![]() | Se há algo em que os brasileiros são bons, é em pegar um prato tradicional amado e sagrado de outro país, dizer "que bonitinho!" e transformá-lo em uma obra-prima caótica e hipercalórica que faria um chef italiano rogar desesperadamente por "seus sais". A culinária brasileira não é apenas sobre comer; é sobre... reinventar as regras culinárias, muitas vezes usando a filosofia de "se tiver um gosto bom, adicione catupiry". O jeitinho brasileiro na cozinha é basicamente um esporte radical de apropriação cultural gastronômica. |
1. O massacre da pizza italiana

Na Itália, a pizza é simples: massa, tomate, mussarela e manjericão. No Brasil -especificamente em São Paulo- a pizza é uma tela em branco para a loucura.
Nós colocamos de tudo na pizza. Estamos falando de ovos fritos inteiros, milho em lata, ervilhas, palmito, estrogonofe (com batata palha em cima), um frango inteiro e meio quilo de catupiry.
A mais cruel das loucuras: pizzas de sobremesa. Chocolate, leite condensado, abacaxi, banana e morango são normais. Imagine uma pizza coberta com sorvete e calda de chocolate, um verdadeiro delírio culinário.
Atenção: um bom brasileiro sempre come pizza com faca e garfo, nunca com as mãos.
2. A "traição" do sushi

Imigrantes japoneses trouxeram o sushi para o Brasil, mas os brasileiros decidiram que ele precisava de um toque mais... tropical.
O erro já começa fritando sushi em óleo abundante. Colocar catupiry em tudo (sim, de novo). Cobrir o sushi com molho de soja, manga e, às vezes, geleia de frutas.
Pra que fazer isso, gente? É uma mistura de doce, salgado e crocante que, honestamente, é viciante, mas que faz os mestres tradicionais do sushi chorarem de raiva.
3. A "reinterpretação" do estrogonofe

O estrogonofe russo é tipicamente feito com carne bovina flambada e smetana, um creme de leite azedo rico em gordura e usado em pratos eslavos.
Alternativamente, pode ser feito com carne bovina, caldo, creme de leite e mostarda, acompanhado de macarrão.
O brasileiro olhou para a receita e decidiu que o que faltava era carne de frango (não carne bovina), creme de leite fresco (ou catupiry), ketchup e mostarda para dar cor, e uma montanha de batata palha para dar crocância, acompanhado de arroz e salada de alface.
Este é um dos pratos que, guardadas as devidas exceções e exageros, até os russos gostam mais do que o que eles fazem.
A curiosidade é que todo cozinheiro de primeira viagem diz com ar professoral que o molho não pode ferver senão talha. E daí? Só talha na aparência, mas o gosto é o mesmo.
4. Excesso de cachorro-quente

Os americanos achavam que tinham inventado o cachorro-quente, com pão, salsicha e talvez um fio de mostarda. No Brasil, o "dogão" é uma refeição completa equilibrada em um pão.
Ele inclui salsicha (duas no prensadão), ketchup, mostarda, maionese, milho verde, ervilha, bacon, queijo ralado, purê de batatas, batata palha e mais maionese.
5. A bizarrice do abacate doce

Na maioria dos países, o abacate é usado em pratos salgados, como guacamole e torradas. Nós comemos abacate batido com leite (ou limão) e açúcar, na forma de batida.
Para um estrangeiro, isso é um crime contra a natureza. Para um brasileiro, a vitamina de abacate é uma sobremesa deliciosa e cremosa.
Há uma explicação para isso, no entanto: uma combinação de fatores botânicos, coloniais e culturais que divergiram das saborosas tradições de influência asteca do México e da América Central.
Os abacates brasileiros são geralmente variedades grandes e tropicais (como Fortuna ou Margarida) que são menos oleosas, mais aguadas e têm um sabor mais suave e menos amendoado em comparação com o abacate Hass, menor e mais gorduroso, predominante em pratos salgados internacionais.
Essas variedades grandes são ideais para serem batidas em smoothies cremosos e espessos ou amassadas em sobremesas.
A influência portuguesa no Brasil introduziu um alto consumo de açúcar e laticínios, que eram comumente combinados com diversas frutas tropicais. A textura cremosa e neutra do abacate local o tornou uma base natural para sobremesas, de forma semelhante ao seu uso em outras partes do mundo.
Embora o abacate amassado doce com limão e açúcar continue sendo um clássico, os hábitos de consumo estão mudando, com preparações salgadas como torradas e saladas ganhando popularidade devido à introdução da variedade Hass e às tendências de alimentos mais saudáveis, os chamados "superalimentos".
6. O pão francês, a torta holandesa e o pastel japonês são falsos estrangeiros.

Muitos pratos que juramos ser internacionais são invenções 100% brasileiras.
Na França não existe pão francês, que é uma tentativa brasileira bem-sucedida de copiar a baguete em tamanho menor.
A famosa torta holandesa foi criada em Campinas. O nome é apenas uma homenagem à Holanda, país que a criadora amava. Se você pedir essa torta em Amsterdã, receberá um olhar confuso.
O pastel-de-feira ou pastel-de-vento é uma invenção brasileira criada por imigrantes asiáticos (japoneses e chineses) na década de 1940, no estado de São Paulo.
Embora tenha raízes em pratos asiáticos, o formato e o sabor são adaptações locais. O pastel surgiu como uma adaptação dos bolinhos de massa como os rolinhos primavera (harumaki) chineses e do gyoza japonês.
Os imigrantes adaptaram a massa e os recheios para agradar ao paladar brasileiro, utilizando ingredientes mais acessíveis na época, como carne moída, e adicionando cachaça à massa para deixá-la mais crocante.
Outra curiosidade é que devia se chamar pastel-chinês, porque nos anos 40 a grande maioria das pastelarias era chinesa, mas com o advento da Segunda Guerra Mundial, imigrantes japoneses no Brasil sofreram preconceito. Para se disfarçarem e evitar xenofobia, muitos deles começaram a se passar por chineses e abriram pastelarias, popularizando a iguaria.
Qual é o ingrediente secreto da cozinha brasileira? O "arruinamento" desses pratos geralmente se resume a duas coisas: catupiry e leite condensado. Se não for possível consertar com um, com certeza será possível consertar com outro.
No fim das contas, embora os puristas tradicionalistas possam torcer o nariz, os brasileiros criaram uma cultura culinária que grita "mais é mais", resultando em algumas das misturas de comida mais, digamos, interessantes do mundo!
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