![]() | Este post é, na verdade, um desabafo pessoal sobre o que me ocorreu nos últimos meses, pois se alguém me dissesse, há dois anos, que minha rotina sobre duas rodas mudaria tão radicalmente, eu teria rido. Eu era um touro de 2m e 112 kg. Pedalava 50 km por dia com a facilidade de quem vai ali virar a esquina. Atravessava Joinville de ponta a ponta, enfrentava a estrada para a praia e cheguei a rodar mais de 3.000 km no sudeste asiático, Nepal e na Índia, onde, convenhamos, sobreviver ao trânsito já é um milagre por si só. |

Pois bem. Do vinho para a água é pouco: a vida resolveu me colocar no modo recall. Levei um tombo no limo da calçada de casa, rachei a patela e, depois de duas cirurgias, quase fiquei sem andar. De fato, ainda estou usando bengala para sustentar a dor nas pernas.
Hoje, cruzar a rua para ir à panificadora virou uma expedição digna de documentário narrado por Sir David Attenborough. Ir ao postinho de saúde uma vez por semana para tomar B12 e renovar curativo tornou-se o meu grande evento social de terça-feira. Se eu tivesse um conta-giros no joelho, ele estaria apitando e pedindo parada nos boxes a cada dez passos.
Para completar o pacote "kit dignidade em manutenção", fui ao oftalmologista e descobri que estou com uma tal de "catarata galopante". Ga-lo-pan-te! Eu nem sabia que catarata andava de cavalo, mas a minha aparentemente está treinando para o Grande Prêmio Brasil.
O resultado prático é que o mundo do outro lado da rua virou um grande quadro impressionista. Não reconheço mais ninguém. E como não quero carregar a fama de esnobe ou mal-educado, adotei a única estratégia viável: dou tchau para absolutamente todo mundo.
Passou uma sombra no passeio oposto? Aceno calorosamente. É um vizinho de vinte anos? - "Fala, meu querido!". É um poste de luz com um casaco pendurado? - "Bom dia, mestre!". Se eu errar, que seja pelo excesso de simpatia. Já estou considerando andar com uma faixa transversal para as pessoas acharem que sou o prefeito em visita comunitária.
A boa notícia, porque sempre tem um "menos mal" na vida de pobre, é que a burocracia do destino resolveu colaborar: sou o terceiro da fila no mutirão de cirurgias da Secretaria de Saúde aqui de Joinville. Ou seja, em breve a catarata galopante vai ter que trocar o galope por um trote e ir embora.
Para a minha mãe e para os parentes, a versão oficial continua sendo a clássica "ajuste fino no joelho". Afinal, para que alarmar a família se tudo não passa de uma simples revisão de suspensão e troca de faróis?
Seguimos firmes. Se me vir por Joinville e eu acenar com o entusiasmo de quem encontrou um parente distante, não se assuste: ou é você mesmo, ou é um poste muito simpático.
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