![]() | Nas montanhas áridas e ao longo das antigas rotas de caravanas do sul do Marrocos, ergue-se uma série de estruturas fortificadas que outrora protegiam os bens mais preciosos de uma comunidade. Conhecidos como igudar (singular agadir), esses antigos celeiros estão entre as tradições arquitetônicas mais singulares do Magrebe (noroeste de África). Embora por vezes se considerem uma variante dos alcáceres (ksour; singular: ksar), na prática a distinção tem mais a ver com o local geográfico e o nome dado localmente do que com as funções específicas. |

A palavra agadir vem da língua amazigh (berbere) e significa simplesmente "muro" "cidadela" ou "fortaleza", daí o nome da cidade homônima, antiga colônia portuguesa Santa Cruz do Cabo de Gué.
Construídos de pedra, terra compactada ou tijolos de barro, muitas vezes erguidos no topo de colinas ou afloramentos rochosos, esses celeiros comunitários foram projetados para resistir tanto à seca quanto aos invasores.

O clima do sul de Marrocos, particularmente em regiões como o Anti-Atlas e o Vale do Sous, sempre foi caracterizado por chuvas irregulares.
Boas colheitas nunca eram garantidas. Grãos, amêndoas, figos secos, mel, azeite e outros produtos agrícolas eram armazenados dentro do agadir, protegidos por grossas muralhas defensivas e pesadas portas de madeira.

Além disso, os habitantes locais também guardavam seus tesouros pessoais, como joias, tapetes e documentos importantes. Em tempos de fome ou conflito, o agadir podia representar a diferença entre a sobrevivência e a inanição.
O sul de Marrocos outrora ocupava uma posição estratégica em importantes rotas comerciais transsaarianas, ligando a África subsaariana a cidades como Marrakech.

Embora os celeiros fortificados fossem principalmente instituições locais, o contexto comercial mais amplo moldou sua importância. O comércio trazia tanto prosperidade quanto riscos.
O excedente de mercadorias e as caravanas de passagem atraíam saques. Assim, o celeiro fortificado tornou-se uma resposta prática tanto à oportunidade econômica quanto à insegurança.

Um agadir assemelha-se a uma fortaleza compacta. Muitos são complexos retangulares com uma única entrada fortificada. No interior, fileiras de pequenas câmaras semelhantes a celas são empilhadas em camadas ao longo das paredes internas. Cada compartimento pertencia a uma família específica e era trancado com sua própria fechadura, frequentemente um mecanismo de madeira belamente esculpido, exclusivo da região.
Um dos exemplos mais bem preservados é o Agadir Inoumar, dramaticamente situado no topo de uma colina rochosa. Outro local impressionante é o Agadir Tasguent, cuja estrutura de vários níveis se ergue quase como um bloco de apartamentos à beira de um penhasco, feito de celas de armazenamento.

As técnicas de construção foram adaptadas à paisagem. Nas áreas montanhosas, a pedra era abundante e as paredes eram grossas e imponentes.
Nos vales mais baixos, os construtores dependiam mais da taipa de pilão, uma técnica milenar de construção sustentável que consiste em compactar terra úmida (argila, areia e pedras) dentro de formas de madeira (taipais) com um pilão, criando paredes estruturais, densas e resistentes.

Ambos os métodos de construção, têm alta inércia térmica, durabilidade secular e baixo custo. Apesar da simplicidade dos materiais, muitas casas de agadir resistiram ao tempo por séculos.
Cada celeiro funcionava sob um código rigoroso, muitas vezes supervisionado por um guardião nomeado pela aldeia, que vivia em um quarto do próprio agadir.

As regras determinavam quando os depósitos podiam ser abertos e como as mercadorias eram retiradas. Alguns Igudar até incluíam uma pequena mesquita ou espaço para oração dentro do complexo.
O celeiro também funcionava como uma espécie de banco rural ancestral. As famílias depositavam o excedente nos anos bons e retiravam nos anos ruins. Como o acesso era regulamentado e controlado coletivamente, o sistema dependia da confiança mútua e da responsabilidade compartilhada.

Os igudar estão ameaçados de desaparecimento por um conjunto de fatores, nomeadamente o abandono devido às secas e à emigração.

Uma grande parte dos construídos em taipa estão desmoronados devido aos fatores climáticos. Sem conservação, as paredes de barro são levadas pelas chuvas que, embora raras, podem ser muito fortes.

Há alguns esforços de preservação por parte de associações locais e projetos de restauração, nomeadamente para os explorar turisticamente.
Alguns ainda são utilizados e geridos nos moldes tradicionais por comunidades locais onde essas construções ainda são importantes.
Em Aït Kine, uma vila oásis na orla de um dos vales mais ao sul do Anti-Atlas, o agadir local ainda funciona. Os moradores o utilizam para armazenar colheitas, joias e textos familiares. Muitos eventos sociais e religiosos, como casamentos e encontros familiares, ainda são realizados dentro das paredes de taipa do agadir.
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