15. A diferença está na etiqueta, no acabamento final e, claro, na estratégia de marketing da marca.
A pergunta que ninguém responde claramente é: óculos de R$ 15 feito na China, vendido por plataforma digital, funciona? A resposta curta é: depende.
Para óculos de sol a qualidade de muitos produtos chineses é surpreendentemente aceitável. Eles passam por processos de controle de qualidade para exportação que atendem padrões mínimos de segurança. O problema chega quando entramos no território das lentes de grau, onde precisão milimétrica faz toda a diferença entre ver bem e agravar um problema de visão.
Especialistas em optometria explicam que uma lente de grau precisa ter o centro óptico alinhado com precisão milimétrica com a pupila de cada paciente. Um erro de 2 mm nesse alinhamento já pode causar distorções, desconforto e sobrecarga nos músculos oculares.
Lentes produzidas em massa, sem medição individualizada, simplesmente não conseguem garantir esse alinhamento. O consumidor que usa essas lentes por tempo prolongado pode sentir os efeitos meses depois e nunca associar ao óculos comprado por R$ 15. Esse é um risco invisível, real, e que nenhuma plataforma digital te conta no momento da compra.
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