![]() | - "Minha mãe." Isso foi tudo o que Christie Downs, de oito anos, precisava dizer. Depois de sobreviver a um AVC e recuperar lentamente a capacidade de falar, essa resposta em voz baixa aos investigadores destruiu o álibi de sua mãe, Diane Downs, e confirmou o que muitos já suspeitavam. Em 19 de maio de 1983, em um canto tranquilo do Oregon, nos arredores de Springfield, Diane Downs parou seu carro na rodovia e fez o impensável: atirou em seus três filhos -Christie (8), Cheryl Lynn (7) e Danny (3)- antes de apontar a arma para si mesma, simulando um roubo de carro que deu errado. |

Sua história sobre um "estranho de cabelo encaracolado" não convenceu as autoridades por muito tempo. Dois sobreviveram. Um não. O motivo? Começar uma nova vida com um homem que não queria filhos.
Quase quatro décadas depois, o caso ainda causa horror e perplexidade na mesma medida.
Nascida Elizabeth Diane Frederickson em 7 de agosto de 1955 em Phoenix, Arizona, Diane era a filha mais velha de Wesley e Willadene Frederickson, um casal conservador de ascendência dinamarquesa e inglesa. Sua infância, segundo ela própria afirmou posteriormente, foi marcada pela disciplina rígida e pela ausência emocional do pai.
- "Ele passava muito tempo com a minha mãe, e minha mãe não passava tempo nenhum comigo", disse ela em uma entrevista.
Mais tarde, Diane acusaria seu pai de abuso sexual durante a infância, uma alegação que ela posteriormente retratou e que ambos os pais negaram veementemente.
Sua adolescência foi marcada pela rebeldia. Na escola de segundo grau, ela abandonou as regras dos pais e começou a se envolver com garotos mais velhos. Um deles era Steve Downs, o homem com quem ela se casaria mais tarde, não por amor, como ela alegaria, mas para escapar da família, que ela odiava.
Após uma breve passagem pelo Faculdade Bíblica Batista da Costa do Pacífico, de onde foi expulsa por comportamento promíscuo, ela retornou ao Arizona e se casou com Steve em 1973.
Seguiram-se os filhos: Christie em 1974, Cheryl em 1976 e Danny em 1979. Mas a vida doméstica desmoronou rapidamente. Dificuldades financeiras, infidelidades mútuas e ressentimentos atormentaram o relacionamento. Em 1980, eles se divorciaram depois que Steve se convenceu de que Danny não era seu filho, uma suspeita posteriormente confirmada. O pai biológico da criança era Mark Sager, um homem que Diane havia seduzido para compensar a vasectomia de Steve.
Em 1982, ela deu à luz sua quarta filha, Jennifer, por meio de barriga de aluguel, apesar de ter sido reprovada duas vezes em avaliações psiquiátricas devido a sinais de psicose.
Trabalhando como carteira em Cottage Grove, Oregon, Diane vivia uma vida aparentemente normal. Mas, nos bastidores, seus filhos eram supostamente negligenciados e maltratados. Seu ex-marido testemunharia mais tarde que Diane não demonstrava nenhum afeto maternal, relembrando um momento particularmente perturbador em que Cheryl perguntou:
- "Tem alguma arma aqui? Quero me matar. Minha mãe diz que eu sou má."
Em 1981, Diane iniciou um caso com Robert "Nick” Knickerbocker, um ex-colega de trabalho casado do Arizona. Ela rapidamente ficou obcecada. Nick, no entanto, não queria ter nada a ver com a criação de filhos e terminou o relacionamento. Desesperada e obcecada, Diane só via um caminho a seguir.

(Da esquerda para a direita): Christie, Danny e Cheryl Downs.
Em 19 de maio de 1983, Diane atirou em seus três filhos e os levou em um carro ensanguentado para o Hospital McKenzie-Willamette em Springfield, Oregon. Ao chegarem, Danny, de 3 anos, estava paraplégico; Christie, de 8 anos, havia sofrido um derrame incapacitante; e Cheryl Lynn Downs, de 7 anos, estava morta. A própria Diane havia sido baleada no antebraço esquerdo.
Diane alegou ter sido vítima de um sequestro relâmpago em uma estrada rural perto de Springfield por um homem desconhecido que atirou nela e nas crianças. No entanto, investigadores e funcionários do hospital suspeitaram de sua versão dos fatos, pois consideraram seu comportamento calmo demais para alguém que acabara de vivenciar um evento tão traumático. Ela também fez uma série de declarações que tanto a polícia quanto os funcionários do hospital consideraram altamente inapropriadas.

Diane com sua lesão autoinfligida.
Diane alegou que, voltando para casa da casa de uma amiga, decidiu fazer um trajeto mais longo. Todos os seus filhos estavam dormindo e, por volta das 22h, viu um homem estranho parado na estrada, fazendo sinal para que ela parasse.
Ela disse que encostou o carro e saiu para conversar com o homem, descrevendo-o como um "estranho de cabelo encaracolado". Ele imediatamente exigiu que ela lhe entregasse as chaves do carro.
Diane afirmou que se recusou e que os dois entraram em luta corporal, resultando em um tiro disparado contra ela, atingindo seu braço esquerdo. Em seguida, ele abriu a porta do motorista e atirou em seus três filhos.
Diane disse então que fingiu jogar as chaves do carro em um arbusto e o homem foi procurá-las. Enquanto ele procurava as chaves, ela voltou para o carro e dirigiu em alta velocidade até o hospital mais próximo.
A equipe médica ficou imediatamente impressionada com a falta de reação emocional dela. O Dr. Steven Wilhite, que tratou de Christie, disse mais tarde:
- "Nem uma lágrima... Ela me disse coisas como: 'Nossa, isso realmente estragou minhas férias', e também disse: 'Isso acabou com meu carro novo. Tem sangue por toda a traseira dele'. Eu sabia, em 30 minutos de conversa com aquela mulher, que ela era culpada."
Não havia respingos de sangue na porta do lado do motorista. Nenhum resíduo de pólvora. Nenhum sinal de luta.
Ela negou possuir uma arma, mas tanto Steve Downs quanto Nick disseram o contrário à polícia. Embora a arma nunca tenha sido recuperada, cartuchos intactos encontrados em sua casa correspondiam às marcas do extrator da arma. Seu diário estava repleto de anotações obsessivas sobre Nick. Enquanto isso, ele disse à polícia que Diane o perseguia e que temia que ela pudesse machucar sua esposa. Ele ficou aliviado quando ela se mudou para o Oregon.
Seu comportamento só aumentou as suspeitas. Em vez de ficar ao lado dos filhos, ela telefonou para Nick. Manteve uma compostura perturbadora. Nove meses depois, em 28 de fevereiro de 1984, Diane foi presa e acusada de um homicídio e duas tentativas de homicídio, além de duas agressões.
Durante o julgamento, a promotoria pintou um quadro arrepiante: Diane Downs assassinou e tentou assassinar seus próprios filhos para se libertar e ficar com um homem que não os queria. A acusação se baseou fortemente em provas forenses, e no depoimento devastador de Christie Downs, que a essa altura já havia recuperado a capacidade de falar.
Quando lhe perguntaram quem atirou nela, ela respondeu simplesmente:
- "Foi minha mãe."
Os psiquiatras diagnosticaram Diane com transtornos de personalidade narcisista, histriônica e antissocial. Um deles a descreveu como uma sociopata desviante, afirmando que - "... ela não demonstra remorso. Ela trata seus filhos sem empatia, como objetos ou posses."
Em 17 de junho de 1984, Diane Downs foi condenada por todas as acusações. O juiz a sentenciou à prisão perpétua e deixou claro que ela jamais seria libertada. Diane teria direito à liberdade condicional após 25 anos, mas a estrutura de sua sentença tornava a soltura praticamente impossível. Na reencenação do crime, de forma bizarra e histriônica, a mulher conseguiu mesmo rir da situação.
Em julho de 1987, apenas três anos após o início de sua sentença no Centro Correcional Feminino do Oregon, Diane fugiu. Ela escalou uma cerca de arame farpado de 5,5 metros e desapareceu. Durante dez dias, ela escapou de uma busca que abrangeu 14 estados antes de ser capturada. Com a ajuda do marido de uma colega de cela, ela estava escondida em uma casa próxima.
Preocupado com a segurança de Christie e Danny, que moravam a apenas 106 quilômetros da prisão, o promotor Fred Hugi fez lobby com sucesso para que Diane fosse transferida para fora do estado. Ela foi transferida primeiro para Nova Jersey e depois para a Califórnia, acabando finalmente na Prisão Estadual Feminina do Vale, em Chowchilla, até sua conversão em uma penitenciária masculina em 2013.
Ela obteve um diploma de nível técnico na prisão, mas continuou negando sua culpa, repetindo sua história do "estranho de cabelo encaracolado" durante as audiências de liberdade condicional em 2008, 2010 e 2020, todas negadas. O promotor do Condado de Lane, Douglas Harcleroad, observou em 2008:
- "Diane continua sem demonstrar qualquer compreensão honesta sobre seu comportamento criminoso... ela continua a inventar novas versões dos acontecimentos."
Imediatamente após o julgamento de Diane, o promotor Fred Hugi e sua esposa, Joanne, adotaram Christie e Danny, segundo reportagem ABC News.
Segundo a mídia local, Christie, que agora tem 49 anos e testemunhou contra a mãe durante o julgamento, formou-se na faculdade, casou-se e constituiu família, incluindo uma filha que recebeu o nome de sua falecida irmã, Cheryl. Ela vive uma vida feliz e tranquila com o marido e os filhos no Oregon.
Como mencionado anteriormente, Danny, que agora tem 44 anos, foi adotado junto com sua irmã Christie pelo promotor do caso. E, assim como sua irmã, Danny também se formou na faculdade e leva uma vida feliz e reservada. Não se sabe ao certo onde ele acabou, mas era conhecido por ser um gênio da informática.
Diane estava grávida na época de sua prisão e deu à luz uma menina, Amy Elizabeth, apenas um mês após sua condenação. A criança foi apreendida pelo Estado e adotada por Chris e Jackie Babcock, que a renomearam Rebecca.
Rebecca Babcock falou publicamente sobre sua identidade e as emoções difíceis que enfrentou ao descobrir quem era sua mãe biológica. Em uma participação no programa da Oprah Winfrey em 2010, ela descreveu a "síndrome de Downs" como "um monstro" e expressou arrependimento por ter entrado em contato com ela. Mais tarde, Rebecca foi tema da segunda temporada do podcast Happy Face, que detalhou suas tentativas de encontrar seu pai biológico.
- "Minha infância foi de sonhos e tivemos todas as oportunidades que desejávamos", disse ela à ABC News. - "Meus pais queriam que prosperássemos, aprendêssemos e crescêssemos."
Em outubro de 2025, após mais de quatro décadas atrás das grades, uma senhorinha de cabelos brancos disse à comissão de liberdade condicional do Oregon que continua inocente de ter atirado em seus três filhos, mas admitiu a culpa por tê-los colocado em perigo.
- "Sou inocente do disparo, mas sou culpada de colocar meus filhos em perigo", disse Diane. - "Isso é algo que nunca consegui superar. Em todas as aulas, não consegui superar isso. Não consigo. Não há desculpa. Não há como mudar o passado. Não há como voltar atrás e não há perdão para isso."
O advogado de Diane entrou com um pedido de exame de DNA, pois esperava que novas evidências revelassem o que ele chama de "toda a verdade".
A comissão de liberdade condicional deliberou sobre a libertação de Diane em dezembro e mais uma vez negou. O promotor do caso também negou o pedido de exame de DNA, simplesmente porque não há nenhum objeto a periciar, exceto se tenham descoberto o paradeiro da arma que Diane escondeu.
Um representante da comissão de liberdade condicional escreveu na negativa que Diane - "... tem um distúrbio, deficiência, condição ou transtorno mental ou emocional que a predispõe à prática de qualquer crime a um grau que a torna um perigo para a saúde ou segurança de outros; portanto, a condição que a tornou perigosa não está em remissão e ela continua sendo um perigo."
Em outras palavras, nada mudou no estado mental da mulher desde que cometeu os crimes contra seus filhos. Como ela demonstrou falta de remorso, a comissão de liberdade condicional estipulou que ela deve esperar mais 10 anos antes que seu caso possa ser reconsiderado, quando ela terá 80 anos de idade. Muitos acreditam quem até lá ela já estará repousando no quentinho colo do capeta.
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