![]() | - "Quem sou! Para onde vou? O que aconteceu? Como cheguei aqui?", estas indagações logo após acordar com uma tremenda dor de cabeça e um gosto amargo de cabo de guarda-chuva na boca não são incomuns entre os bebedores inveterados -às vezes nem tanto-, na verdade indicam que o sujeito sofreu um blecaute alcoólico: uma perda de memória temporária, especificamente causada pelo consumo excessivo de bebidas alcoólicas, que ocorre mais comumente em indivíduos que bebem com o estômago vazio e que afeta principalmente idosos e mulheres. |

Bem, se você se identificou com o prefácio é bem possível que já tenha sofrido um apagão alcoólico e igualmente há grandes probabilidades que passe por outro perrengue como esse, apesar de que na última vez tenha prometido para São Cirrose ou São João da Barra que nunca mais colocaria uma dose de álcool na boca. De forma que o melhor é que saiba o que ocorre na química cerebral quando o álcool apaga sua memória.]
Imagine que o seu cérebro é um cineasta premiado. Em uma noite de bebedeira excessiva, esse cineasta decide que está cansado, larga a câmera no chão, apaga as luzes do estúdio e vai embora, mas deixa os atores (você e seus amigos) improvisando no palco por mais cinco horas.
O blecaute alcoólico é exatamente esse vácuo na edição. Você não desmaiou; você estava lá, conversando sobre física quântica (ou tentando pedir uma coxinha), mas o seu "disco rígido" parou de gravar. É por isso que o blecaute é o único fenômeno capaz de realizar a Teletransportação Humana: você fecha o olho encostado no balcão do bar às 2h.
Nem todos os blecautes são iguais. Há dois tipos: "em bloco" e "fragmentado". O fragmentado acontece quando a pessoa perde a memória de maneira intermitente, enquanto o apagão "em bloco" se refere a perder as lembranças de períodos muito longos de tempo.
Quem experimenta o primeiro tipo, geralmente pode recordar os eventos esquecidos quando alguém conta todos os micos que cometeu. Os que experimentam o segundo tipo, não. Mas pesquisas indicam que ambos são provocados pela mesma causa, uma interrupção química no hipocampo cerebral, a região integral da formação da memória.

O álcool interfere nos receptores no hipocampo que transmitem glutamato, um composto que, por sua vez, transmite sinais entre os neurônios. Durante esta interferência, o álcool faz com que alguns receptores deixem de funcionar enquanto ativa outros. Este processo acaba fazendo com que os neurônios criem esteroides que privam a comunicação adequada entre os mesmos, o que interrompe a potenciação de longa duração, um processo associado com a aprendizagem e a memória.
Em termos mais simples, o efeito é similar à amnésia anterógrada na qual o cérebro perde a habilidade de criar novas memórias.
Você abre o olho na sua cama às 10h, babando em um pé de sapato e com um McLanche Feliz intocado ao lado. O que aconteceu no meio?
Ninguém sabe. Você acorda no modo "CSI Ressaca", examinando faturas do cartão de crédito e mensagens enviadas no WhatsApp para descobrir se você ainda tem um emprego ou se declarou amor eterno ao seu ex (ou ao porteiro).
- "Coma alguma coisa antes de beber menino!", os conselhos de mamãe, advindos do senso comum, não poderiam estar mais certos. Estar com o estômago cheio ajuda a prevenir esta incômoda consequência da embriaguez, já que não comer provoca que o nível de álcool no sangue aumente mais rapidamente.
Também é importante beber mais devagar, virar a tulipa toda em uma só golada é coisa de viking e, ademais, estudos mostram que a principal causa desta perda de memória é um pico dramático no nível de álcool no sangue, que ocorre quando um nível de álcool de ao menos 0,15% é alcançado rapidamente.

Para as mulheres e idosos pode ser mais difícil evitar blecautes porque têm menos água em seu corpo, assim como também tem menos desidrogenase gástrica, uma enzima crucial para o metabolismo do álcool.
O fisiologista, e pesquisador do alcoolismo E. Morton Jellinek, que começou uma pesquisa importante a respeito dos apagões em 1940, achava que estes eram um claro sinal de dependência alcoólica. Estudos mais recentes indicam que nem sempre é o caso, os bebedores sociais podem sofrer blecautes tanto quanto aqueles que bebem quantidades copiosas diariamente. Basicamente tudo se deve a um incremento abrupto do nível do álcool no sangue, no entanto também poderia se tratar de uma predisposição genética.
Para os que se preocupam pelo cuidado cerebral, os apagões devem ser pensados como um assunto muito sério, já que se o indivíduo insistir na bebedeira e tiver vários episódios de apagão, a situação pode vir a complicar-se e evoluir para a síndrome de Korsakoff, que afeta a memória do presente, passado e até de compromissos futuros, aumentando a possibilidade de um dano cerebral permanente.
O tratamento para esta síndrome pode fazer com que a amnésia passe, mas a memória perdida, nunca será recuperada.
Pronto! Agora não há mais motivos para acordar de ressaca, desmemoriado e sem saber ao certo que dia é, que horas são e onde diabos você está, para dias depois dar a desculpa esfarrapada que o episódio adveio da mudança de cerveja. (Sei!
)
Agora, falando sério (ou o mais perto disso que um cérebro sem álcool consegue): o blecaute não é apenas uma "história engraçada para contar no grupo"; é um sinal de que você deu um curto-circuito no seu hipocampo.
O que realmente acontece é que o excesso de álcool bloqueia a capacidade do cérebro de criar novas memórias de longo prazo. Você vira um computador rodando sem memória RAM: as informações entram, mas não são salvas.
Quando você está em blecaute, seu julgamento e seu instinto de preservação foram para o espaço. Você está vulnerável a acidentes, situações de risco e decisões que podem mudar sua vida permanentemente, e você nem terá a "gentileza" de lembrar como chegou lá. Por isso a primeira reação que ocorre quando seu cérebro volta à luz é de susto, terror e de um grande desconforto:
- "Que merda eu aprontei? Será que matei alguém?"
Como dissemos parágrafos acima, se os blecautes estão se tornando frequentes, não é "resistência", é um grito de socorro do seu sistema nervoso central. O consumo abusivo de álcool destrói neurônios, acaba com o seu sono de qualidade e pode levar a dependências sérias.
Álcool deve ser o acompanhante da diversão, não o autor do crime. Se você não lembra da festa, você não foi à festa; você apenas pagou a conta para o seu "Eu bêbado" passaDO vergonha por você.
Beba água entre os copos, coma algo substancial e saiba a hora de parar. Afinal, a melhor parte da história é conseguir contá-la no dia seguinte!
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