![]() | Todos nós já passamos por isso. O celular escorrega da sua mão, cai no concreto e seu coração dispara. Você se abaixa, vira o aparelho e solta um suspiro de alívio. Nem um arranhão sequer. Hoje, encaramos essa "armadura invisível" como algo natural, mas, há apenas 15 anos, esse tipo de durabilidade era considerado impossível. Tudo começou no final de 2006, quando Steve Jobs carregava um protótipo do primeiro iPhone no bolso, mas havia um grande problema: as chaves em seu bolso estavam riscando profundamente a tela de plástico do aparelho. |

Frustrado, Steve percebeu que o plástico não serviria e precisava de vidro, mas não de qualquer vidro. Precisava de um vidro incrivelmente fino, perfeitamente transparente e resistente o suficiente para suportar o dia a dia, e precisava dele em seis meses.
Para encontrar a solução, a Apple recorreu a uma descoberta acidental e inusitada, feita mais de 50 anos antes.
Nossa história começa, na verdade, em 1952, nos laboratórios da Vidros Corning, em Nova York, onde um químico chamado Don Stookey estava fazendo experimentos com uma amostra de vidro fotossensível.
Ele colocou uma amostra de vidro em um forno e ajustou a temperatura para 600°C, mas o forno apresentou uma falha. A temperatura disparou para 900°C. Don correu até lá, esperando encontrar apenas uma poça de vidro derretido e arruinado dentro de um forno quebrado.
Só que encontrou uma placa sólida de cor branca leitosa. Ele tentou retirá-la com uma pinça, mas a ferramenta escorregou. A placa caiu no chão duro e, em vez de se estilhaçar em mil pedaços, quicou antes de estabilizar.
Don havia inventado, acidentalmente, um híbrido de vidro e cerâmica. Esse acidente feliz deu início a um grande projeto de pesquisa na Corning, na década de 1960, chamado "Projeto Músculo". O objetivo era criar o vidro mais resistente que o mundo já tinha visto.
O resultado foi um produto chamado Chemcor, uma maravilha científica. Era incrivelmente resistente e podia dobrar sem quebrar.
A Corning acreditava que ele mudaria o mundo, mas havia um problema: ninguém queria. Na década de 1960, simplesmente não havia demanda de mercado em massa por um vidro leve e ultra-resistente. Ele era caro demais para janelas comuns, e as fabricantes de automóveis não tinham interesse.
O Chemcor foi um fracasso comercial. Foi discretamente guardado em uma caixa, colocado em uma prateleira empoeirada nos arquivos da Corning e praticamente foi esquecido. Permaneceu lá por quase 50 anos, até 2006, quando o CEO da Corning, Wendell Weeks, recebeu um telefonema de Steve Jobs.
Steve explicou o problema que enfrentava com um protótipo de iPhone que riscava facilmente. Wendell lembrou-se do experimento fracassado da década de 1960 e falou a Steve sobre o Chemcor.
Steve exigiu um grande suprimento do material. O único desafio era que a Corning precisava descobrir como produzi-lo em massa, com espessura microscópica, em menos de seis meses.
Para realizar esse milagre, os cientistas da Corning resgataram as antigas fórmulas do Chemcor e modernizaram um processo brilhante chamado "troca iônica".
Eis como funciona, sem termos técnicos complicados: o vidro é composto naturalmente por diferentes elementos químicos, incluindo pequenos íons de sódio. A Corning pegava suas finas folhas de vidro e as mergulhava em um banho de sal líquido em ebulição.
O calor provocava uma reação química: os pequenos íons de sódio saíam do vidro e eram substituídos por íons de potássio, maiores, provenientes do banho de sal. Como esses novos íons de potássio são fisicamente maiores, eles se espremiam nos espaços microscópicos, compactando a superfície do vidro com extrema força à medida que ele esfriava.
Imagine encher uma mala completamente e, depois, forçar a entrada de mais 10 casacos de inverno nela. Essa intensa pressão para fora cria uma espécie de blindagem, impedindo que rachaduras e arranhões penetrem na superfície. Eles rebatizaram esse supervidro como Vidro Gorilla.
Quando o primeiro iPhone foi lançado, em 2007, ele trazia o Gorilla da Corning, mudando para sempre o mercado de eletrônicos de consumo.
Hoje, esse material incrível é utilizado em mais de 8 bilhões de dispositivos em todo o mundo. É uma característica marcante da era moderna, nascida de um forno quebrado em 1952, de um produto fracassado nos anos 60 e de um telefonema desesperado em 2006.
O Gorilla foi profundamente reinventado ao longo dos anos e a Corning continua vendendo o produto para diferentes marcas de celulares e tablets, menos para a Apple.
Apesar de ter patente de seus vidros, não há como patentear a tecnologia de troca iônica como princípio físico de reforço químico. Assim, outras empresas criaram alternativas próprias, como o Ceramic Shield da Apple ou o DragonTrail da Vidros Asahi, mas a Corning mantém a dominância atualizando suas fórmulas para proteger sua posição de mercado.
Isso prova que, às vezes, as invenções que mais transformam o mundo estão apenas tomando poeira esperando pacientemente em uma prateleira até que o futuro esteja pronto para elas.
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