![]() | Eu entendo muito bem por que a expressão "história revisionista" se tornou pejorativa. O revisionismo histórico é muito ruim quando parte de uma conclusão pronta para distorcer ou inventar fatos por interesses políticos e ideológicos. Diferente da pesquisa científica que investiga novas provas com método, o mau revisionismo manipula dados para apagar crimes, atacar a democracia ou justificar preconceitos. Seja como for todo conhecimento precisa ser revisado periodicamente, à medida que adquirimos novas informações e, idealmente, descartamos velhos preconceitos e perspectivas limitadas. |

Criado pelo Gemini.
O revisionismo histórico legítimo, frequentemente chamado de resgate histórico, corrigiu o apagamento de mulheres fundamentais para a construção do Brasil. Pesquisas recentes baseadas em documentos e diários trouxeram essas figuras da margem para o centro da história nacional.
Maria Firmina dos Reis foi ignorada pelos manuais de literatura brasileira por mais de um século, quando foi a primeira romancista negra do Brasil ao escrever "Úrsula" (1859).
A atuação de Antonieta de Barros como educadora e jornalista no Sul do Brasil ficou restrita a registros locais e esquecida pelo grande público. Ela foi a primeira deputada estadual negra do país em Santa Catarina e criadora do Dia do Professor.
O que falar então de Maria Quitéria, que, cuja história, por muito tempo, foi tratada apenas como uma curiosidade folclórica de uma mulher que se vestia de homem para lutar. Novas análises militares e políticas a reconheceram como uma heroína de guerra estratégica essencial na Consolidação da Independência do Brasil na Bahia.
A omissão nesse processo parece fundamentalmente regressiva, não apenas em termos políticos, mas também em termos de como valorizamos pesquisas precisas, interessantes e engajadas.
Essas pesquisas nos trouxeram histórias fascinantes sobre pessoas anteriormente marginalizadas que fizeram contribuições significativas também para a descoberta científica, como as muitas mulheres que trabalharam em Bletchley Park durante a Segunda Guerra Mundial, ajudando a decifrar códigos criptografados como o Enigma nazista -de quase 10.000 decifradores de códigos, cerca de 75% eram mulheres-, receberam o devido reconhecimento histórico, graças a pesquisadores "revisionistas".
E, como observamos em uma publicação anterior, talvez não soubéssemos muito, ou nada, sobre as significativas contribuições da estrela de cinema Hedy Lamarr para as tecnologias sem fio, GPS e Bluetooth, não fosse o trabalho de historiadores revisionista.
Esses poucos exemplos, entre muitos, nos mostram uma visão mais completa, precisa e interessante da história e inspiram mulheres e meninas que desejam ingressar na área de ciência, mas que cresceram com poucos modelos a seguir.
Podemos adicionar ao panteão das grandes mulheres na ciência o nome de Ada Byron, Condessa de Lovelace, filha do poeta romântico Lord Byron. Ada é reconhecida por ter escrito o primeiro programa de computador, apesar de ter vivido um século antes da invenção do computador moderno.
- "Essa imagem de Ada sempre foi meio controversa e os historiadores discordam", escreveu o prodigioso matemático Stephen Wolfram. - "Para alguns, ela é uma grande heroína na história da computação; para outros, uma figura menor superestimada.”
Stephen dedicou algum tempo a analisar muitos documentos originais para desvendar o mistério.
- "Sinto que finalmente conheci Ada Lovelace e compreendi sua história", escreveu ele." - "De certa forma, é uma história enobrecedora e inspiradora; de outra, frustrante e trágica."
Já na década de 1840, Ada imaginou máquinas capazes de manipular símbolos, e não apenas números. E, embora alguns questionem seu título de primeira programadora do mundo, é inegável sua influência como uma matemática talentosa que estava muito, muito, muito, muito, muito à frente de seu tempo.
Seu pai era o poeta Lord Byron e, embora ele não tenha estado presente durante grande parte da vida da filha, também a incentivou a seguir carreira na ciência. Educada em matemática e música por sua mãe, Anne Isabella Milbanke, que tambéwm era Matemática.
Em 1833, a jovem Ada foi apresentada a Charles Babbage, professor de matemática da Universidade de Cambridge, hoje amplamente reconhecido como o "pai do computador". Ada tinha 17 anos; Babbage, 42. Mas eles eram pares intelectuais.
Babbage, inventor de uma máquina de calcular chamada Máquina Diferencial, um dispositivo de 60 centímetros de altura, acionado por manivela, com 2.000 peças de latão, a incentivou a seguir seus interesses em matemática, e ela o fez ao longo de toda a sua vida.
Pouco depois, Ada conheceu e se casou com William King, o Conde de Lovelace, assumindo todas as responsabilidades inerentes à sua condição de nobre, esposa e mãe. No entanto, ela manteve correspondência com Babbage ao longo das duas décadas seguintes.
A invenção mais notável de Babbage foi a Máquina Analítica, um dispositivo movido a vapor, feito de latão e ferro, que ele idealizou em 1837. O projeto incluía uma unidade central de processamento, chamada por ele de "moinho", e uma memória expansível, denominada "depósito". Controlada por cartões perfurados, que serviam para a entrada de dados, a máquina podia ser programada para realizar diversas operações matemáticas.
Em 1843, Babbage pediu a Ada que traduzisse uma descrição de sua máquina, escrita pelo matemático italiano Louis Menabrea, que ele gostou muito apesar de algumas erratas. Nos nove meses seguintes, ela não apenas realizou a tradução, como também acrescentou suas próprias notas, que acabaram sendo três vezes mais extensas do que o texto traduzido original.
Essas notas incluíam alguns dos cálculos do próprio Babbage, cálculos nos quais ela identificou e corrigiu erros. Mas, para demonstrar as possíveis aplicações da máquina, ela também descreveu como ela poderia ser usada para calcular uma sequência numérica complexa e intrigante, conhecida como números de Bernoulli.
Ela provou isso ao esquematizar os cálculos que a Máquina Analítica realizaria. Basicamente, ela havia criado um algoritmo de computador.
Ela também especulou que o dispositivo poderia ser útil para além dos números, podendo ser usado para manipular qualquer coisa regida por um conjunto fixo de regras.
Ela corretamente viu a Máquina Analítica como o que chamaríamos de computador de propósito geral. Era adequada para desenvolver e tabular qualquer função indefinida, de qualquer grau de generalidade e complexidade.
Ada afirmou que a máquina serviria tanto para fins práticos quanto científicos e que, um dia, poderia compor peças musicais elaboradas de qualquer complexidade ou extensão, ou seja, praticamente tudo o que fazemos com computadores hoje em dia.
Embora a Máquina Analítica nunca tenha sido construída, a tradução de Ada foi publicada e bem recebida, conquistando admiradores na comunidade científica britânica, como o pioneiro da eletroquímica Michael Faraday. O próprio Charles Babbage descobriu funções, descritas por Ada, que ele jamais imaginara.
Infelizmente, por ser mulher, ela não conseguiu ter acesso à biblioteca da Royal Society em Londres, e suas ambições foram frustradas por uma grave crise de saúde.
Ada faleceu de câncer em 1852, aos 36 anos. Somente 101 anos mais tarde, justamente quando as pessoas começavam a construir os computadores que ela havia imaginado, é que seu trabalho foi republicado, revelando o quão visionária ela havia sido.
Ada gostava de se definir como "analista e metafísica". Babbage a chamava de "Encantadora de Números".
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