![]() | Há quem se debruce para refletir sobre os aspectos históricos e culturais da limitada adoção do cristianismo no Japão, em comparação com sua ocidentalização em vários outros aspectos. Apesar da modernização e abertura do país às ideias ocidentais, o cristianismo não parece ter ganhado tanta popularidade quanto se poderia esperar.O cristianismo no Japão está entre as religiões minoritárias do país em termos de indivíduos que declaram explicitamente uma afiliação ou fé. Em 31 de dezembro de 2023, de acordo com o Departamento de Assuntos Religiosos do Ministério da Cultura do Japão, havia 300.921 cristãos, 0,73% da população total do Japão. |

Mas por que diabos isto aconteceu? Segundo dica do amigo Zé Roberto Isabella,via e-mail, há uma miríade de causas que afastou os japoneses do cristianismo, que fracassou em grande parte devido a intensa perseguição governamental sob o Xogunato Tokugawa, que a considerava uma ameaça política ligada ao colonialismo ocidental.
Ademais o cristianismo era considerado uma subversão da ordem social japonesa, particularmente após a Rebelião de Shimabara, o que levou a uma severa repressão e forçou os convertidos à clandestinidade, além de sua natureza estrangeira e exclusiva entrar em conflito com as tradições budistas/xintoístas estabelecidas e a ênfase cultural na conformidade.
A primeira aparição do cristianismo no Japão foi a chegada dos católicos portugueses em 1549. O missionário navarro Francisco Xavier chegou ao Japão com três convertidos católicos japoneses com a intenção de fundar uma igreja.
Os japoneses locais inicialmente presumiram que os estrangeiros eram da Índia e que o cristianismo era uma nova fé indiana. Essas impressões equivocadas deviam-se aos laços já existentes entre os portugueses e a Índia, cujo estado de Goa era uma base central para a Índia portuguesa na época.
Mais tarde, as atividades missionárias católicas foram realizadas exclusivamente por jesuítas e ordens mendicantes, como os franciscanos e dominicanos. Francisco e a ordem jesuíta eram, à princípio, bem vistos, e seus esforços parecem ter sido recompensados com uma próspera comunidade de convertidos.
Foi aí que a coisa começou a degringolar para o cristianismo. No batismo, esses convertidos recebiam nomes cristãos portugueses e eram forçados a adotar hábitos culturais ocidentais. Essa prática contribuiu para as suspeitas de que os convertidos eram, na realidade, agentes estrangeiros trabalhando para subverter a ordem social local.
Foi assim que surgiu o medo da ameaça política e da colonização. Governantes como Toyotomi Hideyoshi e o Xogunato Tokugawa viam o cristianismo como um veículo para o imperialismo ocidental, temendo que os cristãos japoneses ajudassem as potências estrangeiras a conquistar o Japão.
A mensagem cristã de lealdade a Deus em detrimento dos governantes terrenos era vista como uma ameaça à autoridade divina do Imperador e ao poder do Xogunato, representando uma ameaça à unidade nacional.
O monoteísmo e as reivindicações exclusivas do cristianismo entraram em conflito com as tradições sincréticas do xintoísmo e do budismo no Japão, e sua estrangeiridade contrastou com as crenças nativas.
Uma grande revolta camponesa, a Rebelião de Shimabara, em parte alimentada por queixas e opressão contra os cristãos, consolidou a determinação do governo em erradicar o cristianismo, resultando em massacres e controles mais rigorosos.
Durante o período Edo, o Japão implementou políticas para limitar a influência estrangeira, isolando ainda mais os cristãos e cortando seu apoio.
O cristianismo público foi efetivamente erradicado no século XVII por meio de perseguição extrema como martírios e apostasia forçada.
Um remanescente dos "cristãos ocultos" praticou sua fé secretamente por séculos, transmitindo as tradições oralmente.
Embora o cristianismo tenha ressurgido após a reabertura do Japão, permaneceu uma pequena religião minoritária, enfrentando obstáculos socioculturais e o provérbio persistente: "Prego que se destaca leva martelada", refletindo o valor que o Japão atribui à conformidade.
Ainda hoje há uma percepção contrária dos japoneses em relação ao cristianismo. Baseado no desafio filosófico que tem sido debatido por teólogos e leigos em todo o mundo há séculos, eles acham que o Deus cristão é contraditório por ser misericordioso e vingativo ao mesmo tempo.
Realmente é um pouco esquisito conceber que conceitos de misericórdia divina e vingança são reconciliados dentro da estrutura cristã através de ideias de justiça, santidade e da crença de que as ações de Deus são, em última análise, justas, mesmo quando envolvem julgamento.
Também lhes parece confuso que existam os 10 Mandamentos instruindo a "não matar ou roubar", quando existe o conceito de lei natural, que postula que os humanos possuem uma bússola moral ou consciência inata, permitindo-lhes discernir o certo do errado fundamental sem revelação escrita específica.
Lógico, nesta visão, o propósito dos 10 Mandamentos não é introduzir conceitos morais totalmente novos, mas fornecer autoridade divina clara e explícita, ainda que uma proibição divina clara e autoritária.
Seja como for, a bússola moral dos brasileiros perdeu totalmente o seu norte. Segundo o Mapa da Segurança Pública o Brasil registrou, em 2024, 35.365 vítimas de homicídios dolosos, frente a 37.754 em 2023.
Em contrapartida, em 2023, o Japão registrou um total de 285 homicídios intencionais. O Japão mantém historicamente uma das taxas de homicídio mais baixas do mundo devido às suas leis rígidas e cultura, com uma taxa de cerca de 0,3 assassinato por 100 mil habitantes.
Os japoneses de fato devolvem grandes quantidades de dinheiro e pertences perdidos,
Um fenômeno notável que reflete a forte cultura japonesa de honestidade é a devolução de achados e perdidos no país. Todos os anos, bilhões de ienes são entregues à polícia em todo o Japão.
Em 2023, a polícia japonesa registrou um recorde de aproximadamente 22,8 bilhões de ienes (cerca de R$ 146,6 milhões) em dinheiro achado e entregue.
Uma parte significativa desse dinheiro é devolvida aos seus donos. Em alguns casos, como após o tsunami de 2011, as taxas de identificação e devolução de valores em cofres e carteiras chegaram a 96% e 85%, respectivamente. Itens como celulares têm quase 100% de chance de serem devolvidos, pois o sistema é muito eficiente.
O Japão possui uma lei de achados e perdidos que existe há mais de mil anos. O sistema conta com as pequenas delegacias de bairro, chamadas kōban, que servem como pontos de coleta convenientes para itens perdidos, facilitando o processo de devolução.
A prática de devolver itens perdidos é profundamente enraizada na cultura japonesa. Desde a infância, as crianças são ensinadas a devolver o que não lhes pertence. A honestidade é um valor moral fundamental.
Há uma expectativa social muito alta de comportamento honesto. Ficar com um item perdido é incomum e malvisto.
A lei de Bens do Japão estabelece que qualquer pessoa que encontre dinheiro deve entregar à polícia. Com isso, tem o direito de receber uma recompensa de 5 a 20%. E se ninguém reclamar em 3 meses, a pessoa que achou tem direito ao total.
Por outro lado, em países de terceiro mundo ou de ordem social mais permissiva é comum lermos manchetes de que fulano ou cicrana, geralmente funcionários de um serviço suplementar, devolveu determinada quantia que ele achou em algum lugar, como se isso fosse um grande mérito.
Com efeito, achado não é roubado, mas no Brasil não devolver o que foi encontrado também é um crime chamado de "apropriação de coisa achada". Ademais, por lei, quem devolve a coisa achada tem direito a uma recompensa de 5%.
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