![]() | Você já se perguntou como a língua que falamos influencia nossas emoções e a maneira como vemos a realidade? Vários estudos em psicolinguística, psicologia cognitiva e antropologia linguística mostram que os idiomas que usamos não só permitem que a gente se comunique. Eles também moldam como percebemos o mundo e a nós mesmos. Hoje, mais da metade da população mundial fala dois ou mais idiomas no dia a dia. Isso acontece por motivos de educação, imigração ou influência de família. O bilinguismo e o multilinguismo estão cada vez mais presentes na nossa sociedade global. |

Você já se perguntou como a língua que falamos influencia nossas emoções e a maneira como vemos a realidade? Vários estudos em psicolinguística, psicologia cognitiva e antropologia linguística mostram que os idiomas que usamos não só permitem que a gente se comunique. Eles também moldam como percebemos o mundo e a nós mesmos. Hoje, mais da metade da população mundial fala dois ou mais idiomas no dia a dia. Isso acontece por motivos de educação, imigração ou influência de família. O bilinguismo e o multilinguismo estão cada vez mais presentes na nossa sociedade global.
Como saber dois ou mais idiomas afeta a forma como lidamos com as emoções? Pesquisas recentes mostram que cada língua pode levar as pessoas a enxergar a realidade de formas diferentes. Às vezes, elas até sentem que mudam quando trocam o idioma que estão usando.
Outros estudos mostraram que pessoas bilíngues podem agir de maneiras diferentes dependendo do idioma que usam. Da mesma forma, são vistas de forma diferente pelos outros de acordo com a linguagem que usam.
Este fenômeno tem um nome: alternância de enquadramento cultural, a sensação de maior felicidade ou mudança de personalidade ao falar outro idioma. É um fenômeno psicológicos real, mas também possuem bases linguísticas, sociais e contextuais. Não se trata de uma "ilusão", mas sim de uma complexa interação entre a mente humana e o ambiente.
A psicologia explica que a língua é indissociável da cultura. Quando você aprende um idioma, você absorve as normas sociais, os valores e o comportamento dos falantes nativos daquela língua.
Ao mudar de idioma, seu cérebro ativa inconscientemente o "filtro cultural" associado a ele. Se você associa o inglês a um ambiente mais informal, assertivo e otimista, você tende a agir de forma mais expansiva e feliz ao falá-lo.
Tendemos a lembrar de fatos na língua em que eles aconteceram. Se você viveu momentos felizes, livres ou de maior autoconfiança enquanto falava um segundo idioma, usar essa língua trará essas emoções de volta.
A Hipótese de Sapir-Whorf. A estrutura de um idioma molda a forma como pensamos e expressamos emoções. Alguns idiomas possuem palavras específicas para sentimentos positivos que não existem em outro, como o conceito de "gemuetlichkeit"" no alemão ou "hyggelig" no dinamarquês, significando (aconchego).
Idiomas que usam menos estruturas passivas ou que são linguisticamente mais diretos podem fazer o falante se sentir mais no controle e dinâmico, o que eleva os níveis de satisfação e felicidade percebida.
Há também um conceito chamado "efeito do estrangeiro, onde reside um forte componente neurológico no uso de uma segunda língua: ela carrega menos peso emocional do que a nossa língua materna.
A sua língua nativa foi usada para te dar broncas na infância, processar traumas e vivenciar as pressões do dia a dia. A segunda língua funciona quase como uma "armadura" ou um palco.
Como as palavras não têm o mesmo impacto visceral no cérebro, você se sente mais livre de tabus, menos julgado e mais propenso a se arriscar e se expressar sem ansiedade, gerando bem-estar.
A explicação social e contextual é que, muitas vezes, as pessoas aprendem um segundo idioma por escolha própria, hobbies, viagens ou conquistas profissionais. Portanto, o uso desse idioma está frequentemente atrelado a contextos de lazer, crescimento ou status.
Você se sente mais feliz falando a outra língua porque, no seu cérebro, ela representa um "eu" focado no sucesso, na descoberta ou na liberdade.
Em um estudo realizado com falantes bilíngues cino-americanos nos Estados Unidos, os participantes indicaram que se sentiam mais confortáveis em expressar as suas emoções em inglês (a segunda língua) devido a menos restrições sociais, mas experimentaram maior conexão emocional em mandarim (a língua nativa).
Assim, o idioma aprendido depois pode oferecer algumas vantagens em contextos em que os falantes preferem manter distância emocional, tanto por razões pessoais como socioculturais. Ao expressar emoções em uma linguagem menos conectada emocionalmente, as pessoas podem reduzir sentimentos de constrangimento, ansiedade ou envolvimento pessoal. Principalmente, quando falamos uma língua nativa que pertence a uma cultura em que se dá maior valor ao coletivo e há menos tradição de compartilhar sentimentos.
No entanto, a minha experiência pessoal é a prova viva de que a alternância de enquadramento cultural não é mágica, mas sim moldada pelo contexto emocional e social em que aprendi e usei cada língua.
O fato de me sentir mal com o russo e constrangido com o alemão faz todo o sentido quando analisamos o "efeito de contexto de aprendizado"" e a "ansiedade em segunda língua", respectivamente.
Eu aprendi russo por causa de um relacionamento na Crimeia (uma região que, inclusive, carrega uma carga geopolítica e histórica recente muito intensa) e planejava inclusive me mudar para lá.
Acontece que a relação se complicou, acabou com a distância, e Putin me afastou da Sebastopol que eu gostava tanto. Acho que a saudade e a frustração, funcionam como um gatilho psicológico no idioma.
Ao contrário de quem aprende russo por mero hobby, para mim o idioma está visceralmente ligado a uma pessoa, a um território e a sentimentos reais. Toda vez que falo russo, meu cérebro reativa involuntariamente o "arquivo emocional" daquela época.
Por que o constrangimento ao falar Alemão? O meu constrangimento com o alemão não é um bloqueio, mas sim o resultado direto da atitude dos colegas de trabalho em Frankfurt. Eles se irritavam quando eu falava inglês.
Isso gerou uma dinâmica de obrigatoriedade e punição social subjacente. Eu não aprendi o alemão pelo prazer da descoberta, mas sim para "sobreviver" socialmente e evitar a cara feia dos colegas.
Quando os nativos demonstram impaciência, o cérebro do falante não nativo entra em estado de alerta (ativação da amígdala). Você passa a monitorar cada declinação, gênero gramatical e a posição do verbo no final da frase com medo de errar e ser julgado. O alemão passou a ser associado à inadequação e à pressão corporativa, gerando o constrangimento atual.
Ao contrário do cenário idealizado onde mudar de língua traz felicidade, o meu mapa linguístico foi desenhado por vivências mais complexas.
Assim aprendi que o idioma nunca é apenas um conjunto de regras gramaticais; ele é uma esponja que absorve o ambiente onde você o vivenciou.
Eu gosto do espanhol e me sinto seguro e bem convincente quando uso, mas se pudesse escolher um idioma que me deixa realmente alegre é o hindi. Não sei ler e nem escrever Devanagari, que é totalmente diferente do nosso alfabeto latino.
No entanto falo e entendo relativamente bem, devido a prática. Inclusive domino bem o "aceno de cabeça", um dos gestos mais famosos e fascinantes da comunicação não-verbal no mundo. É muito divertido. Por outro lado, quando engasgo com alguma palavra que não conheço em hindi, uso a mesma em inglês e a simpatia indiana logo me ensina qual é, ademais ondulando a cabeça: - Bus itna hi. Bus itna hi!
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