![]() | Ele é britânico, tem 31 anos e seu nome é Jacob Collier. Muito provavelmente 70% dos leitores do MDig estão perguntando: - "Quem???" Isso porque nosso leitor gosta de música. Em uma avaliação mais generalizada, acredito que 90% nunca nem ouviu falar de Jacob. Ele é um prato cheio para discussões sobre a indústria musical contemporânea, a transição do digital para o "mainstream" e a própria natureza do virtuosismo. Já te falei que ele recebeu 6 (SE-IS) Grammys. Como isso acontece? Eu tenho algumas teorias sobre o assunto que vou destrinchar neste artigo. |

No entanto, antes de ler este post, assista qualquer dos vídeos compartilhados para que possa entender o que estou falando e depois voltar correndo para ler todo o artigo sobre um gigante meio "invisível" para o grande público.
1. O "Estigma do YouTube" e a Linha de Produção da Mídia
A mídia tradicional e as grandes estruturas da indústria fonográfica operam sob um modelo do século XX: o artista precisa de um "descobrimento" oficial, de uma gravadora, de um single de rádio e de uma narrativa de superação ou mistério. Por aí temos porcarias como Bad Bunny constantemente no topo das paradas e ditando o som que toca em todos os lugares.
Quando um artista surge no YouTube, como Collier gravando no seu quarto em 2012, ou Whindersson no interior do Piauí, a validação vem direto do público, sem intermediários.
Para a elite da indústria, isso gera um preconceito velado. Eles tendem a categorizar o criador como um "fenômeno de nicho da internet" ou um "criador de conteúdo", e não como um Artista com "A" maiúsculo.
Algo mais ou menos o que aconteceu com o início dos blogs, quando "blogueiro" era um demérito. Na verdade ainda é... Rsssrs!
Efeito Algoritmo. Existe a falsa impressão de que a fama do youtuber é fruto de um truque de algoritmo ou de um momento viral passageiro, e não de talento bruto. No caso de Jacob, ele ganhou cinco Grammys nos seus primeiros quatro álbuns (com um detalhe: um Grammy por álbum, algo inédito), e mesmo assim a grande mídia o trata como uma curiosidade exótica.
O paralelo com Whindersson Nunes. Ambos quebraram a banca fora do sistema tradicional. No entanto, por terem começado na internet, a mídia parece exigir que eles provem seu valor constantemente em arenas tradicionais (seja o boxe/teatro no caso do Whindersson, ou as grandes orquestras no caso de Jacob) para serem levados a sério pelo establishment.
2. Artista Performático, Gênio Técnico e o Ouvido Absoluto
O ouvido absoluto dele é assustador, mas o que ele faz com isso vai além. Jacob não usa a música apenas como expressão sentimental tradicional -como um cantor de baladas-; ele usa a música como um laboratório de física quântica sonora.
Ele é, essencialmente, um multi-instrumentista e um arranjador brilhante. A voz dele é mais um instrumento no arranjo do que o foco principal de uma canção. Quando ele transforma a plateia de um show em um coro afinado em microtons dividindo o público em quatro seções, ele está fazendo performance, pedagogia musical e mágica ao vivo.
Ele desloca o eixo do show: o espetáculo não é ele cantando uma melodia bonita, é a complexidade da própria música acontecendo em tempo real onde o público é o protagonista.
3. Música para a "Elite" e Conhecedores: Por que parece tão nichado?
Esse é o grande paradoxo de Jacob Collier. Ele é profundamente democrático e carismático no palco, mas a música dele é incrivelmente difícil de digerir para o ouvido destreinado.
Isso acontece por alguns motivos claros. A música pop atual é construída sobre a repetição e a simplicidade -três ou quatro acordes previsíveis, ritmos fáceis-. Jacob trabalha com modulações de tom bizarras, acordes de cinco ou seis notas (extensões de jazz) e ritmos quebrados. Para o ouvinte comum, a música dele pode soar "poluída" ou sem um refrão claro para cantar no chuveiro.
Música para Músicos. Quem mais pira no Jacob Collier? Herbie Hancock, Quincy Jones (que o agenciou), Coldplay, Hans Zimmer. Ele é o músico que os seus músicos favoritos ouvem para aprender. Como a barreira de entrada para entender o que ele está fazendo (tecnicamente) é alta, seu público natural acaba sendo composto por estudantes de música, instrumentistas, entusiastas de jazz e a chamada "elite cultural".
Falta de "Apelo Popular de Massa". Ele não faz música para tocar em baladas ou para ser pano de fundo de vídeos curtos de dancinha. A música dele exige atenção plena, audição analítica. E no mercado de hoje, atenção plena é um artigo de luxo.
4. O Paradoxo de Collier
Como alguém pode ser abraçado pelos maiores gênios da história da música, empilhar Grammys e lotar arenas ao redor do mundo fazendo a plateia cantar em harmonias complexas, e ainda assim passar completamente batido pelo motorista de Uber ou pelo topo do Spotify?
A resposta está aí: ele é complexo demais para o pop, orgânico demais para o algoritmo atual, e rotulado demais pela sua origem digital.
No fim das contas, embora Collier já tenha conquistado mais do que a maioria dos artistas poderia esperar em toda uma vida, ele continua incansavelmente criativo.
Assim como Whindersson Nunes ele hoje é bilionário, mas tem planos para projetos futuros centrados em piano solo, orquestras e trilhas sonoras para o cinema, além de ter composto para um musical do West End, a ser lançado em breve, sobre a vida do cantor de ópera Luciano Pavarotti.
O MDig precisa de sua ajuda.
Por favor, apóie o MDig com o valor que você puder e isso leva apenas um minuto. Obrigado!
Meios de fazer a sua contribuição:
- Faça um doação pelo Paypal clicando no seguinte link: Apoiar o MDig.
- Seja nosso patrão no Patreon clicando no seguinte link: Patreon do MDig.
- Pix MDig: 461.396.566-72 ou luisaocs@gmail.com




Faça o seu comentário
Comentários