![]() | Quase todos os filhotes de animais emergem da mãe ou do ovo capazes de realizar as funções esperadas de sua espécie. Os mamíferos amamentam seus filhotes por um tempo, mas até mesmo gatinhos e cachorrinhos conseguem andar sozinhos com cerca de duas semanas de idade. Já os humanos são espetacularmente indefesos por um longo período. Eles não conseguem andar, falar, comer ou controlar a eliminação por alguns anos, e assim precisam de orientação e proteção. Por que temos uma infância tão prolongada e por que nossa altricidade é tão extensa? |

Em uma versão da história, Eva comeu o fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal e foi amaldiçoada a dar à luz bebês com cérebros grandes e com muita dor.
Essa versão não está muito longe da explicação científica, pois os humanos têm cérebros enormes em relação ao tamanho do corpo, e tivemos que transferir grande parte desse crescimento cerebral para depois do nascimento.
Não todo, é claro, como qualquer pai que fez a besteira de acompanhar o parto de seu filho pode confirmar -se não der o vexame de desmaiar antes do paro-, as mães humanas não sobreviveriam a um cérebro de bebê muito maior.
Isso significa que os humanos nascem relativamente prematuros em comparação com outros animais. Levar uma criança à maturidade é uma tarefa árdua, mas também tem suas vantagens.
Os bebês humanos são altamente altriciais (subdesenvolvidos e indefesos ao nascer), principalmente devido às demandas energéticas extremas para sustentar nossos cérebros enormes.
Embora a pélvis estreita e bípede crie restrições espaciais apertadas durante o parto, a evolução limita principalmente a gestação humana porque o metabolismo da mãe simplesmente não consegue mais sustentar o crescimento do feto.
No "dilema da encefalização", os seres humanos desenvolveram cérebros excepcionalmente grandes (encefalização) para suportar a cognição complexa. O cérebro de um bebê consome mais de 60% de sua energia em repouso.
Assim prolongar a gestação exigiria uma demanda de nutrientes e energia que excederia os limites fisiológicos e metabólicos do corpo da mãe. Portanto, o parto é induzido para proteger tanto a mãe quanto o bebê do colapso metabólico.
Devido a essa saída precoce, os bebês humanos nascem com cérebros que têm apenas cerca de 25% a 30% do tamanho que terão na fase adulta, permitindo que os 70% restantes do crescimento cerebral ocorram no ambiente externo altamente estimulante. Não é que os "bichinhos-de-goiaba" tenham olhos enormes, senão que têm a cabeça pequena.
Embora o metabolismo seja o principal relógio biológico, a pélvis e o canal vaginal são fatores limitantes evolutivos críticos que definem como isso acontece.
A pélvis humana teve que evoluir para ser estreita e em forma de tigela para suportar a marcha ereta e transferir o peso de forma eficiente. Um canal de parto mais largo e otimizado comprometeria nossa capacidade de andar e correr com eficiência.
Estudos biomecânicos indicam que, se o canal vaginal feminino fosse muito mais largo, isso comprometeria drasticamente a estabilidade do assoalho pélvico, levando a altas taxas de prolapso de órgãos e incontinência.
A intersecção de um canal vaginal estreito e um crânio fetal grande (as duas maiores mudanças evolutivas na linhagem dos hominídeos) torna o parto humano excepcionalmente difícil, demorado e doloroso em comparação com outros primatas.
O título de animal mais altricial pertence aos marsupiais, como cangurus, coalas e gambás. Eles nascem em um estágio tão inicial do desenvolvimento que são basicamente fetos, medindo cerca de 1 a 2 centímetros.
Eles nascem pelados, não têm pelos, são cegos, não possuem sistema imunológico maduro e precisam rastejar instintivamente até a bolsa da mãe para sobreviver.
Por que eles são os campeões da altricialidade? A gestação é relâmpago: em algumas espécies de cangurus, a gravidez dura apenas cerca de 33 dias. Em placentários, esse processo leva meses.
Ao contrário de humanos ou cachorros (que são considerados altriciais em comparação a cavalos), os marsupiais nascem praticamente sem órgãos formados.
Apenas os membros dianteiros (patas) e o aparelho bucal estão desenvolvidos o suficiente para permitir a subida até o marsúpio.
Eles completam todo o crescimento vital no interior da bolsa da mãe, sugando o leite materno por meses até estarem prontos para enfrentar o mundo exterior.
Já os animais mais precociais (que nascem em um estágio extremamente avançado de desenvolvimento, autônomos e independentes) são as aves da família de megapódios, como o peru-do-mato-australiano.
Eles são classificados como superprecociais por apresentarem características impressionantes ao nascer: cavam o próprio caminho para fora do monte, sem ajuda dos pais, como mostra o vídeo abaixo de um pintinho recém-nascido
Já nascem com os olhos abertos, corpo totalmente emplumado, garras fortes e coordenação para andar e forragear sozinhos e podem voar com desenvoltura apenas algumas horas depois que eclodem.
Eles são considerados o terror de jardineiros pois se portam como uma "draga" e arrasam hortas e jardins tão logo abandonam o ninho.
Entre os mamíferos, o destaque vai para os ungulados (como camelos, gnus, zebras e girafas), cujos filhotes conseguem ficar em pé minutos depois de paridos.
O camelo se levanta quase de imediato após cair no chão e girafinhas, após perceberem as próprias pernas, correm de forma desajeitada de um lado para o outro sem freio. É como se uma criança, logo após o nascimento, disparasse pela casa atropelando todos os móveis que encontra pela frente.
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