![]() | Hoje no MDig, vamos fazer um tour por uma casa de turfa islandesa. De lado, você poderia facilmente confundi-la com um morro ou barranco gramado; um denso tapete de grama que cresce pelas paredes e sobre o telhado. Mas, olhando mais de perto, você verá uma pequena janela espreitando por trás dos dentes-de-leão, e ao redor da lateral, a fachada e uma porta que dá para uma passagem escura. Lá dentro, um corredor pavimentado com pedras planas e terra compactada dá acesso, de um lado, à cozinha, e, do outro a despensa, com batedeiras de manteiga e grandes recipientes de skyr (iogurte islandês). |

Na cozinha está uma construção indispensável da casa: uma lareira enorme cheia de panelas de ferro penduradas e um varal com fileiras de peixes defumados.
Durante o frio mais intenso, as ovelhas podiam ser levadas para o andar inferior da casa, para que o calor de seus corpos aquecesse um pouco mais o lar.
Subindo uma pequena escada íngreme no fim do corredor, você encontrará um longo quarto no mezanino conhecido como baðstofa, onde todos, exceto o dono e a dona da casa, se amontoam para dormir, dois por cama estreita.

E por todos, quero dizer todos mesmo, não apenas as crianças, mas também avós, criados e os "pobres" locais: viúvas, órfãos ou pessoas com deficiência que eram acolhidas pela família como ajudantes domésticos.

Como dá para imaginar, a baðstofa era o centro da vida doméstica. Ali, a família fazia as refeições junta, sentada em suas camas, e passava os dias escuros de inverno fiando, tecendo, contando histórias, recitando poemas e jogando xadrez.

Para deixar claro, esta é a representação de uma casa-de-turfa relativamente abastada. Uma moradia mais humilde foi descrita pelo arqueólogo Kristján Mímisson, no livro "Building Identities: The Architecture of the Persona".

Esta casa, construída para um único eremita, tinha apenas um pilar no telhado e, consequentemente, apenas um cômodo com altura suficiente para se ficar em pé; as passagens eram tão estreitas que Kristján as compara a "espremer-se por uma fenda em uma caverna", e a entrada de um dos cômodos era tão baixa que só era possível entrar rastejando.

As casas de turfa foram uma resposta engenhosa à escassez. Durante séculos, a única madeira adequada para a construção de casas na ilha era a madeira flutuante trazida pelas ondas de naufrágios e florestas distantes.

Consequentemente, os projetos de casas islandesas tinham que usar o mínimo de madeira possível, apenas alguns postes e vigas do telhado. O restante da estrutura era feito de pedras, cuidadosamente empilhadas, sem argamassa, e turfa cortada em pedaços dos pântanos. Se feito corretamente, o material crescia e formava uma camada coesa e isolante.

Como era realmente viver em uma casa-de-turfa? Os visitantes da época não poupavam palavras. Em um relato do livro "Viagens na Islândia", Sir George Steuart Mackenzie diz que as grossas paredes de turfa, os pisos de terra constantemente úmidos e imundos, a falta de higiene pessoal dos habitantes, tudo se unia para causar um odor insuportável para um estranho.
- "Não há como ventilar nenhuma parte da casa", escreve ele. - "E como vinte pessoas às vezes comem e dormem no mesmo cômodo, vapores muito pungentes se somam em grande quantidade aos abundantes efluentes provenientes de peixes, sacos de óleo, peles, etc."

Segundo ele, uma casa de fazenda se parecia mais com uma vila do que com uma única habitação. Às vezes, várias famílias viviam confinadas dentro da mesma massa de turfa.

Como bom britânico que era, Sir George escreve com o ar de superioridade característico de um turista da alta sociedade, mas os próprios islandeses parecem ter abandonado as casas-de-turfa com entusiasmo, assim que surgiram alternativas.
Antes de 1910, a maioria da população do país vivia em casas-de-turfa . Na década de 1930, a pedra e o concreto substituíram a turfa e, hoje, as poucas que restam foram em sua maioria transformadas em museus.
Há algumas casinhas também contruídas visando o turimo e alugadas no AirBnb. Curiosamente elas não costumam receber boas notas, porque, por mais lindas que sejam, se não forem equipadas com um bom sistema de exaustão de ar possivelmente consideraríamos, com o mindinho levantado na cerimônia do chá, que Sir George Steuart Mackenzie tinha razão.
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