![]() | Faz alguns poucos dias publicamos um artigo em que explicávamos que o reflexo pilomotor (arrepio) é uma reação vestigial, originada na evolução de quando ainda éramos peludos. O que eu não sabia é que um pequeno grupo de pessoas, entre eles o amigo Zé Roberto Isabela, que deu a dica via e-mail, tem o "superpoder" de induzir arrepios conscientemente à vontade, um fenômeno raro conhecido tecnicamente piloereção gerada voluntariamente (PGV), confirmado por um estudo marcante publicado em 2018 na revista PeerJ. |

O folículo piloso de um mamífero se prende à pele por meio de um pequeno músculo. Quando esse músculo se contrai, o pelo se arrepia, a pele ao redor sofre uma distorção em forma de protuberância e, voilà: arrepios.
A PGV é bem estranha se levarmos em consideração que esses minúsculos músculos são controlados pelo sistema nervoso involuntário, então executá-los sob comando desafia as expectativas fisiológicas padrão.
Segundo estimativas informais, as mais conservadoras indicam que cerca de uma em cada 1500 pessoas possui PGV. O curioso é que a PGV não deveria existir. O fenômeno intriga e deixa os neurofisiologistas perplexos, desafiando a compreensão convencional do funcionamento do sistema nervoso inconsciente.
Para as 1499 pessoas nesta metáfora estatística, os arrepios são completamente involuntários. O pequeno músculo, chamado músculo eretor do pelo, é composto de fibras musculares lisas. E, como outros músculos lisos do corpo, aqueles responsáveis pela digestão, fluxo sanguíneo, respiração e assim por diante, eles são regulados inconscientemente.
Os nervos conectados a eles estão localizados no sistema nervoso autônomo, a parte do sistema nervoso dedicada a controlar funções corporais que você não deve controlar conscientemente, como a frequência cardíaca ou a dilatação da pupila.
Segundo James Heathers, autor do estudo e fisiologista da Universidade do Nordeste, de Boston, Massachusetts, Cerca de 80% dos participantes experimentam o fenômeno exatamente da mesma maneira. Eles contraem um músculo na parte de trás da cabeça, no pescoço ou atrás da orelha, e os arrepios resultantes se propagam pelas costas e chegam até os braços.
A maioria das pessoas com essa habilidade consegue fazer isso facilmente, e o efeito surge em pouco tempo. Em outras palavras, quem tem PGV só precisa pensar em ter arrepios, não nas situações que, em circunstâncias normais, sentiriam arrepios.
Ademais, os arrepios induzidos podem ser mais fortes do que os gerados inconscientemente. Pelo menos 60% dos participantes do estudo afirmaram que conseguem maximizar a intensidade e a resolução dos seus arrepios balançando a cabeça de um lado para o outro.
Correlação emocional: Os participantes apresentaram uma probabilidade significativamente maior de obter uma pontuação alta no traço de personalidade de abertura à experiência, que se relaciona com ser imaginativo, criativo e receptivo a novas ideias.
Que vantagem "Maria leva" arrepiando-se a torto e a direito? Cerca de um terço dos participantes relatou usar seus arrepios voluntários para se concentrar durante tarefas difíceis, como fazer provas, ou simplesmente para aprimorar experiências estéticas ou sensitivas, como ouvir música ou ver um filme.
Talvez se conseguíssemos entender o que acontece com o sistema nervoso parassimpático de alguém que consegue controlar uma dessas coisas, poderíamos aprender mais sobre a natureza da emoção. E compreender esse fenômeno peculiar pode ajudar a explicar por que as experiências físicas da emoção são mais intensas em algumas pessoas do que em outras, e como essas diferenças levam ao desenvolvimento de diversas características de personalidade.
Como sempre acontece, nesses casos misteriosos para a ciência, a proliferação de explicações esotéricas e sem base científica nas redes sociais, especialmente no TikTok, explodem, devido a economia de atenção e à natureza dos algoritmos, que priorizam conteúdos virais e altamente engajantes em detrimento da precisão factual. A lógica é impulsionada por fatores específicos que recompensam a desinformação.
A ciência real exige tempo, métodos, revisões e, muitas vezes, não oferece uma resposta definitiva. Isso é incompatível com vídeos dinâmicos de 15 a 60 segundos.
O TikTok lucra com a retenção e o envolvimento dos usuários. Alegações fantasiosas ou místicas geram curiosidade, debate nos comentários e compartilhamentos, alimentando o algoritmo que passa a impulsionar ainda mais o vídeo.
Histórias que conectam fenômenos biológicos a "despertares espirituais", "frequências vibracionais" ou "habilidades psíquicas" são muito mais atraentes e fáceis de assimilar do que explicações complexas sobre neurobiologia.
Nas redes, essa capacidade fisiológica documentada na neurociência é frequentemente ressignificada por criadores para angariar visualizações como se fosse um "poder secreto", uma conexão com espíritos, a aura ou a alteração de energias do ambiente.
Seja como for, nesse exato momento, o amigo Zé Roberto Isabela pode estar exercendo seu "superpoder" oculto como forma de aprimorar a leitura deste artigo do MDig.
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