![]() | O cabelo pode ser uma parte muito importante da forma como nos vemos. E isso significa que perdê-lo pode ser uma experiência estressante. Se você optar por assumir a careca, existem comunidades inteiras na rede dedicadas a apoiar entusiasticamente essa decisão. Mas perder o cabelo ainda pode parecer algo muito sério, e as opções de tratamento disponíveis são limitadas e caras. No entanto, a ciência está trabalhando intensamente, e uma descoberta recente pode revolucionar nossa compreensão sobre o assunto. |

E não se trata apenas de calvície! Essa pesquisa pode levar a avanços na compreensão de como as células crescem e se dividem... e isso significa que uma cura para a calvície poderia nos ajudar a estudar o câncer.
Embora geralmente associemos a calvície aos homens e à idade avançada, pessoas de qualquer gênero e fase da vida podem sofrer com ela. Isso pode acontecer por diversos motivos, mas, de modo geral, a calvície ocorre quando os folículos capilares param de produzir cabelo.
Veja bem: o fio de cabelo em si não é vivo; ele é basicamente um conjunto de células mortas envolvendo várias proteínas, principalmente a queratina. O cabelo é produzido pelo folículo capilar vivo, localizado nas camadas intermediárias ou inferiores da pele.
Para produzir suas madeixas, os folículos capilares alternam entre fases de crescimento e repouso, em um processo impulsionado por células-tronco do folículo capilar. Quanto mais longo o período de crescimento, mais comprido o cabelo fica, e cada tipo de pelo no corpo tem tempos de crescimento diferentes.
É por isso que você não precisa se preocupar com a possibilidade de seus cílios ou pelos das axilas crescerem quase um metro!
Após a fase de crescimento, o folículo capilar entra em um período de repouso no qual o pelo para de crescer e, eventualmente, cai. Então, novas células capilares preenchem o folículo vazio, e o ciclo recomeça. A menos que... isso não aconteça. Se nenhum fio novo surgir para substituir o antigo que caiu, instala-se a calvície.
Tecnicamente, qualquer tipo de calvície é chamado de alopecia, embora o termo seja usado na linguagem cotidiana principalmente para se referir à condição autoimune conhecida como alopecia areata, na qual o corpo ataca seus próprios folículos capilares.
Outro tipo de perda de cabelo é a alopecia androgenética, comumente conhecida como calvície de padrão masculino. Trata-se de uma condição amplamente genética. O termo "calvície de padrão masculino" é um tanto impreciso, já que a alopecia androgenética pode afetar pessoas de qualquer gênero.
Em pessoas com níveis mais elevados de testosterona, ela causa aquela típica linha capilar em formato de "M" que recua com o tempo; já em pessoas com mais estrogênio, tende a ocorrer um alargamento da risca do cabelo em vez de um recuo da linha capilar frontal.
Embora o cabelo possa voltar a crescer em alguns casos, isso nem sempre acontece, dependendo da causa da calvície. Além disso, não existe uma cura definitiva para prevenir a calvície indesejada.
Um dos tratamentos mais comuns é o minoxidil, também conhecido pela marca Rogaine. Não se sabe exatamente como o minoxidil funciona, mas ele parece prolongar a fase de crescimento dos folículos capilares. Ele também pode aumentar o fluxo sanguíneo para o couro cabeludo, ajudando a levar mais nutrientes aos fios.
Independentemente do mecanismo exato, a aplicação de minoxidil no couro cabeludo duas vezes ao dia demonstrou reduzir a velocidade da queda de cabelo e aumentar a quantidade de fios por centímetro quadrado nos estágios iniciais do afinamento capilar.
Outro tratamento comum é a finasterida, um medicamento via oral que exige prescrição médica (venda sob receita branca comum). Oficialmente, sua aprovação em bula é apenas para homens (para calvície a 1 mg ou próstata aumentada a 5 mg).
A finasterida atua impedindo que a testosterona do organismo se converta em uma molécula que interrompe o crescimento do cabelo. Infelizmente, alguns homens relataram efeitos colaterais graves relacionados à saúde mental. Além disso, o medicamento pode aumentar o risco de desenvolver câncer de próstata e de mama.
Ambos os medicamentos são exemplos clássicos de serendipidade. A finasterida era, ainda é, usada para Tratamento da Hiperplasia Prostática Benigna, para reduzir o tamanho da próstata aumentada. Já o minoxidil era recomendado para quem sofre de pressão alta grave, mas seu efeito colateral, hipertricose, se mostrou bastante efetivo contra queda de cabelo em doses menores.
O óleo de alecrim é uma opção de venda livre, mas as evidências clínicas sobre seus benefícios não são totalmente conclusivas. E, claro, existe a opção do transplante capilar!
Os transplantes são considerados uma solução permanente, mas são procedimentos muito mais complexos e caros. Assim, dadas as opções atuais no mercado, não é de surpreender que haja tanto interesse em encontrar uma solução de longo prazo para a calvície.
Uma equipe de pesquisadores investigou uma proteína central nesse processo, chamada MCL-1, uma proteína que inibe a apoptose, ou morte celular programada.
Como os folículos pilosos passam pela apoptose durante o período de repouso, os pesquisadores imaginaram que estudar a MCL-1 poderia revelar mais detalhes sobre o que exatamente ocorre nesses ciclos de repouso. Então, eles fizeram algo típico de cientistas: para descobrir a função de uma proteína, pegaram alguns camundongos e eliminaram essa proteína!
Os pesquisadores removeram o gene MCL-1 da pele de alguns camundongos logo no nascimento e, sem a MCL-1 para conter a apoptose, houve morte celular excessiva. Os camundongos nasceram com folículos pilosos, mas acabaram perdendo as células-tronco desses folículos.
Em outro grupo de camundongos, os pesquisadores desativaram o gene repentinamente quando os animais tinham 55 dias de vida e rasparam uma área de pelo em suas costas para observar o que aconteceria. Os camundongos do grupo de controle, que ainda tinham a MCL-1 ativa, recuperaram o pelo raspado, mas aqueles sem a MCL-1 não o fizeram e acabaram perdendo todos os folículos pilosos até o 90º dia.
O papel da MCL-1 na prevenção da apoptose parece impedir a morte das células-tronco foliculares. Além disso, ela parece estar envolvida em vias biológicas mais críticas do que apenas o crescimento do pelo, interagindo com vários outros reguladores importantes que controlam o ciclo de vida celular.
Um destaque é a p53, famosa por sua atuação como reguladora anticancerígena no organismo. Essa proteína protege o corpo contra o câncer ao controlar genes que estimulam a apoptose, levando à morte células potencialmente problemáticas. A p53 basicamente age dizendo: "DNA danificado? Estresse celular? Aqui não!" e elimina essas células.
Entre suas diversas funções, a p53 atua de forma oposta à MCL-1: a p53 promove a apoptose, enquanto a MCL-1 a inibe. Em condições normais, essas duas proteínas trabalham em conjunto para manter o crescimento do pelo sob controle adequado.
Os pesquisadores descobriram que as células-tronco dos folículos capilares sofrem estresse quando se dividem rapidamente, o que sinaliza para a ativação da p53. Então, para descobrir exatamente o que a p53 está fazendo aqui: é hora de mais eliminações de genes!
Desta vez, os cientistas removeram tanto o gene p53 quanto o MCL-1. E os camundongos sem p53 ou MCL-1 acabaram ficando com pelos! Embora a ausência de MCL-1 devesse, em teoria, resultar em morte celular excessiva e na falta de pelos, a remoção do gene que codifica a p53 salvou a pelagem dos animais.
Isso demonstrou que a p53 e a MCL-1 mantêm um equilíbrio mútuo, sendo necessária a presença de ambas nas quantidades certas para controlar o crescimento do pelo. Como em quase tudo na biologia, o segredo está no equilíbrio.
Agora, embora tenhamos identificado algumas das principais proteínas envolvidas na perda de cabelo, transformar esse conhecimento em tratamentos ainda exigirá muita pesquisa. Precisaríamos encontrar uma maneira de aumentar a atividade da MCL-1, algo que esta pesquisa ainda não oferece.
E, aliás, desativar completamente a p53 está fora de cogitação. "Curamos sua calvície, mas lhe damos câncer!" é uma opção totalmente inviável.
No entanto, encontrar evidências do papel da MCL-1 na apoptose, especialmente em células-tronco, é um passo fundamental para compreender o câncer.
Há interesse em utilizar a MCL-1 como alvo em tratamentos contra o câncer, caso consigamos descobrir como ajustar sua atividade com precisão. Compreender o impacto da MCL-1 nas células-tronco também é promissor para o estudo da regeneração de tecidos.
Visto que as células-tronco podem se diferenciar em diversos tipos celulares, descobrir uma proteína capaz de controlá-las poderia permitir manipular quais tecidos crescem e em que momento.
Mesmo que ainda não tenhamos encontrado a cura para a calvície, o processo de estudo da perda de cabelo revelou outra via utilizada pelo organismo para controlar o crescimento celular e o câncer. E isso pode levar a avanços significativos que vão muito além do topo da sua cabeça.
Então, camundongos carecas e homens carecas, mantenham a cabeça erguida, sabendo que a pesquisa sobre a perda de cabelo nos levou a mais um passo em direção à compreensão do câncer e da calvície também!
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