![]() | Ragnar Lothbrok, Lagertha, Bjorn, Floki, Rollo e companhia nos mostraram que escandinavos medievais com capacetes de chifre devastaram a Europa, rabiscando runas misteriosas, roubando igrejas, matando padres e brindando suas vitórias em cálices forjados em crânios inimigos antes de se despedirem em funerais com fogo. Só que não foi bem assim. Os vikings não eram seres endemoniados sem mente, como frequentemente são retratados em filmes e na televisão. Embora fossem, sem dúvida, guerreiros ferozes que realizavam incursões brutais, eram seres humanos complexos com uma cultura sofisticada. |

A percepção dos vikings como demoníacos deriva, em grande parte, de cronistas cristãos que foram vítimas de seus ataques e, posteriormente, do romantismo do século XIX e do entretenimento moderno, que exageraram sua brutalidade para criar um efeito dramático.
Não se sabe ao certo de onde veio a palavra "viking", mas em nórdico antigo, aparentemente, se referia a um ato de saque vindo do mar.
Historiadores por muito tempo atribuíram o início da Era Viking a uma emboscada brutal a um mosteiro inglês em 793 d.C., que a Crônica Anglo-Saxônica descreveu como um ataque de raios, "dragões de fogo" e "homens pagãos".
A descoberta mais recente de artefatos escandinavos em um sítio arqueológico na Estônia sugere que a atividade viking começou décadas antes.
Mas, seja qual for o início preciso no século VIII, ela persistiu pelos próximos 300 anos.
Não sabemos exatamente o que motivou toda essa atividade viking. Mas a atividade vulcânica em meados do século VI desencadeou uma mini Era do Gelo que desestabilizou a Escandinávia.
Sua sociedade tornou-se cada vez mais militarizada e, como muitos povos guerreiros, os chefes locais legitimavam seu domínio por meio da troca de presentes.
Assim, expedições para acumular riquezas pilhar propriedade alheia ajudavam a manter a autoridade. Enquanto isso, novas tecnologias de navegação permitiram que dracares navegassem tanto em rios rasos quanto em oceanos abertos.
A maioria dos escandinavos não participava diretamente, mas os ataques vikings podiam oferecer aos jovens a oportunidade de roubar riquezas para comprar terras e casar. Esses ataques eram inquestionavelmente violentos e brutais, o que mais que justificam o relatos sobre seus ataques.
Mas os vikings não usavam os crânios de suas vítimas como cálices, embora isso tenha sido registrado na história através do Xá Ismail da Pérsia.
Em 1510, Ismail matou Muhammad Shaybani, fundador do Império Shaybanida onde está localizado hoje o Uzbequistão, em batalha. O Xá mandou desmembrar o corpo do inimigo e as partes foram enviadas para várias regiões do império para serem exibidas, enquanto o crânio foi revestido de ouro e transformado em um cálice cravejado de joias para uso pessoal do Xá.
Esse mito provavelmente surgiu quando um estudioso dinamarquês do século XVII, chamado Ole Worm, traduziu erroneamente uma referência a chifres de animais.
Além de matar, as invasões vikings também envolviam capturas em massa. Os vikings escravizavam e vendiam pessoas para redes de tráfico humano ou as enviavam para trabalhar na Escandinávia e suas colônias, como foi o caso de muitos cativos irlandeses na Islândia.
Com o tempo, ataques em pequena escala a comunidades costeiras vulneráveis evoluíram para cercos a cidades. Acampamentos temporários se transformaram em comunidades permanentes; e as redes comerciais se espalharam ainda mais.
Chefes escandinavos da era viking podem ter bebido vinho alemão em copos egípcios, enquanto vestiam sedas chinesas e pedras preciosas indianas. Mas eles não usavam capacetes com chifres.
Essa imagem foi popularizada em produções teatrais do século XIX, especificamente em "O Anel do Nibelungo", de Richard Wagner, um relato épico e mitologizado da história germânica.
Embora arqueólogos tenham encontrado capacetes escandinavos com chifres, eles são 2.000 anos mais antigos que os vikings e provavelmente eram usados em rituais, não em batalhas.
Em vez disso, vikings de alto status podem ter usado capacetes de ferro com pontes frontais, enquanto outros usavam gorros de couro. E não temos certeza se esses guerreiros eram sempre homens.
Em 1878, pesquisadores escavaram restos mortais em um túmulo, posteriormente interpretados como pertencentes a uma guerreira de alto status, que uma análise de 2017 descobriu ser do sexo feminino.
A sociedade viking era inegavelmente patriarcal, mas descobertas como essa indicam nossa compreensão incompleta das complexidades sociais envolvidas.
Quanto aos costumes funerários, o viajante árabe do século X, Ibn Fadlan, registrou ter testemunhado um funeral com barco em chamas ao longo do Volga, no entanto, não está claro se eram, de fato, vikings, e o evento ocorreu em terra, sem flechas em chamas e com violência sexual e sacrifício humano.
Representações populares de funerais vikings provavelmente são invenções modernas. Os vikings não pareciam ter uma única prática funerária, e tanto enterravam quanto cremavam seus mortos.
Em relação às runas, os povos germânicos começaram a escrevê-las por volta do século II.
Elas passaram a ser usadas para conectar os mundos físico e espiritual, e também para assuntos mais mundanos.
Embora algumas façam referência a eventos passados, as runas da Era Viking geralmente não registravam narrativas detalhadas.
O nórdico antigo só se tornou uma língua literária depois que estudiosos islandeses cristianizados adotaram o alfabeto latino por volta do século XII.
Portanto, os relatos da Era Viking geralmente se originam de vítimas traumatizadas e pessoas de fora da cultura viking, o que limita nossa compreensão de como os vikings entendiam a si mesmos e ao seu mundo.
A Era Viking é tradicionalmente considerada como tendo terminado em 1066, com uma batalha vencida pelas tropas inglesas, embora algumas incursões tenham continuado.
Na Escandinávia, o poder se deslocou para monarquias cristãs centralizadas e conquistas patrocinadas pelo Estado, como as Cruzadas.
Enquanto isso, a diáspora escandinava floresceu na Islândia e se integrou a outras sociedades europeias. Durante séculos, o termo "Viking" permaneceu sem uso, até que, na década de 1800, o nacionalismo varreu a Europa e as pessoas começaram a invocá-lo para evocar um passado germânico romantizado e compartilhado.
Esse mito persiste até hoje, mesmo com novas descobertas revelando o quão pouco sabemos sobre o mundo viking, e figuras que antes pareciam certas desaparecem na densa névoa do tempo.
Ok, os vikings não usavam capacetes com chifres e nem tinham taças de crânios. E provavelmente nenhum deles está festejando e bebendo em Valhala, senão que queimando no colo de Hel no inframundo de Helheim.
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