![]() | É difícil explicar por que amamos o passado enquanto vivemos na "melhor época para se estar vivo". Isso exige reconhecer que nossos cérebros são essencialmente máquinas defeituosas que preferem uma mentira aconchegante à verdade fria, dura e em alta definição. Segundo a neuropsicologia, a nossa mente não foi projetada para ser um arquivo histórico fiel, mas sim uma máquina de sobrevivência e conforto. A nostalgia que sentimos, mesmo vivendo em uma época com avanços tecnológicos e de saúde sem precedentes, é fruto de mecanismos cerebrais que priorizam emoções em detrimento da precisão factual. |

De fato, nossos cérebros são péssimos em guardar lembranças. Quando olhamos para trás, o cérebro faz uma edição rápida e automática: apaga os inconvenientes da internet discada, que caía quando alguém ligava, o cheiro de cigarro por todo canto e a espera de uma determinada música começar a tocar no rádio para que pudéssemos gravar e torcer para que o "corno" do locutor não falasse no meio da música.
Basicamente, estamos olhando para nossas vidas mediante um filtro desfocado do Instagram, enquanto o presente está em uma resolução 8K desconfortavelmente nítida.
O passado parece melhor porque sobrevivemos a ele. Lembramos da diversão, mas esquecemos o sofrimento. É como olhar para trás e lembrar de um acampamento com os amigos em que choveu por três dias, a ventania arrastou a barraca um par de vezes, você foi devorado pelos insetos, teve intoxicação alimentar e, na barraca ao lado, tocavam música brega no talo, mas tudo o que você diz aos seus amigos é:
- "Lembram daquela vez no Itaguaré quando desafiamos o pico 3 vezes (e vencemos)? Nos divertimos muito!"
A nostalgia muitas vezes é apenas um código para "Eu era mais jovem e tinha menos problemas de coluna, vista cansada, dor nos joelhos..."
As pessoas não sentem falta dos anos 80 ou 90; elas sentem falta do metabolismo de 20 anos, da possibilidade de dormir babando no sofá e de não ter responsabilidades financeiras.
Sempre acabamos confundindo a qualidade da nossa juventude com a qualidade da época em que vivemos.
O presente é aterrador porque é imprevisível e de alto risco. O passado é reconfortante porque você já sabe como ele termina.
Ah, a Guerra Fria? Sim, assustadora, mas com certeza não destruímos o mundo! Hoje um descompensado "tio do blefe" e inimigo da sanidade pode apertar um botão e transformar a Terra em uma nuvem radioativa em forma de cogumelo, contaminando a área por décadas e causando destruição em massa e mortes por vaporização, esmagamento, queimaduras e doenças.
Saber que você sobreviveu ao passado faz com que ele pareça mais seguro do que o presente, mesmo que, logicamente, isso não faça sentido.
Olhar para trás é seguro. O passado já aconteceu, ninguém vai lançar uma atualização de software que vai quebrar o seu satisfatório prefácio de frases :
- "Sabe antigamente...?"
O passado é estático, previsível e não exige que você aprenda uma nova dancinha do TikTok a cada semana.
Quando o presente parece opressor, nosso cérebro entra em modo de "conforto". Maratonamos séries antigas, ouvimos músicas da época da universidade e compramos discos de vinil caros porque isso nos faz sentir seguros e acolhidos.
É um sinal emocional de "não perturbe", que nos permite escapar por um instante das loucuras e medos cotidianos.
Hoje, se você quiser assistir a um filme, passa 45 minutos zapeando o catálogo da Netflix até desistir e cair babando nos braços do gostosão do Morfeu.
No passado, você tinha um filme riscado e velho na locadora ou duas opções na TV com dependência da quantidade de Bombril na antena. A escassez era um alívio disfarçado de limitação. É mais fácil ser feliz quando a escolha é "isso ou nada".
Hoje você tem trocentas fotos no celular que dificilmente olha ou nunca nem viu algumas. Antes eram 24 fotos físicas, 2 queimadas e 9 borradas ou tremidas, mas que se tornaram tesouros.
Hoje temos música em streaming infinito, mas simplesmente não sabemos o que ouvir, diante de tanta porcaria decorrente da industrialização da produção, focada em algoritmos de streaming e vídeos curtos, que resultam em composições mais simples, repetitivas e genéricas. Antes, uma fita K7 gravada do rádio com a voz do "corno" do locutor no meio.
Hoje, a mulher do GPS te xinga se você entrar na rua errada. Antes, um mapa gigante de papel que uma vez desdobrado não dobrava mais, pelo menos não da forma correta.
Hoje, aplicativos monitoram cada batida do seu coração. Antes: "Passa Merthiolate que sara", mesmo que descolasse o corpo da alma. De fato, o mundo passou a "dar merda" quando o Merthiolate parou de arder.
Amamos o passado porque é um filme de ficção lindamente editado no qual atuamos, enquanto o presente é um reality show, sem roteiro e de alta pressão.
No fim das contas, gostamos do passado porque ele é o único lugar onde ainda somos jovens e onde as coisas eram "simples", principalmente porque não éramos nós que pagávamos os boletos.
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