![]() | Em 1851, a Prússia vivia um período de reajuste político e diplomático após a turbulência das revoluções de 1848, com destaque para a consolidação de sua derrota diplomática perante a Áustria. Foi nesse contexto que intensificaram-se os movimentos migratórios, com registros de imigrantes prussianos e de outras regiões germânicas chegando a Joinville. A política interna da Prússia após as revoluções tornou-se bastante conservadora, com a repressão de movimentos liberais e a restrição de liberdades que haviam sido temporariamente conquistadas. |

Entre esses liberais estava Friedrich Wilhelm August Fröbel,que se dedicou de forma crítica e produtiva à pedagogia do filantropo, reformador social e educacional Johann Heinrich Pestalozzi.
O governo prussiano temia que a nova e "escandalosa' abordagem educacional de Friedrich Fröbel pudesse incitar a desobediência e levar a rebeliões camponesas.
O nome da escola de Friedrich? Jardim de Infância, cuja grade curricular "controversa" incluía canto e dança, jardinagem, pintura e brincadeiras.
O pedagogo alemão Friedrich concebeu o primeiro sistema de ensino para crianças abaixo de 7 anos, na época consideradas pequenas demais para frequentar a escola, porque ele acreditava que, se ensinados de formas criativas, os pequenos já poderiam absorver diversos conceitos.
Com esse fim, o prussiano desenvolveu o Fröbelgaben, um instrumental pedagógico baseado em formas geométricas. Traduzido para o inglês como gifts, para o espanhol como regalos e para o português como dons, esses brinquedos educativos coloridos eram baseados na ideia de serem como dádivas.
Isso carregava um duplo sentido: poderiam ser presentes dados às crianças e também instrumentos que permitiam aos adultos perceberem os dons infantis.
Sua filosofia era de que as crianças deveriam ser cultivadas nas formas de vida (natureza), conhecimento (ciência) e beleza (estética). Cada "dom abria possibilidades para esses três eixos de exploração.
Todas as atividades eram realizadas como brincadeiras. Essa pedagogia radical dos anos 1830 previu que brincadeira poderia ser uma valiosa ferramenta na educação infantil e partia do princípio de que o aprendizado deve ser calcado no interesse e não na obrigação.
A Prússia proibiu o Jardim de Infância, impondo um sistema rígido de salas de aula supervisionadas e aulas aprovadas pelo governo que separavam claramente o tempo de aprendizado do tempo de brincadeira. E, ao longo do século seguinte, o modelo prussiano inspirou sistemas de escolas públicas em todo o mundo.
No entanto, embora possa parecer tradicional agora, a crença de que brincar e aprender são incompatíveis é uma ideia relativamente recente. Antes dos últimos séculos, crianças em todo o mundo passavam a maior parte do tempo aprendendo por meio de brincadeiras: observando e imitando adultos, explorando seus arredores e compartilhando o que aprendiam com amigos e familiares.
Muitas comunidades e educadores ainda acreditam que a brincadeira é uma das melhores professoras que temos e adotaram diversas abordagens para manter vivo esse tipo de aprendizado autodirigido.
E hoje, as escolas Montessori. continuam a adotar o aprendizado baseado em brinquedos. Os brinquedos Montessori, ou materiais, como são chamados, são rigorosamente projetados para isolar e ensinar conceitos específicos.
Por exemplo, para aprender matemática, bebês e crianças pequenas podem explorar dimensões com cilindros de madeira grossos e, em seguida, desenvolver o raciocínio espacial com um conjunto de blocos rosa empilháveis.
Crianças maiores brincam com uma escada marrom para aprender sobre altura, enquanto uma série de barras vermelhas revela os segredos do comprimento e do equilíbrio.
Os professores guiam essa exploração suavemente, fazendo perguntas aos alunos e sugerindo atividades específicas para cada material, como organizar as barras em ordem de tamanho.
Mas as salas de aula Montessori também têm uma variedade de idades e uma baixa proporção de alunos por professor para incentivar os alunos a explorar os materiais juntos e aprender uns com os outros.
As escolas Reggio Emilia também oferecem objetos sensoriais para os alunos explorarem juntos, mas são especialmente focadas em permitir que os alunos direcionem seu próprio aprendizado.
Cada canto de uma sala de aula Reggio Emilia é projetado para recompensar a curiosidade, permitindo que os alunos sigam seus interesses e se expressem com uma variedade de ferramentas artísticas.
Mesmo quando os professores Reggio Emilia atribuem projetos formais, eles começam fazendo perguntas abertas aos alunos, desde como fazer um modelo de navio flutuar ou afundar até como decorar um ateliê de arte.
Em seguida, eles elaboram o projeto para explorar as suposições e os interesses dos alunos, integrando o currículo ao longo do processo.
Os céticos podem argumentar que a aprendizagem autodirigida permite que as crianças evitem as disciplinas pelas quais não têm tanto interesse, levando alguns alunos a ficarem para trás. Mas a maioria dessas escolas utiliza uma abordagem interdisciplinar para garantir que nenhuma disciplina seja deixada de lado.
Por exemplo, em escolas-laboratório baseadas em projetos, o dia pode começar com a resolução de um quebra-cabeça numérico e, em seguida, usar as respostas para compor uma peça musical ou uma obra de arte tridimensional.
Ao optar por explorar conceitos interligados por meio de múltiplos projetos, os professores podem mostrar diferentes aplicações práticas que tornam as ideias abstratas concretas e úteis.
Em todos esses modelos, dar mais autonomia aos alunos traz desafios. Crianças diferentes têm necessidades diferentes, portanto, os educadores precisam ser sensíveis e capazes de se adaptar.
Desde reorganizar a sala até redirecionar a atenção, os professores precisam responder a cada aluno, mantendo um ambiente seguro e lúdico para todos. Isso exige muita inteligência emocional, tempo de preparação e confiança tanto dos pais quanto da administração da escola, mas, para muitos educadores e alunos, o esforço vale a pena.
Uma análise de 2023 de mais de 30 estudos constatou que a educação Montessori superou as escolas tradicionais no aprendizado de linguagem e matemática, bem como no desenvolvimento da criatividade e das habilidades sociais.
E esses benefícios vão além da educação infantil. Muitas universidades estão migrando do ensino baseado em aulas expositivas para projetos de longo prazo e discussões em grupo.
Por exemplo, o programa "Jardim de Infância para a Vida Toda do MIT busca estender uma abordagem lúdica e que prioriza a criatividade para alunos de todas as idades, oferecendo-lhes uma variedade de ferramentas físicas e digitais para explorar, experimentar e se expressar.
Alguns estudantes de arquitetura e engenharia até usam os brinquedos especiais de Friedrich para aprimorar seus princípios de design e raciocínio espacial, mostrando que não são apenas as crianças que aprendem brincando e mitigando a frustração de adultos que se queixam sobre a aplicabilidade prática de conteúdos escolares na vida cotidiana.
Apesar das negações das autoridades de ensino prussianas, o primeiro jardim de infância do mundo foi fundado em 1840, na cidade de Bad Blankenburg, na Alemanha. A instituição foi criada por Friedrich, que cunhou o termo por defender que as crianças deveriam ser cuidadas e nutridas livremente, assim como plantas em um jardim.
No cenário brasileiro, a implementação dos jardins de infância ocorreu em etapas distintas através de iniciativas privadas e públicas. Em 1862, a professora Emília Erichsen fundou uma versão pioneira na cidade de Castro, no Paraná, aplicando as metodologias de Friedrich que conheceu na Europa.
Em 1875, ocorreu a fundação no Colégio Menezes Vieira, na cidade do Rio de Janeiro. Logo em seguida, em 1877, a Escola Americana adotou o modelo em São Paulo.
Em 1896, o modelo foi incorporado oficialmente à rede pública de ensino através do jardim de infância anexo à Escola Normal Caetano de Campos, na cidade de São Paulo.
Após o sucesso do modelo na Alemanha, o jardim de infância expandiu-se rapidamente pela Europa e Américas. Nos Estados Unidos, o formato foi integrado de forma definitiva como o primeiro ano oficial do ensino fundamental.
Como dá para imaginar, o legado de Friedrich é incalculável para o aprendizado de crianças no maternal, prezinho, pré-primário e jardim. O princípio por trás da concepção do jardim de infância e a ideia de que as crianças pequenas não só são capazes de aprender, mas de que essas aprendizagens devem ser cultivadas desde cedo de maneira lúdica, ainda se faz atual.
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